Gabriela Biló/Estadão
O presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Saúde, Nelson Teich Gabriela Biló/Estadão

Bolsonaro demite Mandetta e escolhe Nelson Teich para a Saúde

Substituto é oncologista e se reuniu com o presidente e ministros nesta manhã

Julia Lindner, Jussara Soares e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h05
Atualizado 16 de abril de 2020 | 20h14

BRASÍLIA – Após semanas de desavenças, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta quinta-feira, 16. O oncologista Nelson Teich vai assumir o cargo. A saída foi confirmada por Mandetta nas redes sociais. “Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso País”, postou.

Teich se reuniu com o presidente pela manhã, quando, segundo interlocutores do presidente, causou boa impressão. O médico foi consultor da área de saúde na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, e é fundador do Instituto COI, que realiza pesquisas sobre câncer.

Em seu currículo em redes sociais, o oncologista também registra ter atuado como consultor do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, entre setembro do ano passado e março deste ano. Teich e Vianna foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.  

A escolha de Teich foi considerada internamente no governo como uma vitória do secretário de Comunicação da Presidência,  Fábio Wajngarten, e do empresário bolsonarista Meyer Nigri, dono da Tecnisa. Os dois foram os principais apoiadores de seu nome para o cargo.

Teich teve o apoio da classe médica e contou a seu favor a boa relação com empresários do setor da saúde. O argumento pró-Teich no Ministério da Saúde é o de que ele trará dados para destravar debates “politizados” sobre a covid-19. A avaliação, porém, é de que ele pode enfrentar dificuldades diante da falta de expertise política, principalmente ao lidar com governadores que se opõe a Bolsonaro.

O oncologista já havia sido cotado para comandar a Saúde no início do governo, mas perdeu a vaga para Mandetta, que havia sido colega de Bolsonaro na Câmara de Deputados e tinha o apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM-GO), agora seu ex-aliado, e do atual ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Em artigo publicado no dia 3 de abril em sua página no LinkedIn, o escolhido para a Saúde critica a discussão polarizada entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, afirma ele no texto.

Mandetta agradece e deseja boa sorte a sucessor

Em mensagem no Twitter em que anunciou sua demissão, Mandetta agradeceu a oportunidade de gerenciar o Sistema Único de Saúde (SUS) e planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus. “Agradeço a toda a equipe que esteve comigo no MS e desejo êxito ao meu sucessor no cargo de ministro da Saúde. Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso país”, postou.

Desde o início da crise do coronavírus, Mandetta e presidente vinham se desentendendo sobre a melhor estratégia de combate à doença. Enquanto Bolsonaro defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, o agora ex-ministro manteve a orientação da pasta para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do titular da Saúde segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Os dois também divergiram sobre o uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. Mandetta, por sua vez, sempre pediu cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus.

As últimas atitudes do ex-auxiliar elevaram a temperatura do confronto e, na visão de auxiliares, o estopim da nova crise foi a entrevista dada por Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Na terça-feira, em entrevista da série Estadão Live Talks, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que Mandetta “cruzou a linha da bola” quando disse, no domingo, que a população não sabe se deve acreditar nele ou em Bolsonaro. “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Nenhum cavaleiro pode cruzar na frente da linha da bola”, explicou o vice. “Ele fez uma falta. Merecia um cartão”, continuou Mourão.

Auxiliares do presidente observam que Bolsonaro só não dispensou o ministro antes porque fazia um cálculo pragmático. Interlocutores dos dois lados afirmavam que tanto Mandetta como Bolsonaro estavam calculando a melhor forma de troca no ministério. Ambos queriam fugir do ônus da mudança de comando da saúde em plena covid-19. 

Candidato é bom pesquisador, mas não conhece o SUS, disse Mandetta

Sem citar o nome do oncologista  Teich, que havia se reunido mais cedo com Bolsonaro, Mandetta afirmou que o então candidato à sua vaga é bom pesquisador, mas não conhece o SUS.

Mandetta disse que a sua equipe poderia ajudar na transição e até mesmo compor a próxima gestão da pasta. “Ajuda ai, Denizar, fica um tempo aí, se a pessoa te pedir. Cada um ajude com o que puder ajudar”, disse Mandetta, dirigindo-se ao atual secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Denizar Vianna.

Vianna e Teich foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.

TV ESTADÃO: Mandetta ‘cruzou a linha da bola’ e ‘merecia cartão’, diz Mourão

Maia e lideranças se solidarizam com demissão de Mandetta

A Câmara dos Deputados teve reação imediata à demissão do Luiz Henrique Mandetta a frente do Ministério da Saúde. Durante a sessão virtual, realizada nesta tarde para votar a ampliação do auxílio-emergencial, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou seu microfone para “deixar sua homenagem” ao colega de partido.

“Aproveito, e tenho certeza que falo em nome da maioria da Câmara dos Deputados, no momento em que o ministro Mandetta anuncia que foi demitido pelo presidente da República, a nossa homenagem à sua dedicação, ao seu trabalho, sua competência, sua capacidade”, disse Maia no plenário. “Mandetta deixa um legado, uma estrutura para que o Brasil, o governo federal, Estados e os municípios, tenham condições de atender da melhor forma possível a sociedade brasileira”, disse.

O líder do Cidadania, Arnaldo Jardim (SP), corroborou as palavras de Maia e disse que o ministro honrou o cargo. “Espero que não se demita a Ciência, que não se demita o critério objetivo para enfrentar essa pandemia”, disse.

