Estudos falharam em provar benefício da cloroquina para tratamento da covid-19
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Estudos falharam em provar benefício da cloroquina para tratamento da covid-19

Boato viral divulga alegação falsa de que medicamento seria comprovadamente eficaz na cura do novo coronavírus

Pedro Prata

10 de julho de 2020 | 12h48

Atualizada às 12h11 de 13 de julho de 2020.

Um boato viral no Facebook engana ao afirmar que a cloroquina evitaria internações e reduziria o número de mortes pela covid-19. O medicamento está no centro de uma disputa ideológica em torno da pandemia causada pelo novo coronavírus, mas até o momento não tem comprovação científica de sua eficácia. O Estadão Verifica checou a postagem por tratar de um tema de saúde pública, que recebeu 2,9 mil compartilhamentos em menos de 24h.

“Nenhum estudo em nenhum lugar do mundo mostrou a eficácia da cloroquina contra o novo coronavírus”, diz o infectologista Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Ele explica que a droga apresenta resultado antiviral in vitro, isto é, em testes de laboratório. No entanto, ela falha em reproduzir o resultado no corpo humano. “É bom ressaltar que a maior parte das drogas que tem ação in vitro, não tem ação in vivo (em seres humanos). E isso é assim com vários medicamentos que temos disponíveis, não é exclusividade da cloroquina.”

A cloroquina e a hidroxicloroquina são dois antimaláricos — isto é, remédios usados em pacientes com malária. São drogas há bastante tempo conhecidas pelos médicos, usadas também no tratamento de lúpus e artrite reumatoide. Sua utilização no tratamento de pacientes com covid-19 foi inicialmente endossada por médicos do sul da França. O estudo, no entanto, acabou amplamente contestado e passa por nova revisão de especialistas.

Estudos falharam em comprovar benefícios da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Foto: Reprodução

Muitos estudos se seguiram a este, mas todos falharam em comprovar que a hidroxicloroquina ou a cloroquina teriam algum efeito no tratamento. É o caso do estudo internacional Solidariedade, conduzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele foi interrompido no começo de julho após os resultados mostrarem baixa ou nenhuma redução na mortalidade dos pacientes hospitalizados tratados com a hidroxicloroquina em comparação com os pacientes que não receberam o mesmo medicamento.

Já o estudo Recovery contou com a participação de mais de 11 mil pacientes do sistema público de saúde do Reino Unido. Seus pesquisadores principais emitiram comunicado, em junho, concluindo que “não há efeito benéfico” do uso de hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com a covid-19. Isso inclui dizer que não foi observada redução no tempo de recuperação.

O Estadão Verifica fez esta checagem com base em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis em 9 de julho de 2020.

Disputa ideológica em meio à pandemia

O boato acerta ao lembrar que a cloroquina está no meio de um debate ideológico em plena pandemia. Apesar de não haver comprovação científica de seus benefícios, o medicamento é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro como uma estratégia importante para combater o novo coronavírus. No final de junho, o ministro general Fernando Azevedo e Silva (Defesa) afirmou que o laboratório do Exército ainda tinha 1,85 milhão de comprimidos de cloroquina estocados.

Caixa do remédio sulfato de hidroxicloroquina, conhecido como Reuquinol. Foto: Márcio Pinheiro/SESA

A insistência do presidente na eficácia do medicamento foi um dos motivos para a demissão dos ministros da Saúde Henrique Mandetta e Nelson Teich, que saíram do cargo no intervalo de um mês. Após a saída de Teich, o Ministério publicou recomendações para o tratamento com hidroxicloroquina de pacientes com sintomas leves da covid-19. O documento ressalta que não há comprovação científica de benefício do medicamento e deixa a cargo de cada médico fazer a avaliação de seu uso. Destaca, ainda, a importância da realização de exames para monitoramento da atividade cardíaca — recomendação também da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Após anunciar que testou positivo para covid-19, o presidente disse que está tomando a cloroquina e que se sente bem. Mesmo encerrando sua agenda de compromissos para cuidar de sua saúde, Bolsonaro mantém reuniões com ministros por videoconferência e faz ‘propaganda’ sobre o medicamento.

O presidente norte-americano, Donald Trump, também defendeu o uso da hidroxicloroquina no tratamento dos pacientes. No final de maio, ele anunciou o envio de dois milhões de doses do medicamento para o Brasil. O anúncio se deu no momento em que a procura pelos medicamentos nos hospitais dos Estados Unidos diminuía após estudos não encontrarem benefício em sua utilização.

Pouco tempo depois, um sinal desencorajador veio do país norte-americano. A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos EUA, revogou a autorização emergencial da cloroquina. Ela estava em vigor desde 28 de março e permitia que hospitais tivessem acesso a um estoque emergencial do governo federal. Porém, após muitos estudos não apresentarem benefícios no medicamento, a autorização foi retirada.

É verdade que a cloroquina não tem patente?

A cloroquina foi desenvolvida em 1930 pela empresa alemã Bayern e recebeu o nome comercial Resochin. O boato viral traz a alegação de que a droga não teria patente. Procurado, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), responsável pelo registro de patentes no País, informou que “o período de vigência de uma patente é de 20 anos. Depois deste prazo a tecnologia cai em domínio público”.

O difosfato de cloroquina possui três registros na Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), dos quais dois são da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Laboratório Químico Farmacêutico do Exército. Já o sulfato de hidroxicloroquina possui seis registros, dos quais quatro são genéricos.

Dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) mostram que o consumo de cloroquina pelos brasileiros cresceu 358% durante a pandemia.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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