WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO

Alvos de inquérito das fake news divulgam acusação considerada 'inverídica' na eleição de SP

Russomanno citou vídeo publicado por bolsonarista que já foi preso pelo Supremo contra Boulous; hashtag #LaranjalDoBoulos chegou a ficar em primeiro lugar no trending topics na tarde de quinta-feira

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2020 | 20h48

Deputados e ativistas bolsonaristas que já haviam sido alvo da Polícia Federal nos inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF) contra as fake news e contra atos antidemocráticos entraram na campanha eleitoral de São Paulo. Entre quarta-feira e quinta-feira, o grupo publicou uma série de postagens nas redes sociais para associar o candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, a um suposto esquema de laranjas. O candidato nega as irregularidades e afirma que o caso se trata de “fake news”. Ele obteve uma liminar que obriga a retirada de um vídeo citando o caso da internet. Segundo o juiz, as acusações são "inverídicas". Ele determinou a abertura de inquérito por calúnia contra Russomanno

A liminar determina que o Google retire de sua plataforma de vídeos YouTube uma publicação entulada "O laranjal de Boulos: PSOL utiliza empresas fantasmas para lavar dinheiro na corrida eleitoral em SP”, postada pelo blogueiro Oswaldo Eustáquio. A publicação afirma Boulos teria contratado duas empresas fantasmas para prestar serviços em sua campanha. "O vídeo, como se verifica pelos trechos degravados, é integralmente dedicado à propagação de mentiras sobre o representante", diz o juiz eleitoral Emílio Migliano Neto no relato de sua decisão. 

"O cenário delineado pela matéria produzida pelo representado (Eustáquio) não encontra lastro nem sequer em indícios, como demonstrado de forma contundente na sua (ação) inicial pelo ora representante (Boulos), sendo refutado pontualmente, permitindo-se, sem temor, de ser adjetivado de sabidamente inverídico, extravasando o debate político-eleitoral", escreveu o juiz. Boulos teria "sua imagem irremediavelmente prejudicada em razão da não suspensão do vídeo" com as informações inverídicas, afirmou Migliano Neto. 

As informações do vídeo foram usadas por Celso Russomanno (Republicanos) no debate promovido na manhã desta quinta-feira pela Folha de S. Paulo e pelo UOL. Russomanno conta com o apoio do presidente Jair Bolsonaro nas eleições e perdeu a vice-liderança na disputa na última pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo para Boulos, embora ambos estejam tecnicamente empatados. O candidato do Republicanos conseguiu barrar, na Justiça, a divulgação de nova pesquisa, desta vez feita pelo Datafolha.

“Vendo aqui a prestação do Boulos, eu encontrei a Kyrion, que não está no endereço certo”, disse Russomanno, no debate. “Ou seja, é uma equipe de reportagem que soltou hoje uma reportagem nas redes sociais, dizendo que o senhor (Boulos) deu para uma empresa de R$ 24 mil a R$ 28 mil e a empresa não se encontra no local, é fantasma”, continuou. “Para a outra, deu R$ 500 mil. Uma é a Kyrion e a outra é a Filme de Vagabundo Limitada.” Então, Russomanno aumentou o tom de voz: “Olha, o nome é esse”, exclamou. “Filme de Vagabundo Limitada”, concluiu. No debate, Boulos disse que Russomanno estava “em desespero”, e não deu explicações sobre as informações. Russomanno perguntou sobre o tema por três vezes.

A campanha do PSOL prestou as explicações por nota, após se inteirar do caso: “A produtora Filmes de Vagabundo pertence à cineasta Amina Jorge, diretora de audiovisual da comunicação digital da campanha. Ela trabalha como freelancer e o valor de R$ 28 mil diz respeito à sua remuneração por todo o período eleitoral”, informa o texto. 

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“Como muitos profissionais que trabalham como freelancer, ela registrou a empresa, em 11 de setembro de 2018, em seu endereço residencial, como consta no CNPJ: Rua Marquesa de Santos, número 253, casa 3. Em dezembro de 2018, ela mudou de residência e não atualizou o novo endereço jurídico na Junta Comercial”, continua a nota.

“Já a Kyrion, também com atuação em comunicação digital, foi fundada em maio de 2020, e com sede administrativa na Rua Caxingui, no Butantã, conforme consta no CNPJ”, segue o texto. “O contrato entre a campanha e a Kyrion permite que, por razão da pandemia de Covid-19, os serviços sejam prestados remotamente pela equipe, razão pela qual não há atividade de campanha na sede administrativa da empresa.”

Repercussão

Após o debate, o blogueiro Eustáquio, que em junho havia sido preso pela PF em Campo Grande (MS) por ligação com os atos antidemocráticos ocorridos em Brasília, publicou uma abordagem feita a Boulos na saída do debate, em que questionou o candidato sobre “a denúncia de meio milhão de reais”. 

Boulos, no vídeo, responde chamando o blogueiro de vagabundo e Eustáquio começa a gritar que exigia respeito. O vídeo foi retuitado por outros perfis bolsonaristas, como como o do deputado estadual Douglas Garcia (PTB, ex-PSL).

Eustáquio, que foi assessor da ministra Damares Alves, foi solto no começo de julho e continua sendo investigado pela Polícia Federal. Já Garcia teve seu gabinete alvo de busca e apreensão nas investigações das fake news, também sob responsabilidade do Supremo, em maio. Ele é investigado pelo Ministério Público paulista por ligação com o chamado "gabinete do ódio". 

Na sequência a essas postagens, uma série de perfis no Twittter passaram a repercutir a denúncia. “Recebo, com nenhuma surpresa, a divulgação do #LaranjalDoBoulos , está no DNA dessa gente”, tuitou a deputada federal Major Fabiana (PSL-RJ). Foram postados memes com bolos de laranja. A hashtag #LaranjalDoBoulos chegou aos Trending Topics, lista que o Twitter mantém e exibe os termos que mais estão sendo postados na rede, em tempo real.

A reportagem não conseguiu contato com Oswaldo Eustáquio. A campanha de Russomanno foi procurada para comentar os esclarecimentos de Boulos a ação dos grupos bolsonaristas, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem.

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