Canal 40, o ‘QG da propina’ na Paraíba

Canal 40, o ‘QG da propina’ na Paraíba

Delatores da Operação Calvário/Juízo Final relataram a reforma ‘suntuosa’ no escritório preparado para ‘inocular’ membros da organização criminosa ‘nos poderes Executivo e Legislativo paraibanos’

Pedro Prata

18 de dezembro de 2019 | 10h00

O Canal 40 era a estrutura física, localizada na rua Waldemar Pereira do Egito, 289, Mangabeira, João Pessoa, que abrigou ‘verdadeiro quartel-general’ da suposta organização criminosa que cobrou propinas de até R$ 134 milhões da Saúde e que entregou até R$ 4 milhões em espécie na Granja Santana, residência oficial do Governo, na gestão de Ricardo Coutinho (PSB).

Ex-governador de 2011 a 2018, Coutinho é alvo da Operação Calvário/Juízo Final, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça, 17. Relatos de delatores atribuem a Coutinho o papel de ‘líder’ da organização. A Justiça decretou sua prisão preventiva. Da Europa, onde curte férias ‘previamente programadas’, o ex-governador divulgou em sua página no Instagram que vai antecipar o retorno ao País.

O atual governador, José Azevêdo (sem partido), também foi alvo de buscas.

Ricardo Coutinho, ex-governador da Paraíba, é apontado como líder de organização criminosa que desviou mais de R$ 134 mi da Saúde. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A intenção do Canal 40, segundo a Promotoria, era ‘inocular membros da organização nos poderes Executivo e Legislativo paraibanos’, sobretudo àqueles do PSB, com o intuito de proporcionar ‘os melhores recursos, centralizados em uma grande estrutura e com altíssimo padrão de qualidade’.

Palácio da Redenção, sede do governo paraibano. Foto: Google Maps/Reprodução

Entre os candidatos que teriam passado pelo local, a delatora Maria Laura Farias destacou o governador João Azevêdo.

Embora fosse servidora da Procuradoria-Geral do Estado, ela ficava integralmente no quartel-general da propina. “Muitas reuniões eram realizadas à noite. Ao saber que João Azevêdo iria, Livânia foi atrás dos móveis para arrumar o gabinete. João Azevêdo começou a atender lá no período do mês de agosto.”

Foto: PF/Reprodução

Livânia Farias foi procuradora-geral da Paraíba, no primeiro governo Ricardo Coutinho. Depois, foi nomeada secretária de Estado da Administração. Cercada pela Calvário/Juízo Final, ela fechou acordo de delação premiada e relatou entregas de até R$ 4 milhões na residência oficial do governador.

Ficou a cargo de Ivan Burity, ex-chefe de Governo de Coutinho, comandar a reforma do espaço que, segundo a delatora Livânia, seria de propriedade da irmão do ex-governador.

Burity, então, captou os valores junto a diversas empresas, sempre coletando valores entre R$ 100 mil e R$ 200 mil, diz o Ministério Público. “(Burity) Ressaltou, ademais, que a busca por patrocínio foi intensa, na medida em que, por conta de obras complementares solicitadas por Ricardo Coutinho e Livânia, o orçamento ultrapassou a barreira de R$ 1 milhão.”

Livânia Faria, procuradora-geral da Paraíba de 1.º de janeiro a 29 de junho de 2011. Foto: PGE-PB/Divulgação

As instalações do Canal 40, segundo informações de Burity, ficaram suntuosas – estúdios climatizados e isolados acusticamente, bloco de comando com escritório e suíte para Ricardo Coutinho, salas com antessalas para candidatos, várias salas para reunião, salas para produção de vídeos e spots de rádio, refeitório, cozinha, 17 estacionamentos cobertos, complexo de salas para o jurídico, duas recepções independentes, sala para T.I e um muro reforçado.

“Essa estrutura teria sido utilizada nas campanhas posteriores e incubadas todas as campanhas da empresa criminosa de 2012 a 2018, servindo como ponto de apoio para tratativas ilícitas”, diz a Promotoria.

COM A PALAVRA, RICARDO COUTINHO

Em sua página no Instagram, o ex-governador da Paraíba postou.

“Fui surpreendido com decisão judicial decretando minha prisão preventiva em meio a uma acusação genérica de que eu faria parte de uma suposta organização criminosa.

Com a maior serenidade digo ao povo paraibano que contribuirei com a justiça para provar minha total inocência. Sempre estive à disposição dos órgãos de investigação e nunca criei obstáculos a qualquer tipo de apuração.

Acrescento que jamais seria possível um Estado ser governado por uma associação criminosa e ter vivenciado os investimentos e avanços nas obras e políticas sociais nunca antes registrados.
Lamento que a Paraíba esteja presenciando o seu maior período de desenvolvimento e elevação da autoestima ser totalmente criminalizado.

Estou em viagem de férias previamente programada, mas estarei antecipando meu retorno para me colocar à inteira disposição da justiça brasileira para que possa lutar e provar minha inocência.

Ricardo Vieira Coutinho”

COM A PALAVRA, O PSB

Por meio de nota, a assessoria de comunicação do PSB informou. “Em face da Operação Calvário, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira, 17, no Estado da Paraíba, o Partido Socialista Brasileiro reafirma, como sempre, seu total apoio à apuração dos fatos, respeitados o devido processo legal e o amplo direito de defesa. O PSB reitera sua confiança na conduta do ex-governador Ricardo Coutinho e dos demais investigados e investigadas, na certeza de que uma apuração isenta e justa resultará no pleno esclarecimento das denúncias.”

Documento

COM A PALAVRA, O GOVERNO DA PARAÍBA

Por meio de nota, o governo da Paraíba disse. “O Governo do Estado, diante das operações de buscas e apreensões ocorridas nesta terça-feira (17) nas dependências da administração estadual, por conta da Operação Calvário, vem esclarecer que desde o início da atual gestão tem mantido a postura de colaborar com quaisquer informações ou acesso que a Justiça determinar em seus processos investigativos.”

COM A PALAVRA, OS DEMAIS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com a defesa dos investigados. O espaço está aberto para manifestação. (pedro.prata@estadao.com)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: