Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Teich se demite e expõe governo em crise; general assume Saúde

Menos de um mês após assumir, ministro sai no auge da pandemia da covid-19, que já causou 14 mil mortes no País; é o segundo titular da pasta que deixa o cargo por atritos com Bolsonaro

Tânia Monteiro e Luci Ribeiro, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 12h05
Atualizado 15 de maio de 2020 | 21h15

BRASÍLIA – Vinte e oito dias após assumir o cargo, o ministro da Saúde, Nelson Teich, pediu demissão nesta sexta-feira, 15, em meio a divergências com o presidente Jair Bolsonaro. A saída de Teich no auge da pandemia do novo coronavírus expõe a fragilidade de Bolsonaro, que enfrenta uma crise atrás da outra na política e na economia e, com a popularidade em queda, já admite que precisará de apoio no Congresso para “salvar” o governo.

Bolsonaro pretende fazer um pronunciamento na noite deste sábado, em rede nacional de rádio e TV, para defender a volta à “normalidade” e o retorno ao trabalho no momento em que o desemprego cresce e partidos já se articulam para pedir o seu impeachment. Desta vez, o estopim da nova crise – que levou à saída de Teich – foi a decisão do presidente de mudar o protocolo de uso da cloroquina no combate à covid-19. A doença já deixou um rastro de quase 14 mil mortes no País.

Pressionado a ampliar a prescrição do medicamento, apesar da falta de comprovação sobre sua eficácia para tratar o coronavírus, Teich já havia avisado Bolsonaro, na tarde de quinta-feira, 14, que era preciso aguardar a conclusão de estudos científicos. Não adiantou: em transmissão ao vivo, naquela noite, o presidente disse que faria a mudança no protocolo. “Quem manda sou eu”, afirmou ele a auxiliares. “Não vou ser um presidente pato manco.”

Desde que assumiu o cargo, Teich não conseguiu montar sua própria equipe e vinha sendo tutelado pela ala militar do governo, como revelou o Estadão. Na última semana, ao menos dez nomes ligados às Forças Armadas assumiram postos estratégicos na pasta. O Estadão também revelou que o ministro vinha sofrendo resistência por parte de secretários estaduais e municipais.

Teich pediu demissão no dia em que o governo completou 500 dias. Foi o nono ministro a deixar a Esplanada – o último deles havia sido o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro, que comandava a Justiça e, ao sair, há 22 dias, acusou Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal. O caso motivou abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), que agora se debruça sobre o conteúdo do vídeo de uma reunião ministerial, e pode abrir caminho para o afastamento do presidente ou um processo de impeachment.

O presidente almoçou nesta sexta-feira, 15, com a médica Nise Yamaguchi, defensora do uso da cloroquina em pacientes contaminados pelo coronavírus. O Estadão apurou, no entanto, que o diálogo não correspondeu à expectativa do Planalto e, com isso, a indicação dela para a vaga de Teich perdeu força. Outros nomes citados são os do deputado Osmar Terra (MDB-RS), ex- ministro da Cidadania, e do almirante Luiz Froes, diretor de Saúde da Marinha.

Na última conversa com Bolsonaro, na manhã desta sexta, Teich observou, mais uma vez, que não poderia ir contra a ciência. Médico oncologista que atuou como consultor da campanha bolsonarista, em 2018, ele repetiu ali, no Palácio da Alvorada, o mesmo argumento usado por seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, dispensado por Bolsonaro no dia 16 de abril. A amigos, Teich disse que havia chegado ao seu limite e que tinha um nome a zelar.

Mais tarde, em um breve pronunciamento, Teich preferiu não polemizar com o presidente, embora também discordasse dele sobre outros temas. O médico sempre defendeu o isolamento social para evitar a disseminação da doença, enquanto Bolsonaro quer afrouxar a quarentena. 

“A vida é feita de escolhas e eu hoje escolhi sair”, disse Teich. Em sua curta passagem pelo ministério, o médico foi várias vezes desautorizado por Bolsonaro. Na segunda-feira, por exemplo, ele se mostrou surpreso ao saber de um decreto incluindo salões de beleza, academias e barbearias na lista de atividades essenciais que deveriam reabrir. “É fogo, hein?”, lamentou Teich.

Em guerra com governadores e com o Supremo, Bolsonaro procura agora um ministro da Saúde com perfil conciliador, que possa ajudar o governo a vencer a batalha da comunicação, vista como perdida até aqui. Alçado à condição de ministro interino, o general Eduardo Pazuello terá a missão de assinar o novo protocolo da pasta, liberando o uso da cloroquina. “O momento é de oração. A única coisa que sei é que foi um mês perdido, jogado na lata do lixo”, afirmou o ex-ministro Mandetta ao Estadão.

Panelaços são registrados em quatro capitais

O anúncio da demissão de Teich do Ministério da Saúde foi seguido por panelaços em ao menos quatro capitais. Moradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife fizeram manifestações por volta das 12h, quando os sites publicaram que o ministro deixaria o governo. Houve novos protestos por volta das 16h, quando Teich fez um pronunciamento.

Na capital paulista, houve relatos de panelaços em Perdizes, Pompeia e Pinheiros, zona oeste, e em Santa Cecília, Bela Vista e Higienópolis, na região central. Em Brasília, os protestos ocorreram na Asa Norte. Já no Rio, as manifestações se concentraram na zona sul, com gritos de “Fora Bolsonaro”, “canalha”, “assassino” e “genocida”.

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