Em nota, o líder do PSB, Alessandro Molon (RJ), fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “A demissão de Mandetta não passa de um acerto de contas por parte de um chefe que, no auge de sua mediocridade, não tolera um auxiliar se destacando mais do que ele. Um comportamento irresponsável de quem está mais preocupado com sua reeleição do que em salvar as vidas dos brasileiros”, disse Molon.

Também em nota, o PSDB disse que a troca de comando no Ministério da Saúde é um movimento temerário de Bolsonaro, no momento em que o País parece estar ingressando na fase na crítica da pandemia.  “O fundamental agora é perseverar nas políticas de distanciamento social, consideradas até o momento as melhores iniciativas identificadas por todo o mundo para enfrentar o novo coronavírus – mesmo que sejam medidas combatidas pelo próprio presidente”, diz o partido no texto.

Secretário de Estado da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann Ferreira falou em relação “amistosa” com o Ministério da Saúde e comentou, nesta quinta-feira, 16, a saída de Mandetta do ministério. “Isso não nos compete se deve ou não trocar ministro do governo federal. Do ponto de vista de opinião, posso dizer que é uma perda para todos nós”, afirmou. /COLABORARAM CAMILA TURTELLI, MARLLA SABINO E BRUNO RIBEIRO

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Quem é Nelson Teich, novo ministro da Saúde do governo Bolsonaro

O oncologista Nelson Luiz Sperle Teich deixou o cargo menos de um mês após sua nomeação; médico e presidente Bolsonaro divergiram sobre uso da cloroquina

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h24
Atualizado 15 de maio de 2020 | 15h00

Menos de um mês após sua nomeação, o oncologista Nelson Teich deixou o comando do Ministério da Saúde do presidente Jair Bolsonaro após divergências sobre a administração da cloroquina, substância que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus. A cloroquina já pode ser utilizada em pacientes internados, mas Bolsonaro defende a mudança de protocolos para incentivar a utilização da substância mesmo em pacientes com sintomas leves. O médico substituiu Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta após semanas de embates públicos com o presidente e discordava dos mesmos pontos que Teich na condução da pandemia.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista inicialmente contava com o apoio da classe médica e mantinha boa relação com empresários do setor da saúde.

"Ele tem uma ótima reputação e ouvindo o que ele já falou parece que começou bem. Ele tem um enorme desafio pela frente e sucede um ministro que sempre teve nosso apoio. Todos queremos que ele tenha um desempenho tão bom ou ainda melhor que o do Mandetta. Quando ele enfatizou a importância de continuar baseado em evidencia cientírica e critérios técnicos já responde as expectativas que nós todos temos", disse à época Rubens Belfort Jr, presidente da Academia Nacional de Medicina.

Em um artigo publicado em 3 de abril no LinkedIn, Teich criticava a “polarização” entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, escreveu. 

Teich não é defensor do isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas com doenças graves são colocadas em quarentena. O modelo é defendido por Bolsonaro e foi um dos principais fatores de desgaste entre o presidente e o ministro Mandetta, que apostou no isolamento horizontal.

Teich tinha o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, e dos militares para ser ministro logo no início do mandato. Na ocasião, Bolsonaro acabou optando por Mandetta, que era, na verdade, um perfil mais político. Desde antes de assumir o posto, Teich era visto por colegas médicos como alguém que dificilmente vai se dobrar a decisões de Bolsonaro que não se amparam em critérios técnicos.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre o isolamento vertical?

Nelson Teich publicou três artigos sobre o coronavírus em sua página pessoal no LinkedIn. No texto mais recente, de 2 de abril, o oncologista defende o isolamento horizontal como a “melhor estratégia no momento” no combate à pandemia. 

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento. Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, escreveu Teich.

Teich vê “fragilidades” no isolamento vertical, modelo defendido por Bolsonaro em que apenas idosos e pessoas com doenças graves ficariam em quarentena. O médico ressalta, no entanto, que nenhum dos modelos seria o ideal e defende um “isolamento estratégico”.

“Estamos falando aqui do uso de testes em massa para covid-19 e de estratégias de rastreamento e monitorização, algo que poderia ser rapidamente feito com o auxílio das operadoras de telefonia celular”, afirmou.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre a cloroquina?

Em um dos textos no LinkedIn, o oncologista menciona a cloroquina como uma esperança no tratamento da doença, mas não se posiciona sobre a forma como a substância deve ser usada.

Em 2016, em entrevista ao site Medscape, Teich criticou a liberação da venda da fosfoetanolamina, que ficou conhecida como a “pílula do câncer”, mas disse que o uso de substâncias sem eficácia comprovada é um direito do paciente.

“É uma decisão política e populista que quebra um processo estruturado de avaliação de medicamentos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: você, como médico, está lá para orientar o paciente. Se ele quer fazer uso da substância é um direito dele. (...) Usar algo que não tem comprovação científica é uma escolha individual”, afirmou o oncologista.

Teich, no entanto, defende que o custo da aquisição de um medicamento sem comprovação científica deve ser arcada pelo paciente.

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Ala ideológica do governo chegou a montar ‘dossiê’ contra Mandetta

A ideia comandada pelo 'gabinete do ódio' era mostrar que ele cometeu erros na condução da pandemia do coronavírus, para que não saísse como 'vítima' da crise

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h33

BRASÍLIA – Antes mesmo da demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, o governo intensificou uma ofensiva nas redes sociais para atacar sua gestão. Na prática, um dossiê foi montado contra Mandetta,  sob a supervisão do “gabinete do ódio”, núcleo ideológico que incentiva o presidente Jair Bolsonaro a adotar posições beligerantes nas mídias digitais. A ideia era mostrar que Mandetta cometeu erros na condução da pandemia do coronavírus, para que não saísse como “vítima” da crise.

