Grupo bolsonarista ‘300 do Brasil’, que entrou na mira da PF, foi comparado a ‘milícia armada’ pelo Ministério Público do DF

Grupo bolsonarista ‘300 do Brasil’, que entrou na mira da PF, foi comparado a ‘milícia armada’ pelo Ministério Público do DF

Manifestantes pró-governo estiveram envolvidos, nas últimas semanas, em atos contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional

Rayssa Motta

16 de junho de 2020 | 03h00

Manifestantes pró-governo, liderados pela ativista Sara Winter, invadem a cupula do Congresso Nacional pelo acesso do Senado, após o acampamento do ‘300 do Brasil’ ser desmontado. Foto: Dida Sampaio/ Estadão

O grupo bolsonarista ‘300 do Brasil’, que entrou na mira da Polícia Federal nesta segunda, 15, após o pedido de prisão de seis integrantes, montou acampamento na capital federal há pouco mais de um mês. Classificado como ‘milícia armada’ pelo Ministério Público do Distrito Federal, o coletivo pró-governo esteve envolvido, nas últimas semanas, em atos contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. No domingo, o acampamento foi desmontado por determinação do governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), e as manifestações voltaram essencialmente às redes sociais, onde o grupo nasceu.

A criação dos ‘300 do Brasil’, que na verdade contavam com cerca de 25 manifestantes acampados na Esplanada dos Ministérios, foi anunciada na internet no final de abril. Pregando o nacionalismo, o combate à corrupção e à esquerda e defendendo a autonomia do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), um vídeo anunciava: “Nós somos os 300 do Brasil e viemos cobrar” (assista abaixo).

O nome foi escolhido em dupla referência aos 300 de Gideão, batalha relatada na Bíblia, e aos 300 guerreiros espartanos que, na Grécia Antiga, travaram uma batalha com milhares de soldados persas para atrasar uma invasão iminente e ganhar tempo para uma contra-ofensiva grega.

Na mesma linha militarizada adiantada já no batismo do grupo, mensagens postadas na comunidade mantida no Whatsapp orientavam: “Lembre-se você não é mais um militante, você é um militar, um militar com farda verde e amarela pronto para dar a vida pela sua nação”.  Outras publicações falavam em ‘treinamento físico de combate’ e recolhimento de celulares pela ‘equipe de segurança’. A própria líder do grupo, Sara Fernanda Geromini, presa nesta segunda, 15, admitiu, em entrevista à BBC News Brasil, a existência de armas dentro do acampamento montado pelo grupo em Brasília para ‘proteção dos próprios membros’.

O movimento arrecadou pouco mais de R$70 mil em uma campanha de financiamento coletivo lançada na internet. Os mandados de prisão que começaram a ser cumpridos hoje, contra Sara e outros cinco militantes, foram expedidos por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito do inquérito aberto para apurar justamente a organização e financiamento de manifestações antidemocráticas e de crimes contra a Lei de Segurança Nacional.

As investigações foram abertas a pedido da Procuradoria-Geral da República após a participação de Bolsonaro em um ato para comemorar o dia do Exército, em 19 de abril, que contou com manifestantes defendendo o fechamento do Congresso, do STF e a reedição do AI-5, o ato institucional que endureceu o regime militar.

Grupo de manifestantes lançaram fogos de artifício em direção ao prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Foto: Reprodução

Depois disso, o grupo também organizou um protesto que foi comparado por autoridades aos atos do grupo neonazista americano Ku Klux Klan e é suspeito de participar do foguetório contra o STF no último domingo – o que Sara negou no depoimento prestado hoje à Polícia Federal após sua prisão. Na ação, manifestantes ofenderam ministros da Corte e, em tom de ameaça, perguntaram se tinham entendido o recado e ordenaram que se preparassem. A pedido do presidente do Supremo, Dias Toffoli, a Procuradoria-Geral da República autorizou a abertura de uma investigação preliminar para que os participantes e financiadores do ato sejam identificados e responsabilizados.

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