Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Mourão não é nem grilo falante, nem ventríloquo de Bolsonaro

Generais tratam discordâncias como 'pontuais' e presidente vê tentativa da 'esquerda' de intrigá-lo com o vice 

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2019 | 14h24

 

Caro leitor,

O presidente Jair Bolsonaro tem uma certeza sobre o vice-presidente, Hamilton Mourão: a “esquerda” quer intrigá-lo com o general.  Sob essa designação ‘esquerda’ estão jornalistas, políticos e cientistas políticos que descobriram em Mourão depois da eleição um ponto de equilíbrio no Palácio do Planalto em oposição aos arroubos expostos nas mídias sociais do presidente - como o mais recente, quando Bolsonaro publicou um vídeo obsceno - mostramos aqui.

A cada evento, a intriga cresceria: Jair Bolsonaro manda o ministro da Justiça, Sérgio Moro, demitir a cientista política Ilona Szabó; Mourão responde dizendo que o Brasil perde com a medida - veja aqui. O presidente e seu filho Carlos se envolvem em uma briga pelo Twitter com o então ministro Gustavo Bebianno; Mourão diz, como mostrou o site 'BR18', que o presidente vai “dar uma ordem unida na rapaziada”. Seria o grilo falante do presidente.

Dessa forma, Bolsonaro parece ir para um lado e Mourão para outro.

Mas os generais que os conhecem dizem que a coisa não é bem assim. Por trás de discordâncias pontuais, eles afirmam que é preciso saber ler “o essencial”. E o essencial não seria apenas o óbvio, expressado por Mourão sempre que pode, com a frase “quem manda é o presidente”. Há outras coisas.

Essencial para eles é a consciência que o presidente diz ter de que a exploração de sua relação com seu vice não passaria da “velha tática de tentar dividir”, de pôr o general de um lado e o capitão de outro. Os generais lembram que Bolsonaro sabe que, de todos seus auxiliares, apenas um não pode ser demitido. E este é justamente Mourão. Tudo bem que, às vezes, falta “combinar o discurso”, um “ajuste fino”, mas, para o presidente, nada disso teria importância. O que sobra de todos esses episódios é sua constatação de que “estão querendo botar o Mourão contra mim”.  

Há 15 dias, o presidente faz questão de mostrar aos amigos de caserna que está satisfeito com o vice. Elogiou muito a atuação de Mourão na reunião do Grupo de Lima, em 25 de fevereiro, que tratou da crise na Venezuela. Bolsonaro ficou contente com a forma como o vice deixou claro ao vice-presidente americano, Mike Pence, que o Brasil não embarcaria em uma aventura militar contra o vizinho. Quando voltou para Brasília após internação, Bolsonaro foi recebido com afagos pelo vice. Relembre aqui.

Mourão disse na reunião que o Brasil acreditava que era possível fazer a Venezuela voltar ao caminho democrático  “sem qualquer medida extrema que nos confunda, enquanto nações democráticas, com aqueles que serão julgados pela história como agressores, invasores e violadores das soberanias nacionais”.

Essencial seria ainda a origem dos dois militares. Eles podem não ser amigos íntimos, mas têm um passado em comum. O vice-presidente é paraquedista e artilheiro ­- comandou uma companhia do 8º Grupo de Artilharia da Brigada Paraquedista. Era capitão quando chegou ali o tenente Bolsonaro. Tiveram carreiras distintas. A de Bolsonaro o levou ao Parlamento; a de Mourão o levou ao generalato. Seus destinos se reencontrariam novamente quando o general, então comandante Militar do Sul, resolveu criticar o governo de Dilma Rousseff (PT). Mourão foi exonerado, mas recebeu o apoio de Bolsonaro.

O mesmo aconteceria depois, quando o general foi novamente exonerado. Então secretário de Finanças do Exército, Mourão resolveu criticar o presidente Michel Temer (MDB). “Em uma relação, até em um casamento o marido pode ter opiniões diferentes da mulher, mas isso não significa divórcio briga ou separação.”, afirma um general que os conhece.

Mourão foi para a reserva e, de lá, para a presidência do Clube Militar. Alguns meses depois foi escolhido para ser o vice de Bolsonaro. “Antes da eleição, o Mourão era tratado como um idiota; agora as mesmas pessoas dizem que ele é ponderado e sensato ”, diz o general.

Ele alerta que será preciso muito mais do que tuítes e mensagens pelo WhatsApp  para criar uma ruptura no grupo de militares que assumiu alguns dos mais importantes cargos da Esplanada  e o presidente, o político que lhes proporcionou pelo voto popular aquilo que muitos julgavam impossível.

Tudo parece futrica , intriga para dividir a tropa e criar uma crise, uma crise – dizem os generais - que não existe.  Mas nem mesmo eles ficam tranquilos quando pensam na relação que o presidente tem com as redes sociais. Seria melhor não deixar o presidente sozinho com seu celular. Em tuítes, Bolsonaro parece achar que ainda está em campanha, como mostramos aqui.

Afinal, quem sabe o que esperar dos próximos tuítes de Bolsonaro? E o que Mourão vai dizer deles? “Sem comentários. Não quero ser o ventríloquo do presidente”, limitou-se o vice a dizer na Quarta-Feira de Cinzas. Tem razão. Não deve ser fácil colocar um menino de 1 metro e 90 no colo.

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