A estratégia foi desenhada para desgastar a imagem de Mandetta desde que o confronto entre ele e Bolsonaro aumentou. Como mostrou o Estado, áreas técnicas do governo detectaram falhas na execução de medidas de combate à pandemia por parte do Ministério da Saúde, como a distribuição de respiradores que não estavam em perfeito estado para Estados como Amazonas, Amapá e Ceará.

No comando do “gabinete do ódio”, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos –RJ), filho “02” do presidente, foi um dos que sempre defenderam a saída de Mandetta. Na avaliação da ala ideológica, a permanência do ministro após a série de atritos com Bolsonaro foi um "tiro no pé", que deve ser debitado na conta dos militares da Esplanada.

Até a semana passada, os generais tentaram segurar Mandetta, sob o argumento de que a saída dele poderia mostrar falta de rumo do governo no combate ao coronavírus. Além disso, até hoje pesquisas indicam que a popularidade dele é maior do que a de Bolsonaro.

SUS

Nos bastidores, os bolsonaristas compartilharam, nos últimos dias, um dossiê acusando Mandetta de ser lobista de planos de saúde e de ter defendido “a destruição do SUS (Sistema Único de Saúde)”.

Mandetta foi  dirigente de uma operadora de saúde entre 2001 e 2004 em Campo Grande (MS). Deixou o posto para assumir a Secretaria de Saúde daquela cidade. Permaneceu no cargo entre 2005 a 2010, no governo do atual senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que é seu primo.

Em 2015, Mandetta chegou a ser investigado por crimes relacionados à compra e instalação de um sistema de informática denominado Gerenciamento de Informações Integradas de Saúde (Gisa). A aquisição ocorreu quando ele era secretário de Campo Grande. Segundo uma ação de 2015, movida pela Procuradoria de Campo Grande, o serviço nunca foi entregue.

O mesmo documento afirma que o município teve de devolver à União R$ 14,8 milhões. Mandetta sempre contestou a acusação e não chegou a virar réu. Todas essas informações constam do dossiê que foi montado para desconstruir a imagem do homem que um dia mereceu a confiança de Bolsonaro, mas, depois, entrou em rota de colisão com ele. 

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Oncologista cotado para vaga de Mandetta causa boa impressão em encontro com Bolsonaro

Nelson Teich, que tem apoio de associação de médicos, ‘agradou a turma’ do Planalto, de acordo com aliado do presidente

Julia Lindner, Jussara Soares e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 15h44

BRASÍLIA – O médico oncologista Nelson Teich causou boa impressão na conversa com o presidente Jair Bolsonaro e ministros no Palácio do Planalto, na manhã desta quinta-feira, 16, segundo interlocutores do presidente ouvidos pelo Estadão/Broadcast. Apesar disso, ainda não há definição sobre que assumirá o comando do Ministério da Saúde. Em videoconferência mais cedo, o ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou que a troca no ministério deve ocorrer entre esta quinta, 16, e sexta-feira, 17.

Até o momento, o nome de Teich é visto por alguns integrantes do governo como o que mais se encaixa no perfil desejado pelo governo, embora o oncologista já tenha defendido o isolamento horizontal, ou seja, para a toda a população. Bolsonaro, por sua vez, quer que o distanciamento seja direcionado para idosos e pessoas com doenças, que se encaixam no grupo de risco do novo coronavírus.

De acordo com um aliado do presidente, Teich “agradou a turma” do Planalto. Um segundo assessor com acesso a Bolsonaro reforçou que o médico foi bem avaliado por todos os integrantes da reunião. Participaram o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e o Secretário de Assuntos Estratégicos (SAE), Almirante Flávio Rocha. Outros nomes cotados para o cargo de ministro ainda devem ser “entrevistados”.

Bolsonaro quer um ministro que se alinhe ao seu discurso contra o isolamento social e que defenda flexibilizar medidas de isolamento social, como reabertura de escolas e comércio, para reduzir os impactos da pandemia na economia. As orientações atuais da pasta têm sido por incentivar restrições, seguindo o que dizem especialistas e autoridades sanitárias em todo o mundo. 

Também é considerado fundamental que o novo ministro não se oponha ao uso ampliado da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19. Na lista do presidente, ele quer um novo chefe da Saúde que também se posicione contra o aborto.

Em artigo publicado no dia 3 de abril em sua página no LinkedIn, Teich critica a discussão polarizada entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, afirma ele no texto.

Diferentemente de Bolsonaro, o oncologista defende o chamado isolamento horizontal – em que todos devem evitar sair de casa – como melhor forma para se evitar a propagação do coronavírus no País. “Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, diz. Bolsonaro é favorável ao isolamento parcial, apenas para grupos de riscos, como idosos e pessoas com doenças crônicas. O tema é um dos principais focos de embate entre o presidente e Mandetta.

Nelson Teich atuou como consultor informal da área de saúde na campanha eleitoral de Bolsonaro. A aproximação, na época, ocorreu por meio do atual ministro da Economia, Paulo Guedes. Na transição do governo, no final de 2019, Teich foi cotado para comandar a Saúde, mas perdeu a vaga para Mandetta, que havia colega de Bolsonaro na Câmara de Deputados e tinha o apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM-GO), agora seu ex-aliado, e do atual ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

O oncologista tem o apoio da Associação Médica Brasileira (AMB), que referendou a indicação ao presidente. Consultor da campanha de Bolsonaro a presidente na área de Saúde, ele tem boa relação com empresário do setor de saúde.

