Agência Câmara
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Relembre as investigações que envolvem líderes do Centrão com quem Bolsonaro negocia

Centrão começou a assumir vagas negociadas; presidente Jair Bolsonaro tenta se blindar com apoio do grupo

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 17h15

Eleito com um discurso contra a “velha política”, o presidente Jair Bolsonaro cedeu e se aproxima do Centrão, negociando cargos no governo em troca de apoio no Congresso Nacional. O movimento ocorre diante da escalada da crise política e para se blindar de um eventual processo de impeachment.

O bloco informal pode ter o controle de um orçamento total que ultrapassa R$ 78 bilhões em 2020. Nesta semana, indicados de deputados do Progressistas e do Republicanos já assumiram o comando do Departamento Nacional de Obras Contra Secas (Dnocs) e da Secretaria de Mobilidade do Ministério do Desenvolvimento Regional.

Relembre investigações que envolvem os principais líderes do Centrão:

Arthur Lira (PP-AL), deputado federal

No âmbito da Operação Lava Jato, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL) é réu pelo crime de organização criminosa junto com três colegas de partido. De acordo com a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), entre 2006 e 2015, os parlamentares participaram de um esquema de “cometimento de uma miríade de delitos” e arrecadação de propina por meio da utilização de diversos órgãos da administração pública, como a Petrobrás, a Caixa Econômica Federal e o Ministério das Cidades. O esquema ficou conhecido como “Quadrilhão do PP”.

Nesse caso, Lira é acusado de receber vantagens indevidas por meio de doações eleitorais oficiais que totalizariam R$ 2,6 milhões.

O deputado responde ainda a outro processo no âmbito da Lava Jato, por improbidade administrativa. Segundo a força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná, Lira teria encabeçado a negociação do pagamento de propina entre a Jaraguá Equipamentos Industriais, empresa que fornecia fornos à refinaria da Petrobrás Abreu e Lima, e agentes públicos, com repasses que somariam R$ 1,9 milhão.

Em troca, o PP garantiria a permanência de Paulo Roberto Costa no cargo de diretor de Serviços da estatal. Costa, por sua vez, manteria o contrato da Jaraguá. Os valores seriam repassados a empresas de fachada utilizadas pelo doleiro Alberto Youssef para lavar o dinheiro e entregar aos políticos.

Em outro caso, o deputado é réu pelo crime de corrupção passiva. Segundo a PGR, Lira aceitou propina de R$ 106 mil oferecida pelo então presidente da Companhia Brasileira de Transportes Urbanos (CBTU), Francisco Colombo, com o objetivo de obter apoio político para permanecer no cargo. A quantia teria sido entregue em dinheiro vivo a um assessor parlamentar do deputado, que foi detido pela Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Lira também teria participado de um esquema de desvio de recursos públicos enquanto ocupava cargo na mesa diretora da Assembleia Legislativa de Alagoas, entre 2003 e 2006, época em que era deputado estadual. O dinheiro teria sido desviado por meio da apropriação de cheques emitidos em nome de servidores comissionados laranjas e da realização de falsos empréstimos bancários quitados com as verbas de gabinete.

Segundo a denúncia, entre 2001 e 2007, Lira movimentou mais de R$ 9,5 milhões em sua conta. Dois de seus intermediários movimentaram cerca de R$ 12,4 milhões em 2004 e 2005. A PGR denunciou o deputado pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro.

Ciro Nogueira (PP-PI), senador

O senador e presidente nacional do PP, Ciro Nogueira (PI), também foi alvo da Operação Lava Jato. Segundo a PGR, o parlamentar teria recebido R$ 7,3 milhões de propina da construtora Odebrecht. O homem forte do PP na Petrobrás, Paulo Roberto Costa, arrecadaria os valores a parlamentares da legenda em duas frentes. Em uma, atuaria pela contratação de empresas com as quais já haveria um acerto com o PP. Na outra, acertaria os repasses diretamente com as empreiteiras.

Nogueira teria recebido os valores em troca de atuar por medidas e leis favoráveis à Braskem, do grupo Odebrecht.

O parlamentar também é alvo da denúncia pelo crime de organização criminosa no “Quadrilhão do PP”. De acordo com a denúncia da PGR, o deputado recebeu da empreiteira UTC Engenharia um total de R$ 1,8 milhão.

O senador é investigado no processo em que colaboradores do Grupo J&F, dono da JBS, afirmaram terem repassado cerca de R$ 43 milhões ao PP, em pagamentos em espécie e doações oficiais, para comprar o apoio do partido à então candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) em 2014. Nogueira teria sido o responsável por intermediar os pagamentos.

Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), deputado federal

O deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) também é alvo da denúncia da PGR sobre o “Quadrilhão do PP”, desdobramento da Operação Lava Jato, que investiga suposto crime de organização criminosa e envolve seus colegas de partido Arthur Lira, Ciro Nogueira e Eduardo da Fonte.

Dentro do esquema de arrecadação de propina por meio de órgãos como a Petrobrás, a Caixa Econômica Federal e o Ministério das Cidades, Ribeiro teria sido o responsável por “ordenar a captação e o repasse da propina” decorrente de contratos relacionados à diretoria de abastecimento da Petrobrás.

Marcos Pereira (Republicanos-SP), deputado federal

O deputado federal Marcos Pereira (Republicanos-SP) teria negociado um repasse de R$ 7 milhões do caixa 2 da construtora Odebrecht para o partido, então PRB, na campanha de 2014, segundo indicou um depoimento que integrou a delação da empreiteira na Operação Lava Jato. De acordo com as investigações, os recursos teriam sido entregues em dinheiro vivo para comprar o apoio do partido, à época presidido por Pereira, à campanha de reeleição de Dilma Rousseff (PT).

Em outro caso, o empresário Joesley Batista, dono da JBS, declarou em seu depoimento de delação premiada que acertou o pagamento de R$ 6 milhões ao deputado. Segundo o que foi relatado pelo executivo, o acerto teria sido feito em troca da aprovação de um empréstimo de R$ 2,7 bilhões da Caixa Econômica Federal. A negociação teria sido mediada pelo vice-presidente da Caixa, Antônio Carlos Ferreira, que dependeria da transferência dos valores para permanecer no cargo, já que deveria atender “certos pedidos feitos por quem lhe indicou”.

Paulinho da Força (Solidariedade-SP), deputado federal

Também envolvido na Operação Lava Jato, o deputado federal e presidente nacional do Solidariedade Paulinho da Força (SP) foi denunciado pela PGR pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da delação da construtora Odebrecht. O parlamentar é acusado de receber propina no valor total de R$ 1,8 milhão em dinheiro vivo para atuar a favor dos interesses da empreiteira. 

O objetivo do pagamento, segundo delatores, era comprar o apoio do parlamentar, tanto para dissuadir eventuais movimentos grevistas quanto para garantir o apoio do deputado à participação privada no setor de saneamento básico, área de interesse da Odebrecht Ambiental.

Paulinho da Força também é réu em uma ação que o acusa de praticar atos ilícitos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, o parlamentar teria cometido os crimes entre dezembro de 2007 e abril de 2008, período em que indicou duas pessoas para o conselho de administração da instituição.

De acordo com as investigações, Paulinho e os indicados teriam cobrado uma comissão conseguir três contratos de financiamento pelo BNDES – dois para as Lojas Marisa, de R$ 220 e R$ 174 milhões, e um para a Prefeitura de Praia Grande, de cerca de R$ 130 milhões.

Wellington Roberto (PL-PB), deputado federal

O deputado federal Wellington Roberto (PL-PB) foi denunciado pela CMPI dos Sanguessugas, em 2006. Segundo as investigações, o esquema fraudava licitações para compra de ambulâncias com verba do Ministério da Saúde. O grupo fazia contato com prefeituras para oferecer a entrega de ambulâncias com maior rapidez, sem ter de passar pelos trâmites normais.

Se o prefeito concordasse, a quadrilha negociava com assessores de parlamentares a apresentação de emendas individuais ao Orçamento da União para liberar o dinheiro. Assim que fossem liberados os recursos, o grupo manipulava a licitação e fraudava a concorrência usando empresas de fachada. Dessa maneira, os preços da licitação eram superfaturados, chegando a ser até 120% superiores aos valores de mercado. O valor era dividido entre os envolvidos no esquema, inclusive parlamentares.

Valdemar Costa Neto (PL)

O ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, um dos caciques do PL, foi condenado no julgamento do mensalão a uma pena de 7 anos de prisão, além de multa de 1 milhão de reais, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. De acordo com a denúncia da PGR, Valdemar teria recebido R$ 10 milhões para a compra do apoio de seu partido no Congresso. Renunciou duas vezes ao cargo de deputado federal, em 2005 e 2013, para evitar a cassação.

Roberto Jefferson (PTB)

O ex-deputado federal e presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, foi condenado a 7 anos de prisão e multa de R$ 720 mil no julgamento do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). O político foi considerado culpado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em 2005, declarações de Jefferson acabaram levando à descoberta do esquema de compra de deputados federais da base aliada do governo. Ele reconheceu à época que recebeu R$ 4 milhões do PT em troca do apoio parlamentar do PTB ao governo Lula.

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