Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

‘Eu vou implodir o presidente’, diz líder do PSL na Câmara

Áudio de reunião da ala ligada a Bivar, gravado por um dos presentes, foi obtido pelo 'Estado'; ouça

Renato Onofre e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2019 | 14h42
Atualizado 17 de outubro de 2019 | 21h05

BRASÍLIA – O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (PSL-GO), afirmou em reunião interna da ala ligada ao presidente do partido, Luciano Bivar (PE), que vai “implodir” o presidente Jair Bolsonaro. O áudio do encontro, gravado por um dos presentes, foi obtido pelo Estado.

“Eu vou implodir o presidente. Aí eu mostro a gravação dele. Não tem conversa. Eu implodo ele. Eu sou o cara mais fiel. Acabou, cara. Eu sou o cara mais fiel a esse vagabundo. Eu andei no sol em 246 cidades para defender o nome desse vagabundo”, afirma Waldir. Logo em seguida, alguém não identificado o alerta: “Cuidado com isso, Waldir.”

Na reunião, ocorrida no fim da tarde no gabinete da liderança do PSL na Câmara, deputados relataram que estavam sendo pressionados por Bolsonaro a assinar uma lista para destituir Waldir e apoiar o nome de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) como líder da bancada. Entenda a crise no PSL.

Dois parlamentares relataram ter recebido os pedidos em reunião com o próprio presidente no Palácio do Planalto. “Os meninos chegaram lá e o presidente disse: ‘Assina se não é meu inimigo’”, diz uma das presentes. “Eu não consegui não assinar”, responde o deputado Luiz Lima (PSL-RJ). O deputado Loester Trutis (PSL-MS)  também diz ter sido pressionado.

Ouça – Delegado Waldir fala em ‘implodir o presidente’ aos 2:40 no áudio abaixo:

O deputado Daniel Silveira admitiu ter gravado a reunião da bancada do PSL. De acordo com o parlamentar, o objetivo foi “blindar” Bolsonaro na guerra declarada contra o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE). “Era uma estratégia pensada. Eu, Carlos Jordy (PSL-RJ), Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Carla Zambelli (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-DF). Todo o grupo do Jair para gente poder blindar o presidente”, afirmou Silveira.

Lá, eles iniciaram o plano de se infiltrar no grupo de parlamentares ligados a Bivar. Naquele momento, “bolsonaristas” e “bivaristas” travavam uma disputa na Câmara para recolher assinaturas. De um lado, os aliados de Bivar tentavam manter Waldir no posto, enquanto a ala ligada ao presidente tentava emplacar Eduardo Bolsonaro como líder.

Embora o grupo ligado a Bolsonaro tenha apresentado uma lista com 27 nomes para destituir Waldir, a Câmara não aceitou todas as assinaturas e o manteve na liderança. No áudio, o deputado diz que pretende expulsar “um por um” dos que assinaram o documento contra ele. “Nós vamos expulsar, e aqueles que fizerem nós vamos expulsar um por um do partido, ok? A situação é essa. Nós vamos expulsar um por um do partido”, diz Waldir na gravação.

Após a divulgação do áudio, Waldir chamou de “Judas” o deputado Daniel Silveira, que o gravou durante a reunião enquanto ele dizia que ia “implodir” o presidente Jair Bolsonaro. “Ele é tão bom nisso que assinou as listas duas vezes”, disse ele. Silveira foi um dos quatro deputados que assinaram ao mesmo tempo os pedidos para que Eduardo fosse líder da bancada do partido na Câmara e também colocaram seus nomes no pedido para que Waldir permanecesse no cargo. Waldir disse que vai avaliar se houve quebra de decoro por parte de Silveira.

Delegado Waldir após áudio vazado: ‘É uma fala de emoção’

Sobre sua fala em relação ao presidente Jair Bolsonaro, Waldir baixou o tom e negou que tenha alguma carta na manga para “implodir” o presidente. “Nada. É uma fala de emoção”, disse. Porém, afirmou que o presidente teve uma atitude de ingratidão com parlamentares do PSL que o apoiaram durante a campanha.

Outro áudio vazado nesta semana mostra o presidente Bolsonaro pedindo a parlamentares do PSL que assinem a lista para destituir Waldir do cargo de líder e, em seu lugar, nomear seu filho Eduardo.

“Mas isso já passou. Nós somos Bolsonaro”, minimizou Waldir. “Nosso papel na liderança é pacificar”, afirmou. Ainda em tom ameno, o líder afirmou que ele tem um histórico de fidelidade com o presidente e que ajudou a segurar as chamadas pautas-bomba no plenário da Câmara no fim do ano passado e que, por isso, foi indicado pelo próprio Eduardo para assumir a liderança da bancada neste ano. “Eu amo tanto o presidente que escolhemos uma comissão específica para ele”, afirmou.

