Bolsonaro trocou mais ministros que FHC e Lula, mas fez menos alterações que Dilma
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Bolsonaro trocou mais ministros que FHC e Lula, mas fez menos alterações que Dilma

Levantamento sobre os primeiros 16 meses e meio de mandato dos presidentes mostra que conteúdo sobre o tema em circulação no Facebook é enganoso

Samuel Lima, especial para o Estado

29 de abril de 2020 | 15h41

Este conteúdo foi atualizado em 15 de maio de 2020, após a demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich. A comparação com governos anteriores também foi ajustada para o período.

Postagens em circulação no Facebook enganam ao afirmar que o governo de Jair Bolsonaro realizou cinco mudanças de ministros em sua gestão, enquanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teria feito 70, Luiz Inácio Lula da Silva, 74, e Dilma Rousseff, 89. Nenhuma das informações está correta, conforme apurou o Estadão Verifica a partir da análise de dados do Observatory of Social and Political Elites of Brazil, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Desde que assumiu a presidência, há 16 meses e meio, Bolsonaro realizou 11 mudanças em seu quadro de ministros, e não cinco. A mais recente foi o pedido de demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich, em 15 de maio. Bolsonaro afirmou que o novo titular da pasta terá de “falar sua língua”.

Presidente Jair Bolsonaro em conversa com jornalistas na portaria do Palácio da Alvorada nesta terça, 28 Foto: Dida Sampaio / Estadão

Em 2019, Bolsonaro trocou Gustavo Bebianno por Floriano Peixoto, na Secretaria-Geral da Presidência, em 18 de fevereiro; Ricardo Vélez Rodríguez por Abraham Weintraub, no Ministério da Educação, em 8 de abril; Carlos Alberto dos Santos Cruz por Luiz Eduardo Ramos, na Secretaria de Governo, em 13 de junho; e Floriano Peixoto por Jorge Antônio, novamente na Secretaria-Geral da Presidência, em 20 de junho.

As mudanças neste ano envolveram Gustavo Canuto por Rogério Marinho, no Ministério do Desenvolvimento Regional, em 6 de fevereiro; Osmar Terra por Onyx Lorenzoni, no Ministério da Cidadania, com a entrada de Walter Souza Braga Netto na Casa Civil, em 13 de fevereiro; Luiz Henrique Mandetta por Nelson Teich, no Ministério da Saúde, em 16 de abril; e Sérgio Moro por André Mendonça, em 28 de abril, com a entrada de José Levi na Advocacia-Geral da União, que também tem status de ministério.

Comparação entre governos

A reportagem pesquisou o número de trocas de ministros nos primeiros 16 meses e meio de mandato dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Depois, comparou com as informações do governo Bolsonaro.

A análise indica que Dilma é a recordista do grupo: foram 16 alterações no primeiro escalão dos ministérios nos primeiros 16 meses e meio de gestão, entre 2011 e 2012. Os dados mostram ainda que Fernando Henrique realizou três mudanças no mesmo período (sem contar uma troca no Banco Central), entre 1995 e 1996, enquanto Lula alterou nove vezes o seu quadro ministerial entre janeiro de 2003 e 15 de maio de 2004. Bolsonaro tem mais trocas de ministros do que ambos na comparação.

Considerando apenas demissões por desempenho e casos em que as autoridades deixam o governo em razão de escândalos e atritos com o presidente, o governo de Dilma Rousseff também lidera, com 40 em cinco anos e oito meses na presidência. Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva tiveram 27 e 26 baixas, respectivamente, ao longo de oito anos. Bolsonaro apresenta sete casos do gênero até o momento, 16 meses e meio após a posse.

A consulta foi feita sobre o banco de dados do Observatory of Social and Political Elites of Brazil, coordenado pelo professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Adriano Codato e financiado pelo CNPq. As informações originais foram extraídas do acervo do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e do site da Biblioteca da Presidência da República.

Confusão de termos

O Estadão Verifica tentou encontrar alguma fonte para os números indicados nas postagens falsas ao pesquisar o termo “ministros” no Google, acompanhado dos nomes dos ex-presidentes e dos números 70, 74 e 89. O primeiro resultado da busca foi a notícia “Dilma nomeou mais ministros que os antecessores FHC e Lula”, do jornal Estado de Minas, publicada em 24 de agosto de 2015. 

Como o próprio título indica, a matéria apresenta o comparativo entre o número de nomeações de ministros de FHC, Lula e Dilma, e não de mudanças nos ministérios. Por esse critério, o governo Bolsonaro já acumula 32 nomeações, sendo 30 titulares diferentes. Além disso, o levantamento envolve os quatro anos e meio iniciais de mandato de Dilma Rousseff e os cinco primeiros anos de Fernando Henrique e Lula na presidência. Bolsonaro está há menos de um ano e meio no cargo.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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