Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Coligações partidárias: espaço em administração vira ativo na disputa em SP

Doria tenta atrair novos aliados com oferta de cargos na Prefeitura e apoio a candidaturas proporcionais; Márcio França usa pasta de Transportes para conquistar PR

Adriana Ferraz, Fabio Leite e Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

Aliado do ex-governador e presidenciável tucano Geraldo Alckmin, o governador e pré-candidato à reeleição Márcio França (PSB) é alvo de um ataque especulativo do PSDB a menos de um mês do início das convenções partidárias. No momento que o PSB nacional descarta apoiar Alckmin e negocia subir no palanque do PT ou de Ciro Gomes (PDT), o grupo do ex-prefeito e também pré-candidato ao governo João Doria tenta atrair partidos do centro para sua coligação partidária, oferecendo cargos na Prefeitura e apoio a deputados do grupo nas eleições 2018, em busca de uma sonhada vitória no primeiro turno. 

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A ofensiva já deu resultado. Na sexta-feira, o PP trocou França por Doria e acendeu um alerta na campanha de reeleição do governador de que outras siglas atualmente coligadas podem seguir pelo mesmo caminho. A interlocutores, França admite que o risco existe, mas em relação às siglas menores, que não mudariam a composição que hoje representa 25% do tempo fixo na TV. 

França conta com a fidelidade de lideranças do PR, PTB, Solidariedade, PSC e PROS. São essas siglas que, na coligação eleitoral com o PSB, lhe asseguram 2 minutos e 18 segundos – Doria tem 2 minutos e 59 segundos. “Podem me tirar uma flor, mas não podem impedir a primavera”, afirmou ontem o governador ao Estado, em referência a sua campanha. Segundo ele, Doria sabe que terá de enfrentá-lo no segundo turno.

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Na lista de partidos que podem mudar de lado estão o PPS, rachado internamente sobre as eleições 2018 no Estado, e o PHS, levado para o governo por França – o presidente nacional da sigla, Laércio Benko, virou assessor na Casa civil. “Nada impede o partido de reabrir o debate. O PPS pode mudar de posição, por que não? Avalio que é precipitado esse apoio ao Márcio França”, disse Carlos Fernandes, presidente municipal do PPS e funcionário da gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), sucessor de João Doria em São Paulo (Fernandes é prefeito regional da Lapa).

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Uso da máquina para aumentar coligações partidárias

Em meio a esse cenário, Doria e França têm usado as máquinas do governo e da Prefeitura, respectivamente, em troca de apoio e maior tempo nos programas na TV e no rádio. 

Após ingressar na coligação partidária do tucano, o PRB, por exemplo, recebeu o compromisso de indicar o novo secretário municipal de Esportes. Covas deve nomear João Faria para o cargo no próximo dia 1º. Ex-vereador petista, Faria vai assumir no lugar de Jorge Damião, que vai participar da campanha.

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Presidente municipal do PRB, Aildo Rodrigues confirmou ontem que o acordo foi fechado após a declaração oficial do partido em favor de Doria. “Foi uma composição do PRB estadual com o governo municipal. Tem a ver com o apoio ao Doria, sim”, disse ele.

O PP também pode ser recompensado pela máquina municipal. Uma das possibilidades é que a sigla assuma a Secretaria de Segurança Urbana. “Seria natural que o partido participasse do governo depois do tempo de TV que cedemos ao Doria. Aliás, não só agora, como na campanha dele para a Prefeitura. O PP poderia ajudar na Segurança, reestruturando a Guarda Municipal, por exemplo. O PSDB tem de mudar sua filosofia em relação à Polícia e à Guarda. Não é à toa que o Alckmin está perdendo para (Jair) Bolsonaro em São Paulo”, afirmou o vereador Conte Lopes (PP).

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Presidente estadual do PP, o deputado estadual Guilherme Mussi nega que o partido tenha negociado cargos na Prefeitura ou mesmo no governo estadual – um dos motivos que teriam levado a sigla a mudar de lado teria sido a demora do governador em atender aos pedidos de indicação para direções de departamentos estaduais, especialmente na Polícia Civil. Mussi chegou a anunciar apoio à reeleição do governador, mas uma semana depois fez novo evento, desta vez ao lado de Doria.

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Primeiro partido a se definir em São Paulo, o PR assumiu a Secretaria Estadual de Logística e Transportes depois de França virar governador. A sigla pleiteava o cargo durante o governo Alckmin, mas só foi atendida por França, que ainda permitiu a integrantes do partido nomearem toda a diretoria da Dersa, responsável por algumas das maiores obras do governo, como o trecho norte do Rodoanel e a duplicação da Tamoios.

Também aliados, Gilberto Nascimento Júnior (PSC) virou secretário estadual do Desenvolvimento Social, enquanto Cacá Camargo (PROS) assumiu a área de Esportes. Já o DEM perdeu a Secretaria de Habitação no dia seguinte ao anúncio de apoio a Doria. O governo nega ter feito loteamento do setor e diz que “as indicações não são partidárias, e sim técnicas, com profissionais experientes.”

Procurada, a Prefeitura informou que também não existe relação entre as nomeações e as eleições 2018. “A Prefeitura ressalta que preenche suas nomeações com nomes capacitados para os cargos que ocupam.” Doria não quis se manifestar. 

Acusações sobre estratégias para eleições 2018 racham base

​Ex-aliados em São Paulo, o PSB e o PSDB hoje trocam acusações sobre uso da máquina nas eleições 2018 no Estado. A relação entre os dois partidos no Estado se deteriora a cada dia e deixa o ex-governador e presidenciável Geraldo Alckmin em uma situação delicada. 

Os tucanos pressionam Alckmin a priorizar o ex-prefeito João Doria (PSDB) na disputa estadual, enquanto os pessebistas já admitem que Alckmin deve deixar o governador Márcio França, seu sucessor, em segundo plano.

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“Quando Alckmin disse que o candidato dele é o Doria, ficou claro que ele vai acabar aparecendo ao lado do ex-prefeito. Ele também não pode aparecer ao lado do meu pai no horário eleitoral da TV”, disse o deputado estadual Caio França (PSB), filho do governador. 

Segundo o parlamentar, o PSDB acusa o PSB de usar a máquina para fins eleitorais, mas ele diz que essa seria uma prática dos tucanos “há 20 anos”. “Chega a ser esdrúxulo o PSDB nos acusar de algo que fazem há 20 anos no governo e continuam fazendo na Prefeitura.” Para Caio França, não há problemas em indicar integrantes de partidos aliados desde que eles sejam qualificados. 

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Já o líder do PSDB na Assembleia Legislativa, deputado Marco Vinholi afirma que França montou sua coligação eleitoral “cedendo espaços” no governo e, por isso, não consegue mais governar. “Por alianças, ele abriu mão de cargos que nunca entraram em negociação política, como a secretaria de Transportes, que hoje está com o PR”, afirmou o tucano. 

Questionado se a mesma prática estaria ocorrendo na administração municipal, que é comandada pelo tucano Bruno Covas, Vinholi disse que os dois casos são diferentes. 

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“Na Prefeitura, há um modelo de gestão. Ele está compondo com a Câmara alianças de governabilidade. Já as alianças de Márcio França são meramente eleitorais.”

O líder do PSDB afirmou ainda que mais partidos que integram a coligação partidária do atual governador podem migrar para Doria. “Não acredito que isso vai acontecer. Pelo contrário. Muitos tucanos defendem a nossa candidatura”, respondeu o deputado Caio França.

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