Waldir almoçou nesta quinta-feira com deputados do partido e com o presidente da legenda, Luciano Bivar. Bivar deixou o restaurante apressado e disse apenas que, apesar de existirem processos para a destituição de Eduardo e do senador Flávio Bolsonaro do comando dos diretórios de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente, ele ainda não assinou os desligamentos.

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) também participou do almoço. Ela foi desligada da liderança do governo no Congresso nesta quinta-feira. Ela não quis comentar a destituição. Waldir, por sua vez, disse que isso foi uma retaliação do Executivo. “Já era esperado isso, mas foi acelerado por ela ter assinado a lista que pedia meu nome na liderança”, afirmou.

Na manhã desta quinta-feira, 17, o presidente afirmou considerar uma “desonestidade” a divulgação da conversa e sugeriu ter sido “grampeado”. “Eu não trato publicamente deste assunto. Converso individualmente. Se alguém grampeou telefone, primeiro é uma desonestidade”, afirmou. “Eu falei com alguns parlamentares. Me gravaram? Deram uma de jornalista? Eu converso com os deputados.”

Bolsonaro: ‘Não nos deixam em paz, buscam atingir o governo’

Sobre o fato de também ter sido gravado, Bolsonaro afirmou, pela manhã, considerar uma “desonestidade” a divulgação da conversa e sugeriu ter sido “grampeado”. “Eu não trato publicamente deste assunto. Converso individualmente. Se alguém grampeou telefone, primeiro é uma desonestidade”, afirmou. “Eu falei com alguns parlamentares. Me gravaram? Deram uma de jornalista? Eu converso com os deputados.”

À tarde, em discurso em uma aula inaugural do curso de formação da Polícia Rodoviária Federal, em Florianópolis (SC), Bolsonaro afirmou que sua vida no governo “não é fácil”, mas que sabia que seria assim. “Não nos deixam em paz, alguns de forma mesquinha buscam atingir o governo. A grande parte quer o bem, mas essa minoria é incansável e isso é lamentável”, disse Bolsonaro, acrescentando que prevalece a “vontade de ver o Brasil crescer, economicamente e moralmente”.

Presidente da CCJ diz ser contra fusão

O áudio da conversa de Waldir mostra ainda o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Felipe Franceschini (PSL-PR), admitindo o movimento do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para fundiu o PSL e o DEM, como mostrou o Estado na quarta-feira. “Ontem, a gente foi na casa do Rodrigo. Estava o Mendonça (Filho, ex-ministro da Educação), estava o Rodrigo Maia ligando para o ACM (Neto, prefeito de Salvador e presidente do DEM), comigo e com o (Antônio) Rueda (vice-presidente do PSL). Eles estão loucos para fazer a fusão do Democratas com o PSL”, afirmou Franceschini. 

O presidente da CCJ diz que não quer que aconteça, mas, para isso, a bancada deveria mostrar maior unidade em defesa do PSL e do presidente do partido, Luciano Bivar.  “Eu estou tentando segurar essa p.. porque eu não quero que aconteça. Se a bancada passar o recado que não está com o partido, eles vão fazer a fusão e vão liberar todo mundo aqui sem levar fundo, sem levar p... nenhuma. E o Democratas vai ficar com o dinheiro de todos vocês aqui”, afirmou.

O PSL tem, hoje, 53 deputados e o DEM, 27. Juntos, teriam 80 deputados e se tornariam a bancada mais forte da Câmara. De acordo com Franceschini, o movimento de fusão está sendo alimentado por Maia. “Eles querem juntar os dois fundos (partidários). Fazer um partido com 100 deputados para a reeleição dele”, afirmou Franceschini. 

Em junho, o Estado revelou que um grupo de parlamentares avalia, nos bastidores, a possibilidade de apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para permitir reeleições ao comando do Legislativo, sem qualquer limitação. Três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) já foram consultados reservadamente e deram aval à iniciativa, sob o argumento de que se trata de uma questão interna do Parlamento. Atualmente, a Constituição proíbe que presidentes da Câmara e do Senado sejam reconduzidos ao cargo na mesma legislatura. Isso quer dizer que, em 2021, nem o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), nem o do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), poderão concorrer à reeleição, se essa regra - também contida no regimento das duas Casas - não for alterada. /COLABOROU MARCOS ESPINDOLA, ESPECIAL PARA O ESTADO, DE FLORIANÓPOLIS

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