Capítulo 05

O Zero Um de Bolsonaro no reino da 'pulp fiction'

A trama de Flávio Bolsonaro, iniciada após a revelação do caso Coaf pelo 'Estado', toma novos rumos e pode mudar de patamar com a proximidade incômoda entre o filho do presidente e um ex-PM acusado de ser miliciano

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2019 | 18h41

Caro leitor,

Quando a trama de um romance policial da antiga caía no marasmo ou chegava a um impasse, seu autor introduzia nos acontecimentos um sujeito armado. Então, o escritor tinha novas ideias - e as coisas voltavam a acontecer. No caso Flávio Bolsonaro/Fabrício Queiroz, esse turbulento personagem acaba de se apresentar. Trata-se de Adriano Nóbrega, ex-capitão do mítico Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio, unidade-tema do filme Tropa de Elite (2007). 

Foragido, o ex-PM, expulso da corporação e já condenado por assassinato, é acusado de integrar uma milícia que dominava Rio das Pedras, comunidade pobre na zona oeste do Rio. Também seria um dos chefes do Escritório do Crime, quadrilha suspeita de ter matado a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes em 2018.

No capítulo anterior você leu aqui que o presidente Jair Bolsonaro viaja para o Fórum de Davos constrangido pelo pente-fino do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e do MP do Rio nas finanças de seu primogênito. 

Agora sabe-se que como deputado estadual o filho do presidente homenageou o ex-capitão do Bope na Assembleia Legislativa com a Medalha Tiradentes e empregou a mulher e mãe dele em seu gabinete, até novembro. Como na pulp fiction, agora a narrativa - iniciada com a revelação, pelo Estado, do relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontava movimentações financeiras atípicas de Queiroz - toma novos rumos. Talvez mude de patamar, apresentando desafios inéditos ao novo governo.

Não se trata mais apenas de uma investigação do Ministério Público por suspeita de lavagem de dinheiro, conforme apontou a repórter Constança Rezende. Agora, há indícios de incômoda proximidade entre o acusado de ser miliciano e o Zero Um do presidente, embora ainda  não se possa ir muito além disso. Flavio afirmou que Nóbrega, depois de ganhar a Medalha Tiradentes na Alerj, foi absolvido, e atribuiu a  Queiroz a indicação das familiares do ex-policial para postos em seu gabinete.  Seu ex-assessor “matou no peito” a versão, confirmando as afirmações do ex-chefe. Mas as coisas não melhoraram muito. As suspeitas contra o parlamentar cresceram, aumentando o mal-estar no círculo mais próximo de Jair Bolsonaro, quando o grupo até ensaiava uma defesa de Flávio, recorde aqui. A operação murchou depois que na trama apareceu o acusado  de ser miliciano.

O próprio presidente, que chegara a dizer que o filho, se tivesse errado, deveria pagar,  logo mudou de posição. Reclamou que estariam tentando usar um “garoto” (Flavio tem 37 anos) para atingi-lo. Apontado em relatório do Coaf por ter recebido 48 depósitos não identificados e fracionados em uma máquina de autoatendimento bancario na Alerj, Flávio negou que seu objetivo, ao recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), fosse obter foro especial. Ele disse ainda que o dinheiro era referente à negociação de um apartamento, recebido parcialmente em dinheiro e afirmou que fez o depositou para si mesmo. O vendedor, o ex-jogador de vôlei Fabio Guerra, confirmou a transação. Assunto resolvido?

Longe disso. Há desencontro entre as datas do recebimento pelo apartamento e dos depósitos, além de perguntas incômodas. Por exemplo: por que o deputado, certamente um cliente especial, fez, pessoalmente 48 depósitos de R$ 2 mil, em dinheiro, em uma máquina de autoatendimento, em lugar de pedir ajuda ao gerente ou outro funcionario, usar uma caixa convencional ou pedir  a Guerra transferências eletrônicas? A falta de explicações convincentes incomoda o campo bolsonarista. Um de seus ícones, a deputada estadual eleita pelo PSL em São Paulo Janaína Paschoal, por exemplo, expressou a Luiz Maklouf Carvalho seu desagrado com a postura de Flávio. Comparou a reação do companheiro de partido às do senador Aécio Neves (PSDB) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quando acusados.

Em meio ao tumulto dos últimos dias, abalados pela tragédia de Brumadinho, que levou à cidade o presidente, o caso Flávio/Queiroz continua a preocupar os bolsonaristas. Em entrevista na TV, o deputado estadual e senador eleito repudiou as milícias, que elogiara no passado,  e descartou a possibilidade de desistir de assumir o Senado. Pelo menos por enquanto, diferentemente do Zero Dois de Tropa de Elite, o Zero Um de Bolsonaro não vai pedir para sair.

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Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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