Paulo Guedes terá de vencer barreiras imensas para tirar País do buraco

Novo ministro e sua equipe chegam com as bênçãos do mercado, mas já enfrentam 'fogo amigo' no governo, pressões corporativistas e más notícias no Congresso e no Supremo

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2019 | 10h30

Caro leitor,

A partir de hoje, temos um novo presidente no poder. E as expectativas de mudança, principalmente no que se refere à questão econômica, são bem altas. A avaliação generalizada é que essa pode ser a chance real de deixar para trás definitivamente uma recessão que trouxe como legado um batalhão de milhões de desempregados e subempregados (como mostra o gráfico abaixo), uma indústria que não voltou aos níveis de uma década atrás, um comércio que ainda está longe de recuperar as lojas que fecharam durante a crise.

Mas já ficou mais do que claro, durante esse período de transição, que mudar esse quadro não será essa moleza toda que os quase 58 milhões de votos de Jair Bolsonaro poderiam fazer prever. É mais do que consenso entre os economistas que será primordial fazer reformas – especialmente a da Previdência – para que as contas públicas entrem nos eixos, os investidores voltem a confiar no País, as empresas tenham segurança para investir, os empregos voltem, as pessoas tenham confiança para consumir. Foi o que ouvimos de todos os analistas, banqueiros e empresários nas últimas semanas.  

O ministro Economia, Paulo Guedes, e a equipe que montou sabem disso (como mostrou nossa a colunista Zeina Latif, nessa área de Previdência, foi escolhido um novo “time dos sonhos”), e batem nessa tecla um dia após o outro, em cada entrevista que dão, em cada reunião que fazem.

Dentro do governo, porém, parece que não há tanto consenso assim. Como mostrou outra de nossas colunistas, Adriana Fernandes, Guedes vem sofrendo uma espécie de “fogo amigo” em relação à reforma da Previdência. O próprio presidente eleito, Jair Bolsonaro, dá declarações contraditórias, uma hora parecendo que quer realmente a reforma, outra aparentando que ela é importante, mas não tão urgente. Na semana passada, o vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou, por sua vez, que a Previdência será a prioridade número um, e que será votada de uma só vez, já incluindo  o modelo de capitalização defendido pela nova equipe econômica.

Guedes já experimentou também a força da pressão corporativista que há dentro do governo. Como revelou o Estadão, tentou colocar um nome de sua confiança na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Teve de enfrentar uma rebelião dos procuradores, que exigiam um servidor de carreira no cargo. Para evitar o conflito antes mesmo de assumir, acabou capitulando.

Fora isso, a futura gestão Bolsonaro também viu o Congresso, com uma horda de deputados e senadores não reeleitos, impor derrota atrás de derrota à União nas pautas econômicas. Em resumo, passaram o mês de dezembro criando novas despesas para um governo que vai fechar o ano com um rombo de mais de R$ 130 bilhões e prevê para 2019 mais um buraco perto de R$ 140 bilhões. Poucos parlamentares se sensibilizam com esses números.

E parece que nem o Supremo. No apagar das luzes do ano Judiciário, o ministro Ricardo Lewandowski derrubou a medida provisória que postergava para 2020 o reajuste dos servidores federais acertado para entrar em vigor em 2019. No fim de 2017, o mesmo ministro havia feito a mesma coisa. Isso, pouco depois de eles mesmos, os ministros do Supremo, terem conseguido elevar seus salários de R$ 33 mil para R$ 39,2 mil, com efeitos em cascata em todo o País.

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Os servidores federais sofrem uma discriminação injustificada e injustificável com relação aos demais
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Ricardo Lewandowski, ministro do STF

Às vezes, fazer ajuste fiscal no Brasil lembra a tarefa de enxugar gelo. Paulo Guedes e sua equipe vão precisar de muitas toalhas.

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