Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

O pente-fino do Coaf constrange o presidente

A descoberta de que o primogênito do clã recebeu em 2017 quase R$ 100 mil em depósitos anônimos e pagou um título de R$ 1 milhão, além da revelação do Estado de que o MP investiga lavagem de dinheiro no caso, complicaram o quadro; presidente cancelou coletiva em Davos, evitando perguntas incômodas

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2019 | 19h00

Caro leitor,

O presidente Jair Bolsonaro viaja para o Fórum de Davos constrangido pelo pente-fino do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e do MP do Rio nas finanças de seu primogênito. Desde a noite de sexta-feira, 18, soube-se que o Coaf achou 48 depósitos não identificados de R$ 2 mil cada para o deputado estadual  pelo PSL Flavio Bolsonaro, ao todo R$ 96 mil ao longo de cinco dias em 2017; identificou o pagamento pelo parlamentar de um título de mais de  R$ 1 milhão; e descobriu que Fabrício Queiroz, ex-assessor do deputado, movimentou R$ 7 milhões de 2014 a 2017 . Houve ainda a  revelação pelo Estado de que os promotores do Rio investigam, no caso, lavagem de dinheiro e ocultação de bens. O quadro indica que nos próximos dias a crise  tenderá a crescer. Tem potencial para gerar mais perguntas incômodas para o governo e deslizar perigosamente em direção ao Palácio do Planalto.

Há 21 dias no posto, Bolsonaro pretendia desembarcar no encontro com os pesos-pesados do capitalismo na Suíça cavalgando um discurso de modernização conservadora do Brasil, com igualdade de todos perante a lei e rigor com a coisa pública. O caso Flavio-Queiroz tende a fragilizar essa pregação ou cerca-la de desconfiança. A partir das revelações, o deputado terá dificuldade para alegar que o “rolo” (nas palavras do presidente) é coisa exclusiva do ex-auxiliar. E Bolsonaro não pode dissociar seu nome e imagem do filho, diferentemente do que poderia fazer se o caso envolvesse apenas um auxiliar enrolado em uma história mal explicada. Com os fatos novos, seus movimentos em Davos exigem mais cuidado. Preventivamente, uma entrevista coletiva do presidente, prevista no encontro, sumiu da agenda, como mostrou a Coluna do Estadão.    Bolsonaro lerá uma declaração, sem que os repórteres possam fazer perguntas sobre os problemas de seu filho.

O novo relatório do Coaf surgiu em mau momento para Flavio. Ele já tentava, com o discurso da perseguição política ao pai - criticado pelos bolsonaristas no arquirrival PT, que, ao se defender, também se diz perseguido -   lidar com o desgaste  gerado por ter recorrido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender a investigação do MP do Rio. O comportamento  contrasta com o pregação dos Bolsonaro de desprezo pelo foro privilegiado, em vídeo exibido em 2017. Nele, Jair Bolsonaro aparece com Flavio, que agora recorre à Corte para pedir o que o pai criticou.

O governo, apoiado em uma heterogênea e improvisada frente conservadora, enfrenta desafios e divergências. Há incômodo, entre alguns ministros e militares, com as dificuldades de Flavio para se explicar, como mostraram Tania Monteiro e Eduardo Rodrigues. Mas outros integrantes do bloco de poder saíram em defesa do governo, tentando dissocia-lo do caso Flavio-Queiroz. Um foi o vice-presidente, Hamilton Mourão. Outra foi a senadora eleita Tania Arruda (PSL-MT), juíza aposentada conhecida como Moro de Saias, que não viu “nenhuma irregularidade” nos depósitos fracionados.   

Desde que o Estado revelou com exclusividade  que o Coaf descobrira que  Fabrício Queiroz, tivera, ao longo de treze meses na Assembleia Legislativa, movimentação financeira de R$ 1,2  milhão - incompatível com sua renda - o governo Bolsonaro mostra não saber como lidar com o caso. Depois de algumas declarações em defesa de Flávio - que protestou inocência,  o clã Bolsonaro, gradativamente, assumiu atitude mais discreta. Revelados os depósitos anônimos, em série e idênticos, Eduardo Bolsonaro, irmão e deputado federal pelo PSL em São Paulo, até postou um vídeo em que um advogado critica o Ministério Público do Rio.  Mas nitidamente há dificuldades para enfrentar o assunto na aliança política que conquistou o poder com um discurso de combate à corrupção. No Planalto, exibe o léxico das teorias de conspiração do conservadorismo nacional, com anúncios diários de pentes-finos em caixas-pretas, onde ocorreriam tenebrosas transações. Em um grupo político  que prioriza essas iniciativas fortemente embasadas no senso-comum, fica difícil explicar a torrente de dinheiro  que transita pelas contas de Flavio e Queiroz, seu assessor por mais de dez anos. Há indícios de que os recursos tenham origem na chamada rachadinha - confisco de parte do salário dos assessores nos Legislativos, investigada em pelo menos 16 Estados.

Antes das novidades da noite da sexta-feira e do fim de semana, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, tinha atribuído à política - uma suposta tentativa de desgastar Bolsonaro pai - as  denúncias contra Flavio.  Embora não haja evidência de conspiração política para atingir o presidente, porém, Onyx pode ter acertado, pelo menos  no atacado. O maior problema do primeiro clã, neste caso, é, antes de jurídico, político. Os Bolsonaro não conseguem gerar uma narrativa plausível para sua base, como primeiro passo do presidente e seu governo para uma contraofensiva. Essa dificuldade tende a acompanha-lo na Suíça.

Sobretudo, falta a verdade - aquela que, segundo São João (8: 32), uma vez conhecida, nos libertará. Era o que repetia o candidato Jair Bolsonaro, ao pedir o voto dos brasileiros para chegar ao Planalto.

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