Reprodução/SBT
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O indignado Queiroz e sua caixa-preta

O silêncio do ex-assessor não tem sido positivo para os Bolsonaro, que surfaram na indignação popular com a corrupção para obter a vitória nas eleições

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2019 | 20h13

Caro leitor,

Fabrício Queiroz, o agregado da família Bolsonaro que há cerca de um mês o Ministério Público fluminense tenta, mas não consegue interrogar, desabafou. Está indignado por ter sido tratado “como o pior bandido do mundo”, conforme afirmou em entrevista exclusiva à repórter Constança Rezende. “Fui até ao psiquiatra, pois vomitava muito e não conseguia dormir”, reclamou, após um período no Hospital Albert Einstein para retirada de um câncer intestinal. Garantiu que, quando recuperado, vai depor ao MP, mas não quis adiantar o que vai dizer à Procuradoria.  Arrematou suas declarações enviando uma foto da cicatriz na barriga, para comprovar a cirurgia que sofreu.

Talvez fragilizado pelo grave problema de saúde que enfrenta, o PM aposentado pode ter sido injusto. Pareceu ignorar o tratamento que tem recebido das autoridades, marcado por cortesia inédita em outros casos. Em acordo com o advogado da família Queiroz, os promotores do Rio agendaram datas para que ele, sua mulher e filhas (elas também assessoraram Flavio) prestassem depoimento sobre as informações citadas no Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras que você leu em primeira mão aqui no Estado.

Os convidados não compareceram, alegando as questões de saúde do ex-assessor, mas a Procuradoria aparentemente não se chateou com isso. Anunciou com discrição a possibilidade de quebrar os sigilos bancário e fiscal dos citados, que poderão, afirma, exercer no Judiciário o direito à ampla defesa. Isso ocorreu - em sigilo e sem urgência  - mais de um mês após surgirem as informações sobre a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Queiroz. Postura bem diferente do que ocorreu em outras investigações, barulhentas, que marcaram a política brasileira desde 2014.

O filho mais velho do presidente da República também foi convidado a prestar depoimento nesta quinta-feira, 10 . Mas sua presença é incerta: sua assessoria já avisou que não pode confirmar se ele irá. Como parlamentar - deputado estadual e futuro senador-, Flavio Bolsonaro pode escolher hora, dia e local para depor. Pelo mesmo motivo tem sido cobrado a dar explicações sobre um funcionário que foi seu auxiliar direto por mais de uma década. Até agora, não as deu, em contradição com o próprio presidente da República, que já defendeu a transparência em seu governo, onde diz não querer caixas-pretas. Flavio tem insistido que não fez nada errado e garante que não sabia de eventuais procedimentos irregulares de seu homem de confiança. Nas últimas semanas,  assumiu postura discreta e tem evitado contato com jornalistas.

No recém-empossado governo e no bolsonarismo, o incômodo com a situação é patente - inclusive do próprio presidente. Ainda em dezembro, Bolsonaro, em entrevista, se eximiu de responsabilidade por Queiroz e seus atos, a quem  conheceu nos anos 1980 no Exército e indicou para a assessoria de Flavio. Enquanto as redes sociais de apoiadores de Bolsonaro se agitavam, o vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, pediu esclarecimento do caso. O mal-estar chegou à própria cúpula militar, como mostrou a repórter Tania Monteiro. A falta de depoimentos dos personagens citados - Flávio, Queiroz, seus familiares -, agravou o problema e expôs mais o presidente.  A ponto de levá-lo  a até admitir que o ex-assessor do filho e seu ex-camarada de Exército “fazia rolo” para obter dinheiro, o que não foi uma declaração exatamente positiva para o presidente.

O silêncio de Queiroz e sua caixa-preta de segredos não têm sido positivos para os Bolsonaro, que surfaram na indignação popular com a corrupção e os desvios para obter a vitória de outubro de 2018 . A dúvida é se o depoimento, quando e se acontecer, o será.

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