Alan Santos/Planalto
Alan Santos/Planalto

A hora de Bolsonaro botar seu bloco na rua... do Congresso

Governo vive uma espécie de ressaca política pós-Carnaval e se a base seguir desorganizada corre o risco de ver seu samba atravessar na avenida

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 12h57

 

Caro leitor,

Reza a lenda que o ano só começa de verdade no Brasil depois que acaba o Carnaval. Para o governo, essa história é a mais pura verdade, já que, agora, mais do que nunca, é a hora de organizar sua base de apoio dentro do Congresso para tentar aprovar a reforma da Previdência.

Como já contamos nos capítulos anteriores, essa proposta é a mais importante de todo o governo de Jair Bolsonaro e aprovar a medida é considerado como o ponto central para a retomada do crescimento econômico do País.

Só que, neste momento, o governo não possui qualquer base organizada dentro do Congresso e, portanto, está muito longe de conseguir os votos de que precisa. Ou seja: chegou a hora de o presidente botar seu bloco na rua em busca desses apoios.

Mas o problema é que, em vez disso, Bolsonaro tem apenas colecionado polêmicas, através de postagens e declarações para lá de controvertidas. Desde a publicação de um vídeo escatológico, passando por uma declaração em que afirma que a democracia e a liberdade dependem da vontade das Forças Armadas, as posições demonstradas pelo presidente transmitem preocupação para o mercado, que passa a questionar se o governo terá realmente equilíbrio e vontade política suficiente para aprovar uma reforma que produza impacto econômico relevante.

Nessa reportagem, você pode ler sobre o vídeo postado por Bolsonaro e aqui ver que a postagem teve até repercussão internacional. Para saber mais sobre a polêmica declaração relacionando militares e a democracia, você pode ler esse texto.

Uma das principais críticas que o presidente vem sofrendo é que em vez de priorizar a discussão da reforma, tem desperdiçado energia com esse tipo de debate que não leva o governo a lugar algum.

Se a postagem do vídeo escatológico já tinha causado desgaste até entre aliados, a declaração sobre a democracia incomodou até setores das Forças Armadas. Tanto que o presidente, no mesmo dia, decidiu apagar o incêndio causado por ele próprio fazendo, no mesmo dia, uma transmissão ao vivo no Facebook para explicar sua declaração, dizendo que citara apenas a importância das Forças na democracia.

Vera Magalhães e eu escrevemos sobre essa estratégia adotada por Bolsonaro no BR18 e você pode conferir aqui e aqui.

A favor de Bolsonaro, é importante destacar que ele decidiu atender aos pedidos dos aliados e começou a falar e postar sobre a importância da aprovação da reforma da Previdência. Fez postagens sobre isso e falou sobre o tema na sua live. O problema é que misturou o assunto com coisas tão diversas como cartilhas para adolescentes, lombadas eletrônicas e bananas. E é essa dispersão que aumenta o pé atrás com sua capacidade de fazer foco na agenda econômica, preferindo fazer declarações controversas. Nesse editorial, isso é mostrado com clareza.

Para acertar o rumo dessa discussão, o presidente já sabe que precisa arrumar a casa no Congresso e isso ainda parece muito distante de acontecer. O governo tem se comunicado muito mal na defesa da reforma, como até aliados de Bolsonaro tem falado publicamente, como foi o caso do deputado Marco Feliciano (PODE-SP).

Em alguns momentos, parece haver a impressão de que ainda não caiu a ficha no Planalto sobre a real importância de aprovar uma reforma tão importante – e complicada – como a previdenciária. E não há nenhuma dúvida sobre como isso é central, como você pode entender nessa análise feita pela economista Zeina Latif e neste editorial.

E bastam algumas hesitações sobre ela para que o mercado já reaja mal, o que é constatado aqui.

Mesmo que esteja vivendo uma espécie de ressaca política pós-Carnaval, o presidente Bolsonaro já corre contra o tempo para deflagrar a discussão em torno da reforma. E se a base seguir desorganizada como aconteceu até agora, o governo corre o risco de ver seu samba atravessar na avenida.

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