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Não temos um .45

'Lacração' na internet não substitui uma política externa com sólida estratégia

William Waack, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2018 | 06h42

É normal que um novo governo bata bumbo ao mundo dizendo a que veio. Isso se chama “imprimir uma marca à política externa”. A de Jair Bolsonaro assumiu até aqui o risco de esbravejar contra a espuma, dedicando-se menos à substância de situações difíceis. É um óbvio cacoete de quem soube “lacrar” na internet e auferiu grande vitória eleitoral. E que levou realistas cínicos como Henry Kissinger a observar, quando solicitado a falar sobre a relação entre redes sociais e visões estratégicas: “Teria Churchill conseguido enfrentar Hitler depois da derrota da França, através de sua conta no Twitter?”

A “espuma” é a crença (sim, crença) de que uma espécie de “grande internacional” esquerdista, articulada por financiadores através de ONGs, “conquistou” os aparatos burocráticos de instituições multilaterais, além, obviamente, de todos os meios de comunicação. Nem Gramsci teria sonhado com tamanho bloco histórico. Isto mal explica o notório conflito atual entre o nacionalismo ressurgente em várias regiões e as estruturas multilaterais, e muito menos a ordem internacional dos últimos 70 anos - dominada pelos Estados Unidos - em acelerada decomposição, o que traz atualmente muito mais desorientação do que certezas.

O que a “lacração” digital do novo governo identifica como perigos à soberania brasileira (acordos climáticos ou sobre imigração, por exemplo) é uma clássica confusão entre causas e consequências. A principal causa do que se possa identificar objetivamente como vulnerabilidades, debilidades e fraquezas do “poder nacional” brasileiro (qual mesmo?) está na nossa própria incapacidade de controlar nosso território e estabelecer as bases sólidas de prosperidade, baseada numa economia moderna e aberta. Ninguém está nos impondo coisa alguma que nós mesmos já não tivéssemos nos dedicado a estragar.

O estilo Trump de disparar a metralhadora verbal primeiro e depois ver o que aconteceu talvez sirva aos interesses americanos. A longo prazo, duvido - ou vão dizer que a renúncia do general James “Mad Dog” Mattis do Pentágono, decepcionado com Trump, foi gesto de um esquerdista tresloucado infectado pelo globalismo? No caso do Brasil, imitar Trump incentiva a caricatura de quem entra bancando o fortão no salão cheio de bandidos e na hora de sacar o 45 possui apenas uma pistola de plástico.

Memes de política externa, como estamos produzindo, têm sérias consequências raramente visíveis a curto prazo. O novo governo briga com os acordos de Paris como se fossem a causa de qualquer atraso no pujante agronegócio brasileiro, deixando para o Chile (um país de esquerda?) realizar a conferência preparatória que esnobamos aparentemente sem ter gastado dois minutos calculando custos e benefícios diplomáticos. A promessa de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém é outra postura que gera grande tráfego nas redes sociais, mas que faz qualquer estudioso de política externa em qualquer lugar perguntar o que, afinal, se pretende conseguir com esse gesto.

Confundir política externa com gestos fortes e lacração é coisa de amadores. Ampliar o poder nacional, explorar a posição geográfica, formar alianças (sim, em algum momento elas podem requerer algumas renúncias, coisa que Trump parece incapaz de entender, como assinalou Mattis) e definir muito bem o que são os próprios interesses são o ponto de partida de qualquer formulação para trazer resultados, que não são tão imediatos quanto os políticos fascinados por redes sociais gostariam que fossem.

Em outras palavras, política externa é função de pensamento estratégico. Pensamento que fica prejudicado, assinalava o velho Kissinger, quando o governante está muito preocupado com o número de visualizações e os “likes” nas suas redes sociais.

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