Aprenda como identificar e rebater uma teoria da conspiração
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Aprenda como identificar e rebater uma teoria da conspiração

Pesquisadores levantaram sete técnicas e padrões comuns ao negacionismo científico

Pedro Prata

19 de julho de 2020 | 12h01

Você provavelmente já viu o link de um blog no Facebook com acusações à China de ter criado a covid-19 em laboratório e ter espalhado a doença pelo mundo. Ou talvez recebeu um vídeo pelo Whatsapp mostrando como os esforços globais em busca de uma vacina seriam na verdade uma tentativa de implantar chips nas pessoas e assim monitorar a população. Estes são exemplos de teorias da conspiração que não passam de boato e que já foram verificadas pelo Estadão Verifica.

Teorias da conspiração se tornam populares em situações como o atual momento da pandemia de covid-19. A população se sente vulnerável diante de uma ameaça nova e isso gera muitas incertezas. As teorias da conspiração dão resposta a essas inquietações, por isso se espalham com facilidade.

Estas conclusões foram observadas pelos pesquisadores Stephan Lewandowsky, da Escola de Psicologia Experimental da Universidade de Bristol, e John Cook, do Centro para a Comunicação das Mudanças Climáticas da Universidade George Mason. Eles estudam os fenômenos da desinformação e juntaram algumas explicações relevantes em um manual de fácil compreensão para o público de fora da comunidade científica.

Teorias da conspiração são uma estratégia importante de desinformação. Foto: @MiroslavaChrienova/Pixabay

“Há uma riqueza de pesquisas sobre temas complicados como a desinformação”, disse Cook ao Estadão Verifica por e-mail. Ele fala que o maior acesso a esse tipo de conhecimento pode ajudar no combate à desinformação sobre a pandemia de covid-19. “Esta é uma ferramenta poderosa de construção do pensamento crítico para resistir à desinformação.”

O guia publicado por eles foi traduzido para o português pelas pesquisadoras Dayane Machado e Minéya Fantim, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp (Labjor). O documento contém sete características comuns a teorias da conspiração. Segundo os autores, este tipo de desinformação acaba com a confiança do público em instituições e especialistas. “Isso é extremamente perigoso no caso da pandemia de covid-19, se as pessoas forem levadas a ignorar os conselhos de autoridades sobre o distanciamento social e sobre o uso de máscaras”, exemplifica Cook.

Confira abaixo os sete padrões comuns a teorias da conspiração — e nunca mais acredite em uma:

Teoria da conspiração: Contradição

Teorias da conspiração podem conter elementos que são mutuamente contraditórios. Para os conspiradores, não importa que seus argumentos não sigam um raciocínio lógico desde que mantenham o tom crítico à versão de autoridades.

“Isso ocorre porque o comprometimento dos teóricos com a descrença na narrativa ‘oficial’ é tão absoluto, que não importa se o sistema de crenças é incoerente”, explicam Lewandowsky e Cook.

É o caso, por exemplo, de boatos que acusam a China de ter criado o novo coronavírus em laboratório, ao mesmo tempo que afirmam que o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID) faria parte da conspiração.

Teoria da conspiração: Suspeita absoluta

Teorias da conspiração sempre negam veementemente a narrativa oficial. Postagens conspiratórias também se fecham para o diálogo. Dessa forma, não se deixam ponderar sobre argumentos que não se encaixem na visão defendida pela própria conspiração.

Conspiradores utilizam as suas teorias como uma ferramenta para escapar de conclusões inconvenientes, informam Cook e Lewandowsky. Por isso, narrativas que mostrem a verdade — como o fato de um ser microscópico que não podemos enxergar a olho nu seja o responsável por tamanho impacto em nossas vidas — sejam descartadas.

Por isso, duvide de postagens que apresentem ceticismo absoluto com relação à narrativa oficial. Frases como “estão escondendo a verdade” demonstram completa resistência a evidências reais que não se encaixam na conspiração.

Teoria da conspiração: Algo deve estar errado

Teóricos da conspiração podem abandonar uma teoria depois que ela já enfrentou muitas checagens ou se tornou insustentável. Isso não impede que outras narrativas igualmente falsas sejam criadas e passem a circular nas redes. Dessa forma, o sentimento de que “algo deve estar errado” persiste.

A cloroquina e a hidroxicloroquina entraram no radar de curas da covid-19 a partir dos estudos de um pesquisador francês. Ele, no entanto, já foi desacreditado por colegas da academia e as conclusões de seu estudo passam por uma revisão. Mesmo que estudos posteriores falharam em comprovar sua eficácia, o medicamento continua aparecendo em notícias falsas como uma possível solução para a redução no número de mortos.

