Checamos o debate da TV Cultura com os candidatos à Prefeitura de São Paulo

Checamos o debate da TV Cultura com os candidatos à Prefeitura de São Paulo

Veja os erros e os acertos do último encontro entre os postulantes a prefeito antes do primeiro turno das eleições 2020

Alessandra Monnerat, Daniel Bramatti, Pedro Prata, Tiago Aguiar e Guilherme Bianchini, especial para o Estadão

13 de novembro de 2020 | 00h27

Os candidatos à Prefeitura de São Paulo se reuniram na noite desta quinta-feira, 12, para o último debate antes do primeiro turno das eleições 2020, no domingo. A TV Cultura convidou Bruno Covas (PSDB), Joice Hasselmann (PSL), Andrea Matarazzo (PSD), Orlando Silva (PCdoB), Márcio França (PSB), Guilherme Boulos (PSOL), Jilmar Tatto (PT), Celso Russomanno (Republicanos), Marina Helou (Rede) e Arthur do Val (Patriota). Veja, abaixo, a checagem das falas dos concorrentes a prefeito.

Estadão Verifica entrou em contato com as assessorias dos candidatos, e atualizará esta matéria à medida que as respostas chegarem.

Candidatos à Prefeitura de SP fazem último debate antes das eleições, promovido pela TV Cultura no auditório do Memorial da América Latina Foto: ALEX SILVA/ESTADÃO

Guilherme Boulos (PSOL)

“A prefeitura atual prometeu 72km de corredores de ônibus e fez apenas 3”.

Não é bem assim. De acordo com o último relatório de metas da gestão municipal, foram implantados 14,8 quilômetros de de corredores e faixas exclusivas de ônibus. Em 2020, a Prefeitura inaugurou um trecho de 2,1 quilômetros em Itaquera. De acordo com o documento da gestão municipal, a meta era instalar 9,4 quilômetros de novos corredores.

A assessoria de Boulos respondeu à checagem dizendo que “a meta de 72 km era de Doria e Bruno ao assumir a Prefeitura. Eles recusaram para 9,4 depois de se eleger com essa proposta. Sobre o número implantado, a Prefeitura soma, equivocadamente, corredores e faixas”.

Guilherme Boulos. Foto: Alex Silva/Estadão

Bruno Covas (PSDB)

“Me orgulho muito de tudo o que fizemos na cidade de São Paulo, das 85 mil vagas em creche”.

A Prefeitura prevê criar esse número de vagas até o final de 2020, mas ainda não concretizou a promessa. A diferença no número de crianças matriculadas em creches entre dezembro de 2016 e setembro de 2020 é de 73.333, segundo os dados mais recentes da gestão municipal. O Estadão Verifica já checou essa alegação anteriormente e a assessoria de Bruno Covas argumentou que houve um salto de matrículas em setembro e outubro.

“Me orgulho muito (…) dos 12 novos CEUs”.

Essa informação é verdadeira, de acordo com o relatório de metas da gestão municipal. As unidades inauguradas são: CEU Artur Alvim – Abdias do Nascimento; CEU Carrão – Carolina Maria de Jesus; CEU Cidade Tiradentes – Enedina Alves Marques; CEU Freguesia – Esperança Garcia; CEU José Bonifácio – Francisco José do Nascimento (Dragão do Mar); CEU Parque do Carmo – João Cândido (Almirante Negro); CEU Parque Novo Mundo – Leônidas da Silva; CEU Pinheirinho – Luis Gama; CEU São Miguel – Luiz Melodia; CEU Taipas – Profa Maria Beatriz Nascimento; CEU Tremembé – Maria Firmina dos Reis; CEU Vila Alpina – Prof Virginia Leone Bicudo.

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Márcio França (PSB)

“Boa parte das pessoas se contaminou no transporte coletivo”.

Márcio França voltou a dizer que boa parte das pessoas se contaminou com covid-19 no transporte público. Um inquérito sorológico publicado pela Prefeitura de São Paulo em setembro indicou que não houve diferença significativa entre a prevalência de infecção entre pessoas que usam transporte coletivo (14,1% no dado mais recente) e as que não usam (13,5%). Os índices se referem a estimativas com paulistanos maiores de 18 anos.

