WILTON JUNIOR/ESTADÃO - 2006
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No novo clã presidencial, quem chama a atenção é o agregado

O grupo político familiar que agora chega ao poder foi construído ao longo dos últimos 30 anos, numa história com polêmicas; Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, pode abrir crise política

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 10h30

Caro leitor,

O clã Bolsonaro levou tempo para se erguer na política - e se fez à sombra das causas do patriarca. Trinta anos atrás, Jair Messias Bolsonaro, um jovem capitão da ativa, então na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), foi acusado de planejar uma ação para explodir bombas em quartéis, a Operação Beco Sem Saída. O objetivo seria protestar contra os baixos soldos, uma preocupação da tropa no governo José Sarney.  Logo seria absolvido das acusações, no processo que o tirou do anonimato, e viraria herói dos colegas de farda. Foi o que lhe deu seu primeiro mandato, como vereador no Rio pelo Partido Democrata Cristão, em 1988.

Os soldos corroídos viraram mantra do vereador. Com essa bandeira, foi eleito deputado federal em 1990 e, em 1992, ajudou a eleger sua primeira mulher, Rogéria Bolsonaro, para o lugar que deixara vago no Legislativo municipal carioca. O nome político da novata não dava espaço para dúvidas: era R. Bolsonaro. Votava segundo a orientação do marido, que vivia na ponte aérea Rio-Brasília.

Formou-se assim o embrião do clã, em princípio tendo os militares como base eleitoral - o público se expandiu aos poucos para bombeiros e PMs. Os demais integrantes - os três filhos do casamento com Rogéria - assumiriam seus postos nas duas décadas seguintes, todos à imagem e semelhança do pai e com as mesmas bandeiras políticas.

Carlos Bolsonaro (hoje no PSC), o filho chamado de Zero Dois pelo presidente, entrou em cena primeiro, em 2000. Foi quando, aos 17 anos, derrotou a mãe - que se separara do pai - na disputa por uma vaga na Câmara Municipal do Rio, como mostra esta reportagem de Luiz Maklouf Carvalho. Foi seu primeiro mandato na Casa, para a qual tem sido reeleito desde então.

Avesso a contato com a imprensa, apaixonado por redes sociais, Carlos comandou a estratégia de Jair Bolsonaro nas redes. Ele se licenciou da vereança e foi um gladiador da candidatura paterna. Sua agressividade não poupou nem aliados, acusados por Carlos de desejar a morte de seu pai. Na transição, Carlos chegou a ser cogitado como um possível secretário de Comunicação ou integrante do primeiro escalão, mas suas divergências com Gustavo Bebianno, o advogado bolsonarista escolhido para secretário-geral da Presidência, o levaram a deixar as articulações - e a estratégia de Bolsonaro na web -  e retomar o mandato  na Câmara Municipal carioca. 

O caçula dos filhos do primeiro casamento do presidente, Eduardo, é um escrivão da Polícia Federal que se elegeu pela primeira vez deputado federal pelo PSC de São Paulo em 2014. Meteu-se em várias polêmicas. Uma delas envolveu a jornalista Patrícia Lélis, uma ex-namorada que o acusa de ameaças.  O caso está no Supremo Tribunal Federal (STF).

No campo da política, o deputado causou controvérsia na campanha eleitoral, quando veio a público o vídeo acima, em que insinuava que seria fácil fechar o  Supremo Tribunal Federal. A declaração gerou acusações dentro do próprio Supremo, como mostra a coluna de Eliane Cantanhêde. Bolsonaro advertiu o filho no episódio. E voltou a fazê-lo quando, em visita aos Estados Unidos durante a campanha, Eduardo deu outra declaração  incômoda para a candidatura do pai - disse que o governo Bolsonaro talvez não conseguisse aprovar a reforma da Previdência. Eduardo negou o que dissera, mas foi desmentido por um áudio das suas declarações, obtido com exclusividade pelo Estado.

Flávio, o mais velho do trio, é bem diferente.  Deputado estadual no Rio desde 2003, é tranquilo e mais acessível que os irmãos. Era assim até o caso Queiroz, quando passou a evitar contato com jornalistas. 

Queiroz, o agregado de R$ 1,2 milhão

Queiroz é Fabrício José Carlos de Queiroz,  policial militar e ex-assessor de Flávio, e agregado da família Bolsonaro há uma década. Ele frequenta o noticiário desde que o Estadão revelou com exclusividade que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectara movimentação atípica em sua conta bancária:  R$ 1,2 milhão de 1 de janeiro de 2016 a 31 de janeiro de 2017.

Na mesma conta, foi depositado, com regularidade,  dinheiro de outros assessores de Flávio na Assembleia Legislativa,  sempre em datas próximas ao pagamento de salários no Legislativo fluminense. E da mesma conta saíram recursos que pingaram na conta de Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama. Foram R$ 24 mil, segundo o mesmo documento.  Jair Bolsonaro disse que o dinheiro depositado por Queiroz na conta de Michelle era, na verdade, para ele - pagamento de uma dívida. 

Os vários cruzamentos dos dados do relatório do Coaf apontam uma teia de questões a esclarecer. Uma delas é por que uma filha de Queiroz, Nathalia de Melo Queiroz,  acumulava um cargo na Alerj com a profissão de personal trainer. Segundo o relatório, enquanto era assessora no gabinete de Flávio, Nathalia deu a Queiroz o equivalente a mais de 90% de seus ganhos líquidos na Alerj.

Eleito com um discurso contra a corrupção na política, Bolsonaro começou a experimentar, antes da posse,  a sensação de ser alvo de críticas do mesmo tipo. Como apontou a colunista Vera Magalhães, o grupo de Bolsonaro precisa saber lidar com questionamentos.  As críticas vieram até do campo bolsonarista, de aliados como Janaína Paschoal, e também de militares, base do governo do presidente eleito, como mostrou  reportagem de Tânia Monteiro

Em sua primeira live na internet desde que o caso veio à público, Bolsonaro lembrou que não era investigado pelo Coaf e disse que pagaria em caso de comprovação de irregularidade.  Como apontou o Estadão em editorial, o episódio ilumina uma prática corriqueira no Legislativo: a devolução, por servidores, de parte de seus salários para os parlamentares a quem devem suas nomeações.  Em meio às críticas, a Procuradoria de Justiça do Rio assumiu as investigações, iniciadas na área federal, na Operação Furna da Onça, sobre corrupção na Assembleia Legislativa do Rio. 

E  Queiroz? Depois de faltar a dois depoimentos no MP do Rio, apresentou-se ao SBT para uma entrevista. Negou ser laranja, alegou ter câncer, afirmou ter feito negócios com carros para explicar sua  movimentação financeira, assumiu a responsabilidade por tudo. Mas não contou como o dinheiro dos colegas foi parar na sua conta. Essa é uma explicação que prometeu dar diretamente ao MP.

Isso quando os procuradores do Rio conseguirem ouvi-lo, o que pode demorar. Seus médicos notificaram a Procuradoria de que, antes de prestar depoimento, Queiroz precisará se submeter a uma cirurgia, devido a uma grave doença. Depois, deverá se recuperar da intervenção. As providências médicas adiarão o esclarecimento do caso para o início do governo Bolsonaro. 

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