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Demissão pode favorecer carreira política de Mandetta, dizem analistas

Segundo especialistas, isso ajuda a explicar por que ministro tem enfrentado o presidente nos últimos dias

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 09h24

Se for demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta deixará o Ministério da Saúde com maior força política, inclusive para disputar outros cargos, avaliam cientistas políticos ouvidos pelo Estado. Após confrontar publicamente Bolsonaro por diversas vezes, o médico ortopedista anunciou na quarta-feira, 15, que deve ser exonerado do cargo em breve.

Se permanecer como ministro, Mandetta terá de se subordinar ao presidente e ocupar uma posição contrária ao que boa parte da população defende, situação que pode afetar negativamente sua imagem, explica Gabriela Lotta, professora de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV). 

Pedir demissão, porém, também não é benéfico, diz. Pode passar a ideia de que está “abandonando o barco”. “A melhor saída para alguém que tem pretensões políticas, como Mandetta, é ser demitido por Bolsonaro. Ele sai do governo com uma imagem positiva, de alguém que defendeu o País e foi injustiçado por atitudes equivocadas do presidente."

Para Gabriela Lotta, a demissão é a melhor alternativa política a Mandetta, e por isso ele tem feito claro enfrentamento ao presidente nos últimos dias. A mais recente ocorreu no domingo, 12, quando o ministro cobrou uma “fala única” do governo sobre a pandemia. “O Mandetta, com um passado que nunca apoiou o SUS, de repente vira um defensor do sistema público, e com isso consegue capitalizar os votos e apoio da população que está favorável às decisões técnicas da saúde."

Vanessa Elias de Oliveira, professora de ciência política da Universidade Federal do ABC, concorda que o ministro sai fortalecido do governo. “Ele é um político, não um técnico. Portanto, certamente tem pretensões políticas. Não é possível saber quais são. Mas que ele sai com capital político, me parece claro.” Para ela, é menos arriscado para Mandetta deixar o cargo agora. “Ele mesmo já disse dias atrás que era bem avaliado, mas que isso poderia mudar, com um aumento drástico de casos e mortes.”

Filiado ao DEM e deputado federal por dois mandatos, entre 2011 e 2018, Mandetta se tornou rosto conhecido da população durante a pandemia do coronavírus. À frente do Ministério da Saúde, o médico ortopedista defendeu medidas recomendadas por órgãos internacionais e criticadas por Bolsonaro. Seu protagonismo na crise incomodou o presidente, que chegou a afirmar em entrevista que faltava "humildade" ao ministro. 

Para Humberto Dantas, head de Educação do CLP, não se pode desconsiderar que Mandetta tinha um cargo de deputado federal até o começo de 2019 e é, sim, um agente político, que porventura não tem sido valorizado por Bolsonaro. Ele não descarta que as falas desafiando o presidente podem ter alguma lógica ou interesse político-eleitoral escancarado. Mas acredita que, se for o caso, é um cálculo arriscado por parte do ministro. "Hoje, ele estaria fortalecido pela opinião pública, poderia fazer uma campanha entorno disso, mas falta tempo para a próxima eleição."

Técnico

A decisão de manter o discurso a favor da ciência e contra o que defende o presidente Jair Bolsonaro, ainda que lhe custe o cargo, segue uma direção política, afirma o professor de administração pública da FGV Marco Antônio Carvalho Teixeira. “Ele era um ilustre desconhecido até então e conquistou boa reputação com essa postura técnica. Tudo isso vai impactar positivamente na carreira política.” 

Caso demitido por Bolsonaro, o ministro deve deixar a pasta com grande apoio da população e credenciado a disputar outros cargos políticos, diz Teixeira. “Ele sai com uma imagem extremamente positiva, enfrentando o governo em um contexto em que a maioria da população fica ao lado dele."

A professora de política da PUC São Paulo Vera Chaia avalia que a melhor saída para o ministro é ser demitido. “Demissão seria reconhecer o erro dele, e ele não errou. Ele está cumprindo um papel fundamental nesse processo”, afirma. Para ela, Mandetta tem condições tem pleitear novos cargos. "Acredito que sai com uma imagem extremamente positiva. O Caiado vai abrir as portas escancaradas para o Mandetta, exatamente porque é do mesmo partido e o indicou para o governo Bolsonaro. Emprego não vai faltar."

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Relembre as brigas entre Bolsonaro e Mandetta

Presidente e ministros não se entendem sobre condução do combate à pandemia; pronunciamento, cloroquina e ida a padaria estão entre episódios

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 14h50

O relacionamento entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, está desgastado há semanas e motivou brigas públicas. Reportagem do Estado desta quarta-feira, 15, revela que Mandetta avisou a auxiliares que deve ser demitido pelo presidente. As divergências na condução do combate à pandemia do coronavírus já ameaçaram a permanência do ministro no cargo em outros momentos. O protagonismo de Mandetta na condução da crise passou a incomodar o presidente.

Já no dia 15 de março, quando o presidente cumprimentou centenas de apoiadores no Palácio do Planalto e ignorou orientações do Ministério da Saúde, Mandetta foi orientado por aliados a mostrar contrariedade e pedir demissão.

À época, no entanto, o ministro evitou fazer críticas à conduta do presidente. Afirmou que todos precisam fazer sua parte e que a aproximação de Bolsonaro aos manifestantes era um “equívoco”, mas não “proibida”.

Em 20 de março, o chefe do Executivo voltou a minimizar a pandemia do coronavírus. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”, disse o presidente. Horas antes, Mandetta projetou, em coletiva ao lado de Bolsonaro, que o sistema de saúde brasileiro entraria em “colapso” em abril.