O Estadão Verifica já havia checado uma alegação parecida. A assessoria do candidato respondeu na ocasião que “existe uma relação direta entre condições socioeconômicas e infecção pelo coronavírus. As pessoas mais carentes, que chegam a passar até três horas, em uma cidade como São Paulo, em ônibus, trens e metrôs lotados foram as pessoas mais vulneráveis ao vírus. (…) O transporte público pode, sim, ser um vetor de propagação do vírus”.

“Eu vi uma expressão do governador João Doria, que chamou os servidores aposentados de vagabundos”.

Em evento na cidade de Taubaté em outubro de 2019, Doria chamou de “vagabundos” os manifestantes que o criticavam. O grupo era composto, em maioria, por policiais militares aposentados. Um dos manifestantes apresentou queixa ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), por injúria e difamação, mas a Corte arquivou o pedido.

“A minha manifestação não foi para ofender ninguém, nenhuma classe, principalmente de aposentados. Eu reagi, sim, para responder aquele pequeno grupo de baderneiros que ali estavam, com uma minoria que torce contra”, disse o governador.

Joice Hasselmann (PSL)

“Teve hospitais de campanha que não chegaram a ser utilizados”.

Isso é falso. A Prefeitura de São Paulo construiu dois hospitais de campanha neste ano, o do estádio do Pacaembu, fechado em 29 de junho e o do Anhembi, fechado em setembro. O segundo tinha capacidade para até 1,8 mil leitos de baixa complexidade, mas 929 deles eram de contingência e não chegaram a ser utilizados.

No dia 30 de setembro, o Hospital de Campanha do Ibirapuera, a última instalação desse tipo ainda em funcionamento no Estado, foi fechado pelo governador João Doria. O hospital de campanha de Heliópolis, também de responsabilidade estadual, atendeu quase mil pacientes de 40 cidades paulistas.

“O sr. com sete meses foi para a Croácia com seus amigos (para Bruno Covas). Seu candidato a vice é investigado”.

De fato, em julho de 2017, quando ainda era vice-prefeito, Bruno ficou fora da cadeira por 13 dias, por uma viagem de lazer. Joice ainda acusou o candidato a vice de Bruno Covas de ser investigado. O vereador Ricardo Nunes (MDB) de fato é investigado pelo Ministério Público de São Paulo por suposto superfaturamento em aluguel de creches.

Marina Helou (Rede) 

“Em 2019, tínhamos quase 24 mil pessoas em situação de rua”.

Isso é verdade. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua da Prefeitura, esse número aumentou 60% entre 2015 e 2019.

“De 2016 a 2019, o orçamento da Assistência Social teve um corte de 33%”.

A informação está correta. O orçamento em 2016 era de R$ 203.437.962,00 e reduziu para R$ 137.122.881,00, diminuição de 32,59%.

Andrea Matarazzo (PSD)

“No hospital Tide Setúbal morreram 67% das pessoas que chegaram lá com covid”.

A taxa de mortalidade mais recente dos pacientes da covid-19, divulgada pelo hospital, foi de 63%, no começo de agosto. O número foi citado pelo diretor da unidade, Carlos Alberto Velucci, em reportagem da Folha de S. Paulo. Segundo Velucci, a porcentagem alta se devia ao fato de pacientes chegarem a hospitais da periferia com um estágio muito avançado da doença.

“Metade da população fica 4, 5, 6 horas por dia no transporte”.

O candidato exagerou ao afirmar que metade dos paulistanos gasta entre quatro e seis horas por dia no transporte. De acordo com a pesquisa “Viver em São Paulo: Mobilidade Urbana”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência, 26% da população gasta mais de duas horas em deslocamentos. Em 2019, a taxa era de 21%. Segundo a pesquisa, o tempo médio diário de deslocamento para realização da atividade principal, atualmente, é de 1h37min.

Celso Russomanno. Foto: Alex Silva/Estadão

Celso Russomanno (Republicanos)

“(Falando com Guilherme Boulos) no outro debate, eu te perguntei de duas empresas (…) que eram fantasmas”.

