Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Guia para entender a crise do PSL

Desentendimentos entre o presidente e alas de seu partido, que culminaram na destituição de lideranças, foram frequentes ao longo do ano

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 05h00
Atualizado 21 de outubro de 2019 | 16h12

A crise que opõe o presidente Jair Bolsonaro e a cúpula do seu próprio partido, o PSL, se tornou na quinta-feira, 17, uma guerra declarada com a divulgação de áudios, ameaças e retaliações. Após se movimentar para isolar o grupo do presidente do partido, deputado Luciano Bivar (PE), Bolsonaro sofreu derrotas de peso. 

O presidente não conseguiu derrubar o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), que depois o chamou de “vagabundo” e disse que vai “implodi-lo”. A direção do partido, controlada por Bivar, indicou que vai destituir o deputado Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro do comando dos diretórios regionais em São Paulo e no Rio, respectivamente. 

Ao analisar o “divórcio” do PSL, a repórter Vera Rosa escreve que a crise está longe do fim e lembra que está em jogo “um espólio em torno de R$ 1 bilhão até 2022”. Ela traça, ainda, paralelos entre a crise do PSL com a implosão do PRN, do então presidente Fernando Collor, hoje senador.  “Fato é que Collor e o PRN naufragaram juntos.”

Já o colunista João Domingos diz, em análise, que “o PSL se tornou um partido de arapongas, em que todo mundo grava todo mundo”, e refaz a sucessão dos fatos que marcaram esta quinta-feira.

Ouça – Delegado Waldir fala em ‘implodir o presidente’ aos 2:40 no áudio abaixo:

Apesar de ter tomado proporções inéditas, a disputa interna no PSL se agrava desde o início do ano. Abaixo, uma cronologia dos episódios mais marcantes de desentendimento entre o presidente e seu partido. 

A demissão de Bebianno

Após ser alvo de uma longa campanha de difamação, Gustavo Bebianno foi exonerado do cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência em fevereiro. Coordenador da campanha de Bolsonaro em 2018, ele presidiu a legenda durante as eleições e era o responsável legal por repasses para candidaturas pouco competitivas em Pernambuco, que ficaram conhecidas como laranjas. O presidente Bolsonaro pediu investigação do caso. 

A crise no governo cresceu quando o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, chamou Bebianno de mentiroso, declaração que foi reafirmada pelo próprio Bolsonaro. O presidente ficou irritado e decidido a demiti-lo ao saber que o então chefe da Secretaria-Geral teria mostrado a amigos arquivos de áudio com a voz do presidente ordenando que Bebianno suspendesse uma viagem, além de outras conversas. 

Bebianno ocupou a presidência do PSL provisoriamente durante a campanha eleitoral, e devolveu o cargo a Bivar após a vitória. Em uma entrevista concedida ao Estado em agosto, o ex-ministro disse que Bolsonaro “atira nos seus soldados” e previa que expurgos no governo, como o seu caso, não iriam cessar. 

PF e MP investigam Bivar em Pernambuco

Em fevereiro, Luciano Bivar já era alvo de investigação que apurava se ele havia praticado caixa 2 durante sua campanha em Pernambuco. O inquérito foi aberto pela Procuradoria Regional Eleitoral no Estado, com foco no uso de recurso do fundo partidário para contratar a empresa de um de seus filhos. A Procuradoria também investigava o recebimento de doação de R$ 8 mil de uma pessoa desempregada havia mais de quatro meses. O caso foi revelado pelo Estado.

No mês seguinte, a Justiça Eleitoral autorizou a Polícia Federal a investigar a suspeita de que uma candidata do PSL pernambucano, Maria de Lourdes Paixão, teria atuado como laranja para receber R$ 400 mil de verba pública eleitoral. Secretária do PSL em Pernambuco, ela teve apenas 247 votos na briga por uma vaga da Câmara dos Deputados em 2018, mas recebeu a terceira maior cota do fundo eleitoral do partido. 

O Estado apurou que denúncias contra Bivar acabaram irritando Bolsonaro.

PSL contraria governo em votações

A bancada do PSL na Câmara teve problemas de coesão desde o começo da legislatura. Sem controle sobre a pauta da Casa, o governo abriu mão de orientar o voto de seus aliados em 31% das votações realizadas nos primeiros cinco meses de mandato. A alta “taxa de omissão” indica que, praticamente, uma em cada três propostas em tramitação não era de interesse do Palácio do Planalto – ou que o líder do governo preferiu não se manifestar por haver risco de derrota. 

