CAPÍTULO 01

Sol firme ou temporal à vista? No clima, novo governo é incógnita

País se destacou nos últimos anos como uma liderança na luta contra mudanças climáticas, mas posições do novo presidente sobre Acordo de Paris colocam em dúvida se isso vai se manter

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 10h30

Caro leitor,

O Brasil se destacou ao longo dos últimos anos como liderança na área de meio ambiente. Isso desde a Rio-92 , berço da Convenção sobre a Mudança do Clima nas Nações Unidas. Ainda é uma incógnita, porém, se o governo Bolsonaro vai manter essa posição.

Não foi à toa que o País alcançou esse destaque. Dono da maior floresta tropical do mundo, o Brasil enfrentou críticas quando deixou o desmatamento da Amazônia atingir níveis recordes até meados dos anos 2000. Mas conseguiu reduzir a destruição da floresta a partir de 2008, chegando às menores taxas históricas em 2012.

Apesar de o problema, mais recentemente, ter retomado uma tendência de alta, como revelou o Estadão no final de novembro, a queda de cerca de 80% ajudou a diminuir, por consequência, as emissões nacionais de gases de efeito estufa.

Menos área desmatada, no entanto, não foi um impedimento para que a produção agrícola crescesse, garantida por ganhos de produtividade. É o que explica nosso colunista Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, em texto publicado ainda no final de 2017, já antecipando questões que poderiam aparecer ao longo da corrida eleitoral.

O setor também se beneficiou de ser associado a uma imagem ambientalmente correta, que ajudou a conquistar certificados internacionais e mercados preocupados com o futuro do planeta. Algumas reportagens nossas publicadas nos últimos anos mostram bem esse movimento, que pode ser sentido na pecuária, entre produtores de arroz e principalmente entre os de biocombustíveis.

Tal desempenho, aliado a uma matriz energética mais limpa que a de outros países, serviu como argumento para a diplomacia brasileira cobrar um posicionamento mais efetivo de outras nações no combate às mudanças climáticas.

Esse tom de “lição de casa feita”, junto com uma hábil capacidade de fazer a ponte entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, foi importante na condução das negociações climáticas da ONU que culminaram no  Acordo de Paris – tratado assinado em 2015 por 195 países para o combate ao aquecimento global.

Na ocasião, a então ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, não deixou de se gabar, em entrevista ao Estado, de que o Brasil havia “roubado a cena”.

O que está em jogo

A eleição de Jair Bolsonaro, porém, acendeu um alerta no Brasil e no mundo. Ainda durante as eleições, Bolsonaro disse que abandonaria o Acordo de Paris, a exemplo do que fez o presidente americano, Donald Trump, sob a justificativa de que cumprir as metas para reduzir a emissão de gases que provocam o aquecimento do planeta afetaria a soberania nacional.

Tão logo foi eleito, pediu ao governo Temer que voltasse atrás na oferta feita no final de 2017 para sediar a Conferência do Clima da ONU de 2019, que agora vai ser realizada no Chile. O presidente alegou que não queria receber a reunião porque ainda existe a possibilidade de o País sair do acordo do clima e ele não queria “anunciar uma possível ruptura dentro do Brasil”.

Não foram poucas as críticas de que isso seria uma imprudência, como argumentou o Estadão em editorial. Isso em um momento que o mundo se ressente da falta de uma liderança para conduzir os esforços contra a mudança do clima.

Indícios de mudança

Dois de seus ministros trouxeram indicativos de que a posição do novo governo ainda não está fechada. O novo chefe das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, aparenta ter uma visão parecida com a de Bolsonaro e se mostra cético à própria existência do aquecimento global como um problema causado por atividades humanas, apesar de este ser um consenso muito bem estabelecido pela ciência.

Há alguns anos, ele escreveu em seu blog Metapolítica 17 que o “climatismo” – neologismo que inventou para o que considera ser a “ideologia da mudança climática” – faz parte de um “projeto globalista” de “transferir poder econômico do Ocidente para o regime chinês”.