O candidato Celso Russomanno (Republicanos) citou um vídeo feito por um ativista bolsonarista que já foi alvo da Polícia Federal nos inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF) contra fake news e atos antidemocráticos. O vídeo associa o candidato do PSOL à Prefeitura, Guilherme Boulos, a um suposto esquema de laranjas. A Justiça Eleitoral aceitou um pedido de Boulos para retirar o vídeo do ar. Segundo o juiz que analisou o caso, as acusações são “inverídicas”. Ele determinou a abertura de inquérito por calúnia contra Russomanno.

“Você falta o tempo todo (para Arthur do Val)“.

Arthur do Val tem 92% de presença nas sessões plenárias da Assembleia Legislativa de São Paulo, segundo dados oficiais. Entre ausências justificadas e não justificadas, o parlamentar faltou em 28 de 351 sessões desde 2019, quando iniciou seu mandato como deputado. O período mais faltoso do candidato a prefeito foi em março de 2019 — naquele mês, deixou de comparecer em cerca de um terço das sessões (nove de 28).

Orlando Silva (PCdoB)

“O desemprego atinge 15,5% dos trabalhadores. Entre jovens, é quase o dobro”.

O candidato exagerou ao comentar o desemprego entre jovens na cidade de São Paulo. O candidato disse que atinge 15,5% dos trabalhadores e que entre jovens, “é quase o dobro”. De acordo com a Pnad Contínua do primeiro trimestre de 2020, a desocupação de paulistanos entre 18 e 24 anos estava na casa dos 31,4%; de 25 a 39 anos, a taxa é de 28,7%; e entre 40 e 59 anos, o desemprego registrou 26,3%. Portanto, a taxa entre jovens não é tão maior que outras faixas etárias.

Segundo a assessoria, Orlando se referiu aos dados nacionais: 14,4% geral e 29% entre jovens. “A cidade de São Paulo, em estatísticas anteriores, acompanha os números do Brasil, não necessariamente os mesmos números absolutos, mas na proporção geral/jovens.”

Jilmar Tatto (PT)

“Durante o governo Haddad, de cada 10 pessoas que foram tratadas, 9 deixaram de usar o crack. 7 pegaram emprego em varrição”.

Em 2014, seis meses após o início do programa, segundo dados da própria Prefeitura, houve redução do consumo pelos participantes em até 70% na frequência ou dose utilizada. Mas não havia dados disponíveis da porcentagem que deixou completamente de usar crack. Segundo estudo feito pela Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD) e Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), com o mandato de Haddad já quase encerrado, 65% dos usuários reduziram seu consumo de crack após participar do programa.

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Outro estudo da própria Prefeitura, do início de 2016, estimou que esse número chegaria a 85%. A parcela estimada que ingressou em trabalhos é de fato em torno de 70%.

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“No governo do Haddad, ele fez 35 Horas Certas”

Isso é verdade. De acordo com o relatório do fim da gestão petista, de 2016, a Prefeitura superou a meta estabelecida de chegar a 32 unidades instaladas. Entre os Hora Certa instalados, 16 eram fixos e 10, modulares.

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Arthur do Val (Patriota)

“Eu sou o único candidato que não está usando dinheiro do seu imposto para fazer campanha”.

Arthur do Val disse que é o único candidato entre os presentes no debate que abriu mão de receber fundo eleitoral, o que é verdade. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou que três assessores do gabinete de Arthur do Val na Assembleia Legislativa de São Paulo participaram de atividades de campanha. O presidente municipal do Patriota em São Paulo, Renato Battista, que está lotado na liderança do partido na Assembleia, participou de reuniões de campanha em horário comercial. A matéria da Folha também destacou que o candidato usa 16 segundos do horário eleitoral gratuito na televisão e rádio, o que configura uso indireto de dinheiro público.

“Nosso atual prefeito gastou R$ 100 milhões em uma obra faraônica que alagou no primeiro dia”.

O valor da remodelação do Vale do Anhangabaú a que o candidato se refere foi de R$ 93,8 milhões. O custo aumentou em cerca de 17% a partir do preço assinado com o Consórcio Central em 2017 inicialmente a estimativa era R$ 79,9 milhões. No entanto, apesar de alagamentos recentes no Vale, é falso que houve um “primeiro dia” de inauguração. A conclusão da remodelação foi adiada pela Prefeitura para 29 de dezembro.

 

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