‘Cometa’ arrasta Queiroz e leva Bolsonaros a apostar em seu silêncio

Com prisão do ex-assessor, presidente passa a depender da discrição de ex-assessor de Flávio, preso pelo MP no caso da rachadinha

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2020 | 18h33

RIO – O “cometa” chegou. O astro de cauda longa anunciado por Fabrício Queiroz no ano passado materializou-se nesta quinta-feira, 18, em um sítio em Atibaia, São Paulo. Capturou o próprio ex-assessor parlamentar, que ali se mantinha silencioso, em meio à balbúrdia que tem agitado esta República. Levou-o preso, sob acusação de atrapalhar as investigações do caso da rachadinha, que envolve seu ex-chefe, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). No Rio, encarcerou-o no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na quente zona oeste carioca. Mas há, no caso, outro “prisioneiro” em destaque, também atingido pela metáfora: o ocupante do Palácio do Planalto.

Não é exagero. A casa que servia de refúgio ao investigado mais desaparecido do País (“Cadê o Queiroz?”) é ligada a Frederick Wasseffrequentador dos palácios presidenciais e que ali mantinha escritório. Essa descoberta do MP fluminense “aprisionou” o presidente Jair Bolsonaro em nova fase de seu governo, na qual é refém do silêncio do ex-assessor, agora no cárcere. Os dois se conheceram no Exército, nos anos 80. Foi Bolsonaro quem indicou Queiroz para assessorar Flávio, em 2007. Têm amizade antiga, de pescarias, churrascos e campanhas eleitorais.

O ex-assessor sabe muito, porque fez muito. Há indícios fortes de que, durante anos, administrou uma gorda mala de dinheiro desviado de salários de assessores de Flávio, em favor deste. Segundo o MP, ele saldou, em dinheiro vivo, contas do chefe, sem que os recursos correspondentes saíssem de contas do então deputado estadual, hoje senador. Há também os recursos que Queiroz depositou para a primeira-dama, quando era assessora do hoje presidente. Eram, diz Bolsonaro, o Velho, pagamento de dívida com ele. Há ainda os imóveis comprados por Flávio a preços camaradas e vendidos em seguida com lucros suculentos. O senador nega irregularidades e se diz perseguido em uma guerra política, na qual o alvo verdadeiro seria o pai presidente.

Jair Bolsonaro, no comando da República, poderia, desde o início, ter tentado manter discrição em relação a um escândalo que, afinal, nasceu no colo do filho senador, desde sua revelação pelo Estadão, no fim de 2018. Mas não é homem de se esconder – não chegou ao Planalto discretamente – nem poderia se desvencilhar dos filhos cujas carreiras políticas iniciou. Assim, mergulhou na polêmica para tentar dar aos seguidores uma narrativa  nas redes que fosse além do "E o PT?". Em defesa, supostamente, da prole mudou o comando da PF.

Em 2019, reclamara com o ministro da Justiça que haveria uma montagem, com provas forjadas, contra sua família. Exilou no Banco Central o antigo Coaf, gerador do relatório que dedurou Queiroz. Deu a Wassef o comando da estratégia de defesa de Flávio.

Os movimentos do presidente tiveram efeitos contraditórios. Deram alguma blindagem à Primeira Família e atrasaram um pouco a investigações, por iniciativas jurídicas do advogado. Mas o forte envolvimento de Wassef na operação para esconder o homem-chave do caso levou o problema para o Palácio do Planalto. É ali que se torce por seu silêncio, em meio à crise política perene que  o governo vive. Já bastam o  confronto de Bolsonaro com o STF por causa dos inquéritos sobre fake news e atos antidemocráticos, a Educação sem comando pela agitada saída de Abraham Weintraub, as confusões do Ministério da Saúde na pandemia.

No passado da Terra plana, que às vezes parece ter voltado, acreditava-se que cometas poderiam ser maus presságios. A crença aparenta ser válida para os Bolsonaros, atropelados pelo astro simbólico neste turbulento presente vivido pelos brasileiros, de agitação extremista e crise de antigas convicções.

 Em tempo: a Terra é redonda. Ainda.

Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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