Análise do Basômetro, ferramenta do Estado que mede o governismo de deputados e partidos, mostrou que nesse período Luciano Bivar só apareceu em 11% das votações nas quais o governo orientou sua base a aprovar algum projeto na Câmara. 

Houve momentos em que o PSL chegou a contribuir para a derrota do governo, como na aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que engessou parte maior do Orçamento e tornou obrigatório o pagamento de despesas que podiam ser adiadas, como emendas de bancadas estaduais e investimentos em obras. A proposta, encarada como exemplo da falta de controle do governo na Câmara, teve votos favoráveis do PSL. 

Alexandre Frota é expulso

O deputado federal Alexandre Frota (SP) foi expulso em agosto dos quadros do PSL. Frota vinha fazendo críticas à legenda e ao governo de Jair Bolsonaro, e chegou a dizer que o presidente era sua “maior decepção”. O deputado foi criticado, sobretudo, por se abster na votação do 2º turno da Previdência, o que foi considerado uma “traição” à sigla.

No pano de fundo da expulsão, havia uma disputa pelo controle de diretórios municipais do PSL em São Paulo, entre o grupo político do senador Major Olímpio e parte dos parlamentares não ligados à bancada militar, na qual Frota estava incluído. A saída abriu precedente para que outros parlamentares entrassem na mira do partido.

Frota não era o único que criticava a linha de Bolsonaro no partido. O próprio Delegado Waldir já havia criticado a influência que o escritor Olavo de Carvalho tinha sobre o governo. “O presidente não pode ficar à mercê dessas pessoas e pegar a opinião do 'louco do dia'”, disse.

Flávio pressiona contra CPI da Lava Toga

Em setembro, um movimento da cúpula do PSL, articulado pelo senador Flávio Bolsonaro,  para abafar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado que tenha como foco ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) provocou um racha no partido. Diante da pressão partidária pela chamada CPI da Lava Toga, a senadora Juíza Selma (PSL-MT) deixou a sigla e se filiou ao Podemos

A CPI era encarada no Congresso e no Palácio do Planalto como perigosa, com potencial para afetar a relação entre os Poderes. O objetivo da comissão é apurar o que parlamentares chamam de “ativismo judicial” de magistrados, incluindo ministros do Supremo. A crítica de senadores favoráveis à CPI, na qual se incluem Selma e Major Olímpio, é de que a Corte muitas vezes toma decisões sobre assuntos ainda em discussão no Congresso, sobrepondo a atribuição dos parlamentares de legislar.

‘Esquece o PSL’

Em cerca de uma semana, a relação entre Bolsonaro e o PSL piorou exponencialmente. Sem saber que era gravado, o presidente disse a um apoiador na porta do Palácio da Alvorada para “esquecer o PSL”, e acrescentou que Bivar estava “queimado para caramba”. No dia seguinte, o deputado respondeu que o vídeo demonstrava que Bolsonaro já havia decidido deixar a sigla e que o presidente “não tem mais nenhuma relação com o PSL”. 

Estimulados por Bolsonaro, um grupo de deputados do PSL pediu ao partido que promova uma auditoria de suas contas para avaliar como foram utilizados os recursos públicos recebidos por meio do Fundo Partidário. A iniciativa tinha como intenção pressionar Bivar.

Uma semana depois da declaração de Bolsonaro circular na imprensa, a Polícia Federal deflagrou uma operação de busca e apreensão contra o presidente do PSL. Batizada de “Guinhol”, em alusão a marionete, a operação tem relação com suspeitas da montagem de um esquema de candidaturas laranjas – o que Bivar nega. A ação inflamou ainda mais a ala “bivarista” do PSL, que já pedia o afastamento de parlamentares pró-Bolsonaro das funções no partido. 

Guerra declarada: grampos, destituições e ameaças

O mais ruidoso capítulo da briga começou na quarta-feira, 15, quando Bolsonaro tentou substituir Delegado Waldir por seu filho Eduardo na liderança do PSL na Câmara. Para tanto, chamou um grupo de parlamentares do seu grupo para uma conversa a portas fechadas, no Palácio do Planalto, e exerceu seu poder de pressão. Bolsonaro estava irritado com Waldir, que no dia anterior orientara a bancada a votar contra uma Medida Provisória de interesse do governo, e cobrou apoio à troca de comando na liderança. Fez o apelo pessoalmente e em telefonemas.

 Ao saber dessas articulações, Waldir não se conteve. “Eu vou implodir o presidente”, afirmou o deputado, em reunião com colegas do partido. “Andei no sol 246 cidades, no sol gritando o nome desse vagabundo.”

