Bolsonaro trocou mais ministros que FHC e Lula, mas fez menos alterações que Dilma
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Bolsonaro trocou mais ministros que FHC e Lula, mas fez menos alterações que Dilma

Levantamento sobre os primeiros 19 meses de mandato dos presidentes mostra que conteúdo sobre o tema em circulação no Facebook é enganoso

Samuel Lima, especial para o Estado

29 de abril de 2020 | 15h41

Este conteúdo foi atualizado em 28 de julho de 2020. A comparação com governos anteriores também foi ajustada para o período.

Postagens em circulação no Facebook enganam ao afirmar que o governo de Jair Bolsonaro realizou cinco mudanças de ministros em sua gestão, enquanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teria feito 70, Luiz Inácio Lula da Silva, 74, e Dilma Rousseff, 89. Nenhuma das informações está correta, conforme apurou o Estadão Verifica a partir da análise de dados do Observatory of Social and Political Elites of Brazil, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Desde que assumiu a presidência, há 19 meses, Bolsonaro realizou 13 mudanças em seu quadro de ministros — e não cinco — com 11 demissões. A mais recente foi a saída do ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, em 30 de junho, cinco dias depois de ser anunciado como titular da pasta. A demissão ocorreu depois de o economista ter o currículo questionado por universidades estrangeiras e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). O Estadão apurou que o governo pediu que Decotelli deixasse o cargo para o qual nem chegou a ser empossado. Para seu lugar, foi nomeado o pastor da igreja Presbiteriana em Santos Milton Ribeiro, ligado à Universidade Mackenzie, em 10 de julho.

Presidente Jair Bolsonaro em conversa com jornalistas na portaria do Palácio da Alvorada nesta terça, 28 Foto: Dida Sampaio / Estadão

Em 2019, Bolsonaro trocou Gustavo Bebianno por Floriano Peixoto, na Secretaria-Geral da Presidência, em 18 de fevereiro; Ricardo Vélez Rodríguez por Abraham Weintraub, no Ministério da Educação, em 8 de abril; Carlos Alberto dos Santos Cruz por Luiz Eduardo Ramos, na Secretaria de Governo, em 13 de junho; e Floriano Peixoto por Jorge Antônio, novamente na Secretaria-Geral da Presidência, em 20 de junho.

As primeiras mudanças neste ano envolveram Gustavo Canuto por Rogério Marinho, no Ministério do Desenvolvimento Regional, em 6 de fevereiro; e Osmar Terra por Onyx Lorenzoni, no Ministério da Cidadania, em 13 de fevereiro, com a entrada de Walter Braga Netto na Casa Civil. Em meio à pandemia, Bolsonaro trocou Luiz Henrique Mandetta por Nelson Teich, no Ministério da Saúde, em 16 de abril — e no dia 15 de maio, menos de um mês depois, Teich pediu demissão. A pasta segue comandada pelo interino Eduardo Pazuello.

Também foram substituídos os ministros Sérgio Moro por André Mendonça, no Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 28 de abril, o que resultou na entrada de José Levi na Advocacia-Geral da União, também com status de ministro; e Abraham Weintraub por Carlos Alberto Decotelli, com a demissão de Weintraub no dia 18 de junho. Decotelli foi nomeado no dia 25 e deixou a pasta em 30 de junho, dando lugar a Milton Ribeiro 10 dias depois.

Bolsonaro também recriou o Ministério das Comunicações em 16 de junho, dividindo a pasta de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, comandada pelo ministro-astronauta Marcos Pontes, militar da reserva. O cargo é ocupado por Fábio Faria (PSD-RN). A alteração não foi contabilizada nas trocas de ministros.

Comparação entre governos

A reportagem pesquisou o número de trocas de ministros nos primeiros 19 meses de mandato dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Depois, comparou com as informações do governo Bolsonaro.

A análise indica que Dilma é a recordista do grupo: foram 16 alterações no primeiro escalão dos ministérios nos primeiros 19 meses de gestão, entre 2011 e 2012. Os dados mostram ainda que Fernando Henrique realizou quatro mudanças no mesmo período (sem contar uma troca no Banco Central), entre 1995 e 1996, enquanto Lula alterou nove vezes o seu quadro ministerial entre janeiro de 2003 e julho de 2004. Bolsonaro tem mais trocas de ministros do que ambos na comparação.

Considerando apenas demissões por desempenho e casos em que as autoridades deixam o governo em razão de escândalos e atritos com o presidente, o governo de Dilma Rousseff também lidera, com 40 em cinco anos e oito meses na presidência. Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva tiveram 27 e 26 baixas, respectivamente, ao longo de oito anos. Bolsonaro apresenta 11 casos do gênero até o momento, 19 meses após a posse.

A consulta foi feita sobre o banco de dados do Observatory of Social and Political Elites of Brazil, coordenado pelo professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Adriano Codato e financiado pelo CNPq. As informações originais foram extraídas do acervo do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e do site da Biblioteca da Presidência da República.

Confusão de termos

O Estadão Verifica tentou encontrar alguma fonte para os números indicados nas postagens falsas ao pesquisar o termo “ministros” no Google, acompanhado dos nomes dos ex-presidentes e dos números 70, 74 e 89. O primeiro resultado da busca foi a notícia “Dilma nomeou mais ministros que os antecessores FHC e Lula”, do jornal Estado de Minas, publicada em 24 de agosto de 2015. 

Como o próprio título indica, a matéria apresenta o comparativo entre o número de nomeações de ministros de FHC, Lula e Dilma, e não de mudanças nos ministérios. Por esse critério, o governo Bolsonaro já acumula 35 nomeações, sendo 33 titulares diferentes. Além disso, o levantamento envolve os quatro anos e meio iniciais de mandato de Dilma Rousseff e os cinco primeiros anos de Fernando Henrique e Lula na presidência. Bolsonaro está há um ano e sete meses no cargo.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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