Os embates entre Bolsonaro e Mandetta ganharam novos contornos quando o presidente fez um pronunciamento em rede nacional, em 24 de março, pedindo o fim do isolamento em massa da população.

25/03 - ‘Temos que melhorar esse negócio de quarentena’

Mandetta inicialmente alinhou seu discurso ao de Bolsonaro. Na coletiva diária do governo federal, o ministro afirmou que a quarentena é um “remédio extremamente amargo e duro” e falou em mudanças. “Temos que melhorar esse negócio de quarentena, não ficou bom. Foi precipitado, foi desarrumado”, declarou.

Nos bastidores, Bolsonaro teria proibido Mandetta de criar pânico na sociedade e dar munição a adversários, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Publicamente, o presidente defendeu o isolamento vertical, apenas para idosos e pessoas com doenças graves, alegando que o impacto econômico do enfrentamento à covid-19 poderia colocar em risco a “normalidade democrática”.

No dia seguinte, Bolsonaro chegou a dizer que Mandetta havia concordado com a mudança para o formato de isolamento vertical, embora a medida não tenha sido adotada pelo governo desde então.

27/03 - ‘Evidências científicas’

No dia seguinte ao lançamento da campanha “O Brasil não pode parar”, posteriormente proibida pela Justiça, Mandetta mudou o tom novamente e afirmou que tomaria apenas decisões baseadas em evidências científicas. Em reunião com gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), o ministro não defendeu o isolamento vertical, mas se mostrou favorável à abertura de igrejas.

28/03 - ‘Estamos preparados para ver caminhões do Exército transportando corpos?’

Em reunião tensa com outros ministros e Bolsonaro, Mandetta voltou a frisar que a pandemia do coronavírus não é uma “gripezinha” e fez um apelo para a criação de um “ambiente favorável” entre União, Estados e municípios.

“Estamos preparados para o pior cenário, com caminhões do Exército transportando corpos pelas ruas? Com transmissão ao vivo pela internet?”, teria perguntado Mandetta a Bolsonaro, segundo apurou a colunista do Estado Eliane Cantanhêde.

Mais tarde, apesar de não aderir ao isolamento vertical e à divulgação da cloroquina como solução para a covid-19, Mandetta ressaltou que é possível compatibilizar plano de combate à pandemia com preservação da economia.

O presidente está certíssimo quando fala que crise econômica vai matar as pessoas, que a fome vai matar pessoas. Está certíssimo e somos 100% engajados para achar solução com a equipe da economia”, disse o ministro.

30/03 - O poema de Drummond

Mandetta enviou à sua equipe um pedido de paciência acompanhado de um poema. O ministro relembrou os versos de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho tinha uma pedra”, conforme informou a colunista do Estado Eliane Cantanhêde.

O gesto foi uma resposta à visita de Bolsonaro a vários comércios locais em funcionamento no Distrito Federal. O presidente cumprimentou apoiadores e gerou aglomerações para tirar selfies, o que foi visto como uma provocação para gerar a queda de Mandetta.

01/04 - ‘Só trabalho com a ciência’

Depois de ficar de fora de uma reunião de Bolsonaro com um grupo de médicos para discutir o uso da cloroquina, Mandetta afirmou em coletiva que ia se pautar pela ciência "até o limite de tudo o que estiver na nossa frente". 

"Só trabalho com a academia, só trabalho com a ciência. Existem pessoas que trabalham com critérios políticos, que são importantes também, deixem que eles trabalhem. Não me ofendem em nada. Eu trabalho com foco, disciplina  e ciência", argumentou o ministro.

02/04 - ‘Está faltando um pouco de humildade’

Em entrevista à rádio Jovem Pan, Bolsonaro expôs seu incômodo com a atuação de Mandetta. Ressaltou que ninguém é “indemissível” em seu governo, mas garantiu que não pretendia demiti-lo “no meio da guerra”.

“O Mandetta quer fazer valer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo, mas está faltando um pouco de humildade para conduzir o Brasil nesse momento difícil”, declarou Bolsonaro.

Bolsonaro reclamou que o ministro devia “ouvir um pouco mais o presidente da República”. Ele ainda desejou “boa sorte” a Mandetta e afirmou que parte do Ministério da Saúde foi contaminado pela “histeria”. 

03/04 - ‘Um médico não abandona o paciente’

Em coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, Mandetta minimizou as declarações de Bolsonaro e indicou que não pretendia "abandonar" o País. "O compromisso do médico é com o paciente. E o paciente agora é o Brasil", declarou.

Questionado se pode deixar a pasta, Mandetta respondeu que não tomaria a decisão por vontade própria, a menos que Bolsonaro “usasse a caneta" para demiti-lo. "Um médico não abandona o paciente", argumentou.

Mandetta também ressaltou que "não é dono da verdade" e que estava buscando medidas baseadas na opinião de médicos experientes. Comparou a postura de Bolsonaro com a de um familiar do paciente que questiona a abordagem médica e busca uma segunda opinião. "Cabe ao paciente, representado pelo presidente, dizer se a conduta adotada é interessante."

05/04 - ‘Algo subiu na cabeça’

Em conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada, Bolsonaro não mencionou o ministro da Saúde, mas disse que “algo subiu na cabeça” de alguns de seus subordinados.