Teoria da conspiração: Intenção nefasta

“As motivações por trás de qualquer suposta conspiração são, invariavelmente, consideradas nefastas”, destacam os pesquisadores. Isso é o mesmo que dizer que autoridades ou os responsáveis pelo suposto golpe são inimigos e, portanto, jamais possuem intenções positivas.

Este fenômeno foi observado em postagens que acusavam a China de testar no Brasil a vacina do laboratório Sinovac Biotech de forma insegura. O boato causava desconfiança com relação ao possível imunizante e desconsiderava que ele foi considerado seguro e eficiente em testes preliminares realizados no país asiático.

Teorias da conspiração podem causar descrença em autoridades e fragilizar os esforços oficiais de combate à pandemia, dizem os pesquisadores. A polarização política contribui para este cenário. Os esforços de governadores para aplicar medidas de isolamento social, recomendadas por autoridades médicas de todo o mundo, podem ser vistos como tentativas de desestabilizar a economia e de fragilizar o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Teoria da conspiração: Vítima perseguida

Por causa desse caráter nefasto, os teóricos da conspiração enxergam a si mesmos como vítimas de uma perseguição organizada. Eles estariam com a razão, por isso não se intimidam e não desistem de “confrontar” seus algozes — isto é, aqueles que os contestam. “O pensamento conspiratório envolve a autopercepção de vítima e de herói simultaneamente”, dizem Lewandowsky e Cook.

Boatos a favor de medicamentos sem comprovação científica acusavam governadores de lucrar com a morte de doentes, embora repasses federais a Estados e municípios não estejam relacionados com o registro de óbitos. Em outros casos, vídeos mostrando enfermarias supostamente vazias são tirados de contexto por pessoas que consideram estar combatendo um grande mal.

Teoria da conspiração: Imune a evidências

As teorias da conspiração sempre darão um jeito de ignorar evidências que as contestem. Aquele que ousar confrontar a veracidade de uma teoria, logo será considerado parte da conspiração.

A teoria se alimenta disso, explicam Cook e Lewandowsky. Quanto mais forte é a evidência que a conteste, mais os teóricos se esforçarão para que as pessoas acreditem em sua versão dos eventos. Isso quer dizer que qualquer evidência que questione uma teoria poderá ser interpretada como uma futura evidência da conspiração.

Por exemplo, o boato de que o novo coronavírus foi criado em laboratório já foi desmentido por universidades de todo o mundo. Dessa forma, as mesmas instituições podem ser acusadas de mentir e assim aparecer em novas notícias falsas como parte da teoria da conspiração.

Teoria da conspiração: Reinterpretação da aleatoriedade

Por fim, teorias da conspiração costumam utilizar qualquer pequeno aspecto de uma história para reforçar os argumentos conspiratórios. Elas partem do pressuposto que nada acontece por acaso. Ou seja, detalhes aparentemente sem importância são dicas que se revelam supostas evidências da teoria.

“Pequenos eventos aleatórios, como as janelas do Pentágono intactas após os ataques de 11 de setembro, são reinterpretados como se fossem parte da conspiração (se um avião tivesse atingido o Pentágono, todas as janelas teriam se quebrado) e são adicionados a uma narrativa ampla e interconectada”, exemplificam os pesquisadores.

Como falar com um teórico da conspiração?

As pessoas que acreditam em teorias da conspiração são imunes a evidências externas. Por isso, checagens e desmistificações comuns podem não surtir efeito e até incentivá-los a compartilhar ainda mais conteúdos conspiratórios. Pensando nisso, Cook e Lewandowsky separaram dicas baseadas em pesquisas de desradicalização do debate público sobre como falar com um teórico da conspiração.

A palavra de ordem deve ser a empatia. O debate deve ser feito de modo a construir um entendimento entre o teórico e seu interlocutor. “Como o objetivo da intervenção é fazer com que os teóricos da conspiração abram a mente, os comunicadores precisam dar o exemplo”, dizem os pesquisadores.

A ridicularização e o confrontamento direto não são boas estratégias. O enfoque no desejo de ganhar a discussão em vez de construir uma linha de raciocínio pode levar à rejeição automática. Importante destacar que mensagens anticonspiração criadas por ex-integrantes da conspiração são mais bem avaliadas e lembradas por teóricos da conspiração.

“E reitere o pensamento crítico”, aconselham os pesquisadores. Eles lembram que os teóricos da conspiração enxergam a si mesmos como pessoas críticas que não se deixam enganar. Assim, é possível tirar proveito dessa percepção ao reafirmar o valor do pensamento crítico. “Direcione essa abordagem para uma análise mais crítica da teoria da conspiração.”

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