O protocolo da Câmara recebeu listas assinadas por deputados do PSL – duas delas pediam a substituição da liderança e outra, a sua manutenção. A Secretaria-Geral da Mesa Diretora da Câmara conferiu as assinaturas e invalidou quatro delas. Com isso, Delegado Waldir foi mantido como líder

Bolsonaro também substituiu a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso, pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO). Da ala pró-Bivar e desafeta de Eduardo, Joice foi signatária de uma lista pedindo a manutenção de Waldir no posto, o que enfureceu o presidente. 

Na sexta, 18, o delegado Waldir, em entrevista ao Estado, voltou chamar Bolsonaro de "vagabundo" e acusou o presidente de estar "comprando" deputados com cargos e fundo partidário em troca do apoio ao nome de Eduardo para a liderança da bancada do partido. O deputado afirmou que o governo está "parado". “A única finalidade do governo hoje é me derrubar da liderança do PSL.” Na entrevista, o deputado repete o xingamento que fez em reunião fechada. “Eu não menti. Ele me traiu. Então, é vagabundo”, disse. Em reunião extraordinária, o PSL decidiu suspender, na sexta, cinco deputados do grupo bolsonarista.

Ainda na sexta-feira, o Estado apurou que Bolsonaro acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) para processar Waldir por ter falado em "implodir" o presidente e tê-lo chamado de "vagabundo" na mesma gravação. Segundo uma fonte ouvida reservadamente, a AGU está avaliando as medidas cabíveis. 

Na noite de sábado, 19, Eduardo Bolsonaro criticou em transmissão ao vivo no Facebook os deputados do PSL que apoiam a manutenção de Waldir no cargo de líder da legenda na Câmara. "O meu nome era o que mais angariava apoio (como líder na Câmara) e, neste momento, precisamos de apoio, assinatura, para tirar o Delegado Waldir, para tentar voltar à normalidade", afirmou.  No mesmo dia, o deputado Júnior Bozella (SP), um dos principais aliados de Bivar no partido, disse que a sigla deverá suspender as funções partidárias de Eduardo, o que pode destituí-lo do comando da legenda em São Paulo.

Após trocar acusações com Eduardo Bolsonaro vai redes sociais e de chamar os seguidores da família Bolsonaro no Twitter de "robôs" e "milícia digital", a ex-líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann afirmou ao Estado que pretende acionar na Justiça Carlos e Eduardo caso "não cessem" os ataques contra ela nas redes sociais. ""Os ataques são por orientação dos 'filhotes'. Eles têm o mesmo modus operandi de sempre. Criam memes e vídeos apócrifos e espalham nos grupos e páginas. Alguns perfis são fakes. Há assessores envolvidos", afirmou, na noite deste domingo, 20. "Vou continuar enfrentando nas redes e, se preciso for, na Justiça e Conselho de Ética", disse.

O bem vencerá o mal

Na manhã de segunda-feira, 21, em viagem a Tóquio, Bolsonaro afirmou que houve um "bate boca exarcebado" entre os integrantes do seu partido, mas que deixará a "ferida cicatrizar naturalmente". O presidente afirmou que a crise política é um "invenção" e que o conflito interno não influenciará na tramitação da Reforma da Previdência no Senado. Ao comentar sobre as possíveis trocas dentro do PSL e do governo, Bolsonaro afirmou que "o bem vencerá o mal". "As providências estão sendo tomadas com o passar o tempo. O bem vencerá o mal”, disse.

Nova lista

Em mais um capítulo da "guerra de listas", o líder do governo na Câmara, deputado Vitor Hugo (PSL-GO), apresentou nomes para tentar levar o deputado Eduardo Bolsonaro à liderança do PSL na Casa. O documento, segundo nota divulgada pela assessoria da liderança do governo, tem 29 assinaturas e foi apresentado na manhã desta segunda-feira, 21, à Secretaria-Geral da Mesa Diretora. Pouco depois, a Câmara oficializou Eduardo Bolsonaro como líder do PSL na Casa. Ele recebeu o apoio de 28 dos 53 parlamentares da legenda – a lista original tinha 29 nomes, mas um não foi aceito. 

A ala bivarista, no entanto, já prepara uma reação e uma nova lista para manter Waldir na liderança. Segundo o deputado Júnior Bozzella, principal porta-voz de Bivar na Câmara, ao colocar o nome de Eduardo na liderança o grupo bolsonarista descumpriu um acordo firmado entre as partes, no qual Waldir abriria mão do cargo em janeiro em troca da revogação da suspensão dos cinco deputados ligados a Bolsonaro, segundo Bozzella.

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