“Algumas pessoas no meu governo, algo subiu a cabeça deles. Estão se achando. Eram pessoas normais, mas de repente viraram estrelas. Falam pelos cotovelos. Tem provocações. Mas a hora deles não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles. A minha caneta funciona. Não tenho medo de usar a caneta nem pavor. E ela vai ser usada para o bem do Brasil, não é para o meu bem. Nada pessoal meu. A gente vai vencer essa”, afirmou o presidente.

Questionado pelo Estado por telefone, Mandetta se esquivou da indireta de Bolsonaro. “Eu estou dormido”, disse, parecendo bocejar. “Amanhã eu vejo, tá?”, completou, antes de encerrar a ligação.

06/04 - ‘Fico’

Depois de um dia em que sua continuidade no cargo era tida como incerta, Mandetta anunciou que permaneceria no comando do Ministério da Saúde e pediu “paz”. Sem mencionar Bolsonaro, o ministro reclamou de críticas que, em sua opinião, criam dificuldades para o trabalho da pasta.

“Aqui nós entramos juntos, estamos juntos e quando eu deixar o ministério a gente vai colaborar de outra forma a equipe que virá. Entramos juntos e vamos sair juntos”, assegurou Mandetta, indicando ainda que, se deixar o governo, seus auxiliares também devem sair.

A permanência de Mandetta no cargo, segundo apuração do Estado, contou com a atuação nos bastidores de ministros do governo e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

No dia seguinte, Bolsonaro evitou fazer aparições públicas e faltou a dois eventos aos quais compareceria.

08/04 - ‘Ninguém é dono da verdade’

Na coletiva diária do governo, Mandetta aproveitou para afastar o clima ruim com o presidente. “Para todos aqueles com ânimos mais exaltados, aqui está tudo bem. Quem comanda esse time é o presidente Jair Messias Bolsonaro”, declarou o ministro.

Mandetta defendeu um “posicionamento técnico” sobre a adoção da cloroquina no combate ao coronavírus e defendeu a opinião do presidente sobre o assunto. O ministro também rebateu o governador de São Paulo, João Doria.

“Não existe ninguém que é o dono da verdade. Não existe Estado que possa falar que é melhor que o outro. Hoje esse medicamento não tem paternidade. Não tem que politizar esse assunto”, criticou Mandetta, referindo-se diretamente ao governo de São Paulo.

10/04 - ‘Ninguém vai tolher meu direito de ir e vir’

Pelo segundo dia consecutivo, Bolsonaro fez um passeio por Brasília. Na ocasião, o presidente foi ao Hospital das Forças Armadas, a uma farmácia e depois ao prédio onde mora um de seus filhos, Jair Renan. Apoiadores se juntaram ao presidente e geraram aglomerações.

“Eu tenho o direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir. Ninguém”, afirmou Bolsonaro na saída da farmácia.

11/04 - ‘Distanciamento social vale para todos os brasileiros’

O presidente e ministros, incluindo Mandetta, viajaram à cidade de Águas Lindas (GO) para visitar as obras de um hospital de campanha que vai atender pacientes com coronavírus. Mais uma vez, Bolsonaro desrespeitou recomendações sanitárias e foi ao encontro de apoiadores, que se aglomeraram.

Questionado por jornalistas sobre a atitude do presidente, Mandetta afirmou que orientação de distanciamento social vale para todos os brasileiros. “Eu posso recomendar (a não aglomeração), mas não posso viver a vida das pessoas. As pessoas que fazem uma atitude dessa hoje daqui a pouco serão as mesmas que estão lamentando”, disse.

12/04 - ‘Brasileiro não sabe se escuta ministro ou o presidente’

Mandetta concedeu uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo, em que enviou um recado direto ao presidente. “Eu espero que a gente possa ter uma fala única, uma fala unificada. Isso leva para o brasileiro uma dubiedade. Ele não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta", analisou o ministro.

O ministro minimizou as divergências com Bolsonaro e alegou que o foco é no combate à pandemia. “Isso preocupa, porque a população olha e fala assim: 'Será que o ministro da Saúde é contra o presidente?' O que a gente tem de ter foco, que é o nosso problema, é o coronavírus. Ele é o principal inimigo. Se eu estou ministro da Saúde, é por obra de nomeação do presidente”, declarou.

Não assisto à Globo, tá ok? Vou perder tempo da minha vida assistindo à Globo agora?”, respondeu Bolsonaro, no dia seguinte, em frente ao Palácio da Alvorada, a um apoiador que o questionou sobre a entrevista.

15/04 - ‘Sócio da paralisia’

Nas redes sociais, Bolsonaro compartilhou um vídeo com ataques a medidas de isolamento social adotadas no combate à pandemia da covid-19. O vídeo "Os sócios da paralisia", publicado originalmente pelo jornalista Guilherme Fiuza, apresenta uma série de críticas a Mandetta e ao governador João Doria.

"Você está em casa assistindo o governador de São Paulo assumir a paternidade da cloroquina, o ministro da Saúde explicar que traficante também é gente, jornais estrangeiros publicar fotos de covas abertas para dizer que o Brasil não tem mais onde enterrar seus mortos, entre outras referências intrigantes e estridentes sobre o assunto. Se você está paralisado e catatônico é porque já sabe que isso é um show mórbido", afirma Fiuza no vídeo.

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Após demissão de Mandetta, São Paulo e Rio registram panelaços

Protestos incluem gritos contrários a Bolsonaro, que tinha uma visão divergente do ministro sobre a resposta à pandemia do novo coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h07
Atualizado 16 de abril de 2020 | 17h39

Depois de confirmada a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta quinta-feira, dia 16, em meio à pandemia do novo coronavírus, as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília registraram panelaços contrários à saída do titular da pasta.

