Deputado que teve sigilo fiscal quebrado em investigação sobre financiamento de manifestações antidemocráticas diz que foguetório contra o STF foi ‘ato religioso’

Deputado que teve sigilo fiscal quebrado em investigação sobre financiamento de manifestações antidemocráticas diz que foguetório contra o STF foi ‘ato religioso’

Em entrevista ao Estadão, Daniel da Silveira (PSL-RJ) negou ter envolvimento na organização de protestos pró-governo e disse desconhecer a existência de uma centralização na 'coordenação ou financiamento' de grupos bolsonaristas

Rayssa Motta

16 de junho de 2020 | 19h57

O deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), alvo dos inquéritos que apuram a organização e financiamento de atos antidemocráticos e o disparo de notícias falsas, ofensas e ameaças contra autoridades, ambos conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou ter envolvimento na organização de manifestações pró-governo e disse desconhecer a existência uma centralização na ‘coordenação ou financiamento’ dos atos.

Nesta terça, 16, endereços ligados a Silveira foram alvo de buscas e apreensões da Polícia Federal. Ele também está entre os onze parlamentares boslonaristas que tiveram o sigilo fiscal quebrado por determinação de Alexandre.

“As manifestações, quando eu falo manifestações eu falo aquele aglomerado gigantesco de pessoas, podem ter células patrocinadas. Isso não significa que são nossos. Nós, apoiadores do governo, desconhecemos qualquer um que o faça. Pode ter algum grupo, totalmente seleto, que pode sim ter sua coordenação e talvez seu financiamento, mas não parte de nenhum de nós”, afirmou em entrevista ao Estadão.

O deputado Daniel Silveira. Foto: Reprodução / Câmara dos Deputados

Silveira também admitiu, sem citar nomes, que conhece algumas pessoas que, como ele, estão na mira das investigações sobre os atos antidemocráticos. “Eu conheço a maioria deles [alvos dos mandatos de busca e apreensão cumpridos hoje], evidentemente por conta de sermos apoiadores do governo. Acaba tendo uma troca de mensagens, um telefonema, um encontro casualmente. É um relacionamento mais até institucional do que de amizade “, disse. O deputado também reclamou que sua defesa ainda não teve acesso aos autos do processo e, portanto, desconhece eventuais crimes imputados a ele.

O parlamentar confirmou que esteve presente em diversas manifestações recentes a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Como parlamentar você é convidado e, representando uma militância, nós vamos nos nossos atos”, disse.

Silveira também rechaçou a tese de que essas manifestações atentam contra a democracia. Para o deputado, são atos ‘orgânicos, pacíficos e democráticos’ e os protestos autodenominados ‘antifascistas’, que recentemente foram às ruas contra o governo, é que são ‘terroristas’. Ele disse ainda que as manifestações a favor do presidente não podem ser ‘contextualizadas’ por ações isoladas de ‘um indivíduo ou outro que pode ser enquadrado na Lei da Segurança Nacional’.

O deputado voltou a repetir que o foguetório contra o prédio do Supremo, no domingo, 14, fez parte de um ‘ato religioso’ de manifestantes apoiados pelo agronegócio que, até domingo passado, estavam acampados na Esplanada dos Ministérios no chamado ‘QG Rural’. “Realmente não foi ataque algum. Eles soltaram fogos ao final de um culto religioso e, segundo os integrantes do acampamento, um garoto se destacou. Isso aí foi repudiado por eles mesmos”, contou. O ‘garoto’ a quem ele se refere é Renan Silva Sena, um ex-funcionário terceirizado do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que chegou a ser detido por policiais.

Silveira também criticou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (DEM), que deu ordem para que agentes das Forças de Segurança desmontassem o ‘QG Rural’, além de um segundo acampamento, do grupo ‘300 do Brasil’, classificado pelo Ministério Público do DF como uma ‘milícia armada’. “Eles rasgaram a Constituição. Primeiro, porque o governador passa por cima de uma sentença, que garantia ali a livre manifestação de pensamento, o que não era necessário, porque já é constitucional. Eles também se equivocam de chamar de milícia armada. Não teve um disparo, não teve um óbito, não teve nada”, argumentou. O deputado também criticou a abordagem do policial que usou spray de pimenta para dispersar os manifestantes.

O então candidato a deputado federal Daniel Silveira (esq) ficou conhecido por quebrar uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, durante a campanha.  Foto: Reprodução

Um dos argumentos para a dispersão dos acampados foi a proibição de aglomerações diante da epidemia de Covid-19 no País – o que Silveira rebateu, dizendo que o grupo estava cumprindo devidamente protocolos recomendados por autoridades sanitárias. Para ele, que contraiu a doença, as reações da sociedade diante do vírus são ‘acentuadas’. “Qualquer um sabe que para achatar um curva de vírus é com barreira imunológica. O vírus está gerando uma narrativa que, na minha opinião, está um pouco acentuada. Claro que o vírus existe, adoece as pessoas, as pessoas vão morrer, infelizmente, assim como qualquer outra pandemia. Mas as pessoas dimensionaram isso com uma complexidade que têm medo até de dar oi”, opinou.

Na entrevista, Silveira também defendeu a extremista Sara Fernanda Giromini, presa ontem, e minimizou as ameaças feitas por ela ao ministro Alexandre de Moraes. “Na hora da emoção você pode exagerar em falas, inclusive em ações. Pessoas erram ao falar ou exageram mesmo, contudo no dia seguinte têm outro pensamento. A Sara externou uma raiva que ela está sentindo e posso garantir que muitos brasileiros compactuam desse pensamento”, disse.

O deputado fez críticas ao Supremo Tribunal Federal, chamou os ministros de ‘semideuses’, ‘apadrinhados’ e disse que ‘alguns tem a bússola moral avariada’. “Eu odeio o STF da maneira que ele é composto” bradou.

Silveira, que é investigado por suposto envolvimento em atos antidemocráticos, também negou ser favorável a uma intervenção das Forças Armadas, se declarou republicano e disse não acreditar que o Brasil vive de fato numa democracia. “Eu sou a favor da tripartição do Estado e o STF não respeita isso”.

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