É uma entre muitas posições que podem alterar toda uma linha tradicional da diplomacia brasileira, como explica bem William Waack neste artigo. Na análise de Eliane Cantanhêde, é algo que coloca o País em risco de isolamento.

Já o novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, classificou a discussão sobre o aquecimento global como secundária assim que foi indicado. Depois disse que o Brasil deve permanecer no acordo, e que estão sendo feitos estudos nesse sentido. Mas não há certeza. Pesquisadores das mais renomadas entidades e universidades do mundo são unânimes em afirmar que o aquecimento do planeta já é uma realidade e que precisa ser enfrentado com seriedade por todos os países.

(Ainda confuso sobre o que é o aquecimento global? Temos um videográfico bem bacana que não deixa dúvidas. Veja abaixo.)

Ao longo da campanha eleitoral, Bolsonaro usou como argumento para sua posição sobre a soberania o chamado Triplo A – uma ideia que surgiu de uma ONG colombiana de integrar, por meio de um grande corredor ecológico, unidades de conservação dos Andes ao Atlântico, passando pela Amazônia. Mas isso não está no texto do acordo. Nem sequer foi algo discutido nas negociações internacionais, como foi comentado pelo BR18.

Um ponto importante do Acordo de Paris é que os esforços que serão feitos para conter a emissão de gases de efeito estufa foram definidos internamente por cada país. Ou seja, as metas, chamadas de contribuições nacionalmente determinadas, não foram impostas. Ninguém impôs nada ao Brasil e também não há sanções estabelecidas para quem não fizer sua parte.

Quais podem ser as consequências

O planeta, atualmente, já está cerca de 1°C mais quente, em média, que antes da Revolução Industrial. A meta do Acordo de Paris é tentar evitar que a temperatura chegue a 2°C até o final do século, com esforços para que fique em 1,5°C. A ciência recentemente se manifestou mostrando que esse 0,5°C pode fazer toda a diferença. É o que mostramos nesta reportagem.

Um mundo 2°C mais quente, por exemplo, significa que teremos mais dias com calor intenso (como os experimentados no final do ano) e um aumento de eventos extremos, como tempestades de potencial destrutivo e secas prolongadas. Para se ter uma ideia do impacto, o nível do mar pode subir 10 centímetros a mais, em média, se a temperatura aumentar 2°C em vez de 1,5°C.

E os impactos não param por ai. O aquecimento levará a uma perda maior de biodiversidade. Isso pode afetar inclusive os cultivos agrícolas. Alternância de secas e chuvas extremas também não é bem-vinda. O clima esquenta, a agropecuária sofre, bem detalhou Washington Novaes. Tudo isso são problemas já enfrentados pelo Brasil e que podem se intensificar no médio prazo.

O agronegócio mais moderno sabe bem disso e, apesar de ter apoiado Bolsonaro desde as eleições, vem se manifestando a favor da permanência no Acordo de Paris. Em cartas, entidades do setor disseram diversas vezes que o Brasil só tem a ganhar com o acordo e que cumprir os compromissos assumidos é algo bom para o setor.

Sair do acordo também pode prejudicar a capacidade do Brasil de fechar acordos comerciais com outros países. Tão logo soube das ideias de Bolsonaro, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou, por exemplo, que a União Europeia não teria interesse de negociar com o Mercosul caso o Brasil abandone o tratado. Os embaixadores da França e da Alemanha no Brasil publicaram este artigo no Estadão afirmando que a dinâmica do acordo é irreversível.

Na última conferência do clima, realizada em dezembro na Polônia, a delegação brasileira já enfrentou questionamentos sobre o que aconteceu com o Brasil para dar tal guinada, e um grupo de ONGs ironizou o novo presidente por suas declarações. Logo no início do governo será possível saber o que irá prevalecer: se o discurso de campanha ou as ponderações feitas por cientistas e por setores que apoiaram Bolsonaro.

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