Na capital paulista, houve manifestação pelo menos nos bairros Bela Vista, Vila Madalena, Praça Roosevelt, Bela Vista, Barra Funda e Pinheiros. Foram registrados também alguns gritos no bairro Jardins. No Rio, houve panelaço e gritos de protesto em Copacabana, Botafogo, Cosme Velho, Flamengo, Glória, Laranjeiras e Santa Teresa. Entre os xingamentos, houve quem chamou o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) de "genocida". Alguns poucos manifestantes gritaram em apoio a Bolsonaro. Em Brasília, foram registrados panelaços na Asa Norte.

Desde o início da pandemia, houve panelaços quase que diários dirigidos contra o presidente. No entanto, eles em geral ocorreram às 20h30. Já a manifestação frente ao descontentamento com queda de Mandeta aconteceu por volta das 16h30, logo depois de o médico comunicar sua demissão pelo Twitter.

Mandetta e Bolsonaro protagonizaram uma série de desentendimentos após a chegada do novo coronavírus ao Brasil, já que cada um defende uma abordagem diferente em relação a como combater a pandemia. Enquanto o ministro e a maioria dos médicos e epidemologistas defende medidas de fortes restrições sociais para evitar a disseminação da doença, Bolsonaro gostaria de implementar o que chama de "isolamento vertical", estratégia que procura isolar apenas pessoas que pertencem a grupos de risco, mais sucetíveis a desenvlver quadro grave.

Levantamentos mostram que a maioria da opinião pública era favorável à permanência de Mandetta na Saúde. No contexto do combate à pandemia do novo coronavírus, a popularidade do ministro começou a aumentar a partir de meados de março. Tracking da Atlas indica que, ainda no mês passado, Mandetta ultrapassou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e se tornou o quadro mais bem avaliado do governo.

Segundo fontes do Planalto, o presidente deu início ao processo de substituição do médico depois de considerar uma provocação a entrevista do ministro ao programa Fantástico, no domingo, na qual cobrou uma “fala única” do governo quanto às medidas de controle da pandemia.

O cargo será agora assumido pelo oncologista Nelson Teich, que se reuniu com Bolsonaro pela manhã. O médico foi consultor da área de saúde na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, e é fundador do Instituto COI, que realiza pesquisas sobre câncer.

Em seu currículo, o oncologista também registra ter atuado como consultor do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, entre setembro do ano passado e março deste ano. Teich e Vianna foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.

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Maia e lideranças se solidarizam com demissão de Mandetta; veja repercussão

Luiz Henrique Mandetta deixa Ministério da Saúde após semanas de atrito com o presidente Jair Bolsonaro

Camila Turtelli e Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h06

BRASÍLIA – A Câmara dos Deputados teve reação imediata à demissão do Luiz Henrique Mandetta a frente do Ministério da Saúde. Durante a sessão virtual, realizada nesta tarde para votar a ampliação do auxílio-emergencial, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou seu microfone para “deixar sua homenagem” ao colega de partido.

“Aproveito, e tenho certeza que falo em nome da maioria da Câmara dos Deputados, no momento em que o ministro Mandetta anuncia que foi demitido pelo presidente da República, a nossa homenagem à sua dedicação, ao seu trabalho, sua competência, sua capacidade”, disse Maia no plenário. “Mandetta deixa um legado, uma estrutura para que o Brasil, o governo federal, Estados e os municípios, tenham condições de atender da melhor forma possível a sociedade brasileira”, disse.

O deputado Arnaldo Jardim (SP), líder do Cidadania, corroborou as palavras de Maia e disse que o ministro honrou o cargo. “Espero que não se demita a Ciência, que não se demita o critério objetivo para enfrentar essa pandemia”, disse.

O líder do DEM na Câmara, Efraim Filho (PB), divulgou uma nota lamentando a demissão de Mandetta, que é filiado ao partido. O deputado disse que o agora ex-ministro é motivo de orgulho para o País e para o partido. "Íntegro, permaneceu até o último minuto servido ao País", declarou.

Major Olimpio (SP), líder do PSL no Senado, afirmou em vídeo divulgado por WhatsApp qfoi demitido porque não abriu mão de princípios científicos e médicos em "nome da saúde do povo brasileiro".

O senador disse que, se o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, persistir na defesa do isolamento horizontal por causa da covid-19, terá "problemas sérios" com o presidente e "não vai durar 30 dias no cargo ou terá que rasgar o seu diploma e contrariar toda a comunidade científica mundial".

Para a líder do PSOL na Câmara, Fernanda Melchiona (RS), afirmou que a demissão de Mandetta significa a "demissão da ciência e de todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)". "O que precisa ser demitido é o presidente Jair Bolsonaro", defendeu.

Em nota, o líder do PSB, Alessandro Molon (RJ), fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “A demissão de Mandetta não passa de um acerto de contas por parte de um chefe que, no auge de sua mediocridade, não tolera um auxiliar se destacando mais do que ele. Um comportamento irresponsável de quem está mais preocupado com sua reeleição do que em salvar as vidas dos brasileiros”, disse Molon.

"População está vendo que a troca de ministro é o resultado de um governo inoperante", afirmou o líder do PT na Câmara, Enio Verri.

Governadores

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), se manifestou pelas redes sociais e chamou a saída de Mandetta uma "perda para o Brasil".

 

Em nota, o PSDB disse que a troca de comando no Ministério da Saúde é um movimento temerário de Bolsonaro, no momento em que o País parece estar ingressando na fase na crítica da pandemia.  “O fundamental agora é perseverar nas políticas de distanciamento social, consideradas até o momento as melhores iniciativas identificadas por todo o mundo para enfrentar o novo coronavírus – mesmo que sejam medidas combatidas pelo próprio presidente”, diz o partido no texto.

