Capítulo 20

No divórcio litigioso do PSL, a vingança é um prato que se come frio

Lavação de roupa suja em que se transformou a crise do PSL está longe do fim

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2019 | 12h37
Atualizado 17 de outubro de 2019 | 17h01

Caro leitor,

Eram pouco mais de 17 horas de uma quarta-feira tensa na Câmara dos Deputados quando o líder da bancada do PSL, Delegado Waldir (GO), resumiu em poucas palavras a crise que havia tomado conta do partido. “Eu vou implodir o presidente. Eu andei no sol em mais de 246 cidades para defender o nome desse vagabundo”, disse Waldir, ao saber das articulações do presidente Jair Bolsonaro para destituí-lo do cargo. 

Menos de 24 horas depois, a derrota de Bolsonaro era evidente. O grupo do chefe do PSL, Luciano Bivar (PE), não apenas conseguiu manter Waldir na liderança da bancada como, em retaliação às articulações do presidente, derrubou dois de seus filhos. Em uma só tacada, Bivar destituiu o deputado Eduardo Bolsonaro da presidência do PSL de São Paulo e tirou o senador Flávio Bolsonaro do comando do partido no Rio. 

Discípulo de Bivar, Waldir não conteve a ira ao saber que o presidente havia chamado correligionários ao Palácio do Planalto e pedido apoio a uma lista de assinaturas para emplacar Eduardo no seu lugar. “Acabou, cara”, desabafou o líder da bancada, na reunião a portas fechadas com colegas. A pressão de Bolsonaro sobre deputados do PSL foi registrada em uma gravação feita por um parlamentar que o traiu.

“Se alguém grampeou telefone, primeiro é uma desonestidade”, reagiu o presidente,  nesta quinta-feira, 17, ao sair do Palácio da Alvorada. “Me gravaram? Deram uma de jornalista?” Bolsonaro ainda passou pelo vexame de ver seu filho caçula – que já havia concedido entrevista como novo líder da bancada – ser preterido na disputa. O revés enfraqueceu a candidatura de Eduardo a embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

A maior preocupação política desta temporada, agora, é com o efeito do arsenal de denúncias disparadas pelos dois grupos do mesmo partido. De um lado estão os bolsonaristas. De outro, os bivaristas. Amiga de Bivar, a deputada Joice Hasselmann também foi destituída da liderança do governo no Congresso por Bolsonaro. “Estou muito feliz”, disse ela.

Desde terça-feira, 15, quando a Polícia Federal vasculhou endereços ligados a Bivar, em Pernambuco, a briga no PSL virou um vale-tudo assustador. Na prática, Bolsonaro integra uma sigla suspeita de produzir candidaturas laranjas e de desviar recursos dos fundos partidário e eleitoral. Noves fora é disso que se trata: um espólio em torno de R$ 1 bilhão até 2022.

Mas e o discurso da “nova política?” Depois de ter passado por oito partidos, Bolsonaro se filiou ao PSL, no ano passado, e fez uma campanha prometendo acabar com a corrupção. Até então nanico, o PSL virou uma superpotência, na onda da eleição do presidente, e é hoje a legenda que mais recebe verba pública. 

Na contraofensiva, o grupo de Bivar lança agora suspeitas sobre despesas de campanha do próprio Bolsonaro e vira e mexe cita acusações de “rachadinha” que pairam sobre Flávio Bolsonaro no Rio. 

As denúncias sobre o esquema no qual o servidor repassa parte de seu salário a um parlamentar, por sinal, não param aí e atingem hoje mais um gabinete do PSL, desta vez em São Paulo.  

Com tanta confusão, quase ninguém reparou, mas na mesma terça em que Waldir orientava a bancada do PSL a votar contra uma Medida Provisória do governo, a deputada Soraya Manato (PSL-ES) ocupou a tribuna do plenário para fazer uma confissão. No microfone Soraya disse que todos os partidos usaram “candidaturas laranjas” nas eleições de 2018. “Pessoal da esquerda, não tem ninguém santo aqui dentro não, tá? Tem laranja em tudo que é partido. Aqui no PSL tiveram os candidatos laranja, mas a grande maioria foi eleita honestamente”, afirmou ela, ao admitir que a legenda de Bolsonaro cometeu a prática ilegal.

Em um cenário que expõe a fragilidade do sistema partidário, muitos agora se lembram da implosão do PRN do então presidente Fernando Collor, hoje senador pelo PROS e também alvo de uma operação da Polícia Federal, na semana passada.

Os tempos são outros e, naquela época, não havia nem mesmo redes sociais, mas o fato é que Collor e o Partido da Reconstrução Nacional naufragaram juntos.

Em recente conversa telefônica, o vice-presidente do PSL, Antonio Rueda, braço direito de Bivar, chegou a fazer um apelo a Flávio Bolsonaro. “Flávio, nossa separação tem de ser amigável. Não pode ser um divórcio litigioso”, disse Rueda ao primogênito do presidente.

Nos bastidores, porém, as duas alas que disputam hoje o controle do PSL afirmam, com uma ou outra variação, que vingança é “um prato que se come frio”. Quem sobreviver, verá.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.