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Por trégua com Supremo, Bolsonaro demite Weintraub

Ministro da Educação, que se tornou um ‘gerador de crises’ para o governo, comunica saída da pasta em vídeo ao lado do presidente

Jussara Soares, Renata Cafardo e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 16h05
Atualizado 18 de junho de 2020 | 23h05

BRASÍLIA - Pressionado a fazer um gesto de trégua ao Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Jair Bolsonaro confirmou ontem a demissão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, o décimo a cair desde o início do governo. A saída foi anunciada em um vídeo publicado em rede social em que os dois aparecem lado a lado e comunicam a exoneração. Na gravação, Weintraub diz que “desta vez é verdade”. 

O ministro, o segundo a comandar a pasta desde o início do governo, ficou 14 meses no cargo, período no qual acumulou desavenças com reitores, estudantes, parlamentares, chineses, judeus e, mais recentemente, magistrados do Supremo, chamados por ele de “vagabundos” em uma reunião ministerial. 

O argumento dos que defendiam a demissão era de que ele se tornou um gerador de crises desnecessárias justamente no momento em que o presidente, pressionado por pedidos de impeachment, inquérito e ações que podem levar à cassação do mandato, tenta diminuir a tensão na Praça dos Três Poderes.

No vídeo ao lado de Weintraub, Bolsonaro disse ser “um momento difícil para todos”, mas afirmou que manterá os compromissos de campanha. “A confiança você não compra, você adquire. Todos que estão assistindo são maiores de idade e sabem o que o Brasil está passando. O momento é de confiança, jamais deixaremos de lutar pela liberdade”, declarou.

Amigo dos filhos do presidente, Weintraub vinha resistindo no cargo nos últimos meses por manter o apoio da ala ideológica do governo, da qual fazia parte. Bolsonaro relutava em demiti-lo para não desagradar a parte mais ruidosa do seu eleitorado.

O agora ministro demissionário deve assumir uma representação brasileira Banco Mundial, que fica sediado em Washington, nos Estados Unidos. A indicação foi feita ontem pelo Ministério da Economia, mas ainda depende de aprovação de outros países – o que deve ser apenas uma formalidade. A remuneração no cargo é de US$ 21,5 mil mensais (cerca de R$ 115,9 mil). Como ministro ele recebia R$ 31 mil.

“Eu estou saindo do MEC, vou começar a transição agora e nos próximos dias eu passo o bastão para o ministro que vai ficar no meu lugar, interino ou definitivo. Neste momento, não quero discutir os motivos da minha saída, não cabe”, disse Weintraub no vídeo publicado em sua conta no Twitter. No discurso, além do novo cargo, ele falou do apoio que recebeu e até de sua cadelinha, Capitu, mas nada sobre educação.

O Palácio do Planalto ainda não bateu o martelo sobre seu substituto. O Estadão apurou que o secretário executivo da pasta, Antonio Vogel, deve assumir de forma interina. Outro cotado é o do secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, mas seu nome sofre resistência pela ligação que tem com o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho.

Weintraub assumiu o cargo em abril do ano passado, no lugar do professor Ricardo Vélez Rodriguez, demitido por apresentar “problemas de gestão”, nas palavras do próprio Bolsonaro.

Embora seguisse com prestígio na ala ideológica, a gestão de Weintraub também era alvo de críticas na comunidade acadêmica e no meio político. Como mostrou o Estadão, radiografia feita na pasta por uma comissão da Câmara indicou “omissões” do ministro durante o enfrentamento da crise do coronavírus no País. O grupo já havia apontado em novembro “paralisia” nas ações da pasta.

Logo após assumir o ministério, Weintraub também enfrentou protestos de estudantes e professores contra bloqueio nos orçamentos de universidades federais. Em entrevista ao Estadão, ele afirmou que reduziria os repasses a instituições que promovessem “balbúrdia” em seus câmpus.

Recentemente, os ataques a Weintraub aumentaram nas redes sociais após sua resistência em adiar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mesmo assim, em maio, o governo confirmou que o Enem será postergado, por causa da pandemia do coronavírus.

A decisão, porém, expôs mais um capítulo da queda de braço dentro do governo. Bolsonaro teve de enquadrar Weintraub após ser informado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que sofreria derrota no Congresso se insistisse em manter a data do Enem.

Após a demissão, Maia disse esperar um melhor diálogo com o Ministério da Educação. “Estava muito ruim”, afirmou. Ele ainda ironizou a possibilidade de Weintraub assumir um cargo no Banco Mundial. “Não sabem que ele trabalhou no Banco Votorantim, que quebrou em 2009”, disse.

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