Correligionário de Mandetta, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), agradeceu o trabalho do agora ex-ministro e disse que ele "salvou vidas".

 

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), também lamentou a saída de Mandetta e desejou êxito a Teich.

 

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‘Não façam um milímetro do que acham que não deveriam fazer’, diz Mandetta

Na despedida de servidores da Saúde afirma que equipe fez ‘bom combate’ em meio à pandemia do coronavírus

André Borges e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h37

BRASÍLIA – Em um discurso emocionado, Luiz Henrique Mandetta se despediu do Ministério da Saúde na tarde desta quinta-feira, 16. Recebido por aplausos de servidores da pasta, Mandetta fez um agradecimento a uma série de parceiros de trabalho no ministério, citando nome a nome o trabalho desempenhado. 

Aos funcionários do Ministério da Saúde, deu um recado direto: “Não tenham medo, não façam um milímetro do que acham que não deveriam fazer”, afirmou. “Tenho a mais absoluta certeza que nós fizemos o bom combate até aqui. Vocês sabem que ministros passam, o que fica é o trabalho do servidor do Ministério da Saúde do Brasil.”

Anteriormente, Mandetta sinalizou que, se deixasse o cargo, a sua equipe iria embora junto. Hoje, no entanto, ele orientou a todos que continuem na pasta se forem solicitados. “Façam o possível para ajudar, é minha última ordem”, orientou..

Mandetta ainda agradecia ao trabalho da imprensa na cobertura da pandemia do coronavírus, quando o presidente Jair Bolsonaro deu início ao seu discurso no Palácio do Planalto, para anunciar a chegada do novo ministro, o oncologista Nelson Teich.

“Não posso medir o tamanho do meu agradecimento pelo que aprendi com vocês. Saio daqui com uma experiência simplesmente fantástica”, disse Mandetta, que citou Raul Seixas para mencionar sempre esteve aberto a mudar de opinião, quando esta mudança estava cercada de embasamento técnico e científico. “Quantas vezes mudei de posição porque tinha que mudar de opinião. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

Mandetta disse, ainda, que deixa o ministério “com gratidão ao presidente” e que sabe deixar para trás a melhor equipe. Ele afirmou que teve uma conversa “amistosa” com Bolsonaro na tarde de hoje, mas que o presidente precisava formar uma equipe com “outro olhar” . O ex-ministro também disse que deseja boa sorte ao novo ministro. “Trabalhem para o próximo ministro como vocês trabalhavam para mim”, disse ex-ministro, ao minimizar o impacto de sua saída.

“Não vai ser esse problema (sua demissão), que é insignificante. Isso não tem mais significado que uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nesses três pilares. A ciência é a luz, o iluminismo. É através dela que nós vamos sair. Que essa transição seja suave, profícua e que tenhamos um bom resultado ao término disso tudo.”

Mandetta também fez um agradecimento ao trabalho da imprensa, que “sempre foi parceira da verdade estampada nesse auditório”. “Sem vocês, com certeza o País não teria chegada nessa primeira etapa.”

Religioso, ex-ministro disse vai rezar pelo País para que tudo passe da melhor forma possível. “Ficarei nas minhas orações, em minha devoção inabalável em Nossa Senhora Aparecida.”

Ele concluiu a fala dizendo que, no minuto em que encerra a trajetória como ministro, ele segue “trabalhando o dobro como cidadão”. Em meio a especulações de que pode assumir cargo na Secretaria de Saúde de Goiás, o destino de Mandetta ainda é incerto.

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Mídia internacional repercute demissão de Mandetta

Jornais destacaram conflitos entre ministro da Saúde e Bolsonaro

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h43

Veículos estrangeiros repercutiram a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, comunicada pelo presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira, 16.

Com o título Bolsonaro demite popular ministro da Saúde após disputa sobre resposta ao coronavírus, o jornal britânico The Guardian afirmou que, enquanto o ministro defendia o isolamento social, o 'presidente de extrema-direita' minimizou o impacto do coronavírus. Para a publicação, a demissão de Mandetta tem ‘potencial para causar uma grande revolta pública’. 

O americano Washington Post também destacou a disputa entre Mandetta e Bolsonaro. Na matéria Bolsonaro despede o ministro da Saúde, Mandetta, após diferenças sobre a resposta ao coronavírus, o jornal narra os embates entre ministro e presidente — destacando a declaração de Bolsonaro de que o vírus seria apenas “uma gripezinha”. “O esforço (de Bolsonaro) para reiniciar a economia  iniciou um confronto direto com Mandetta, que se tornou uma voz de resistência dentro do governo”, afirmou o jornal. 

Na matéria Bolsonaro demite ministro da Saúde após conflito em política sobre vírus, o Bloomberg afirma que Mandetta 'com treinamento médico, se recusou a se curvar às exigências do líder brasileiro'. A matéria firma que Mandetta ganhou destaque durante os briefings diários do Ministério da Saúde e das inúmeras entrevistas que deu para veículos de comunicação. 

O argentino Clarín considerou a medida ‘esperada’, já que o presidente vinha mantendo ‘curtos-circuitos’ com Mandetta ‘há várias semanas’. “A medida era esperada, mas envolve enormes riscos políticos e de saúde”, diz a publicação, “já que se espera que o país entre no momento mais agudo da pandemia de coronavírus em breve”.

O jornal também destacou reações locais, com panelaços em diferentes cidades do Brasil. 

 

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