‘O meu 13º já tá certo’, diz Ricardo Coutinho no grampo

‘O meu 13º já tá certo’, diz Ricardo Coutinho no grampo

Ex-governador da Paraíba, alvo de mandado de prisão na Operação Calvário/Juízo Final, foi interceptado em novembro de 2017 supostamente ajustando valores de propinas em conversa com Daniel Gomes, que fechou acordo de delação premiada

Pepita Ortega, Pedro Prata e Fausto Macedo

17 de dezembro de 2019 | 17h00

O ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB) caiu no grampo ajustando supostos valores de propinas milionárias com seu interlocutor, Daniel Gomes, delator da Operação Calvário/Juízo Final, deflagrada nesta terça, 17.

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Operador da Cruz Vermelha do Brasil no Rio Grande do Sul e do Instituto de Psicologia Clínica Educacional e Profissional, Daniel Gomes seria integrante do ‘núcleo econômico’ da organização criminosa liderada pelo ex-governador, segundo o Ministério Público.

Entre 2011 e 2019, o Estado da Paraíba gastou R$ 980 milhões com a Cruz Vermelha. Para o Instituto, entre 2014 e 2019, foram desembolsados R$ 270 milhões.

Daniel Gomes disse em sua colaboração que teria sido o ex-senador Ney Suassuna quem teria lhe falado sobre a possibilidade de fazer negócios na Paraíba. Suassuna seria amigo de Ricardo Coutinho, então candidato a governador. O ex-senador disse que ele tinha grandes chances de vencer o pleito eleitoral e, mesmo que não ganhasse, ‘manteria o domínio (poder) sobre a prefeitura de João Pessoa, subsistindo a oportunidade de negócio’. A partir daí, Daniel Gomes foi apresentado a Ricardo Coutinho.

Três atos publicados por Coutinho no prazo de três dias foram suficientes para viabilizar juridicamente a contratação da Cruz Vermelha. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O Ministério Público afirma que dois pagamentos no segundo semestre de 2010 selaram o pacto entre Gomes e Ricardo Coutinho. O primeiro, R$ 200 mil, foi pago antes da eleição daquele ano, em virtude da promessa de acordos no caso de vitória de Coutinho.

O segundo pagamento foi feito após a vitória de Coutinho em forma de doação eleitoral. Foram R$ 300 mil, que Gomes tomou emprestado com seu pai. “Todavia, por suposto equívoco, este se utilizou de uma conta pertencente a Jaime Gomes da Silva, tio de Daniel Gomes,o que haveria ensejado questionamentos pelo Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, em razão da ausência de lastro financeiro para a doação.”

Já em 2011, Ricardo Coutinho teria sido convidado por Daniel Gomes para implementar o sistema de Organizações Sociais na Paraíba. A contratação da Organização Social seria definida pelo colaborador em conjunto com Livânia Farias, Jovino Neto e Waldson Souza.

“Verificou-se que o melhor modelo para atender aos interesses da empresa criminosa seria a utilização da gestão pactuada”, explica a promotoria, “opção cuja implantação seria facilitada pela existência de uma certa estrutura normativa no Estado da Paraíba, carecendo apenas de alguns ajustes”.

Durante os referidos estudos e tratativas, houve movimento grevista por parte do corpo médico do Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena (HETSHL), ocasião em que Ricardo Coutinho teria solicitado a intervenção de Gomes, a fim de minorar os efeitos da paralisação, e este, segundo relatou, providenciou o deslocamento de equipes médicas cariocas para prestar serviços de saúde no HETSHL, atuação que teria servido, na ótica ministerial, e sob aparente razão, até o momento, ‘para catalisar o processo de contratação da organização social que seria por ele comandada’.

Após esse momento, o ex-governador teria dado a Gomes a tarefa de procurar uma organização social capaz de viabilizar o modelo de governança corrupto no setor da saúde paraibana.

O governo estadual faria contratação emergencial direcionada à Organização Social indicada por Daniel Gomes, como forma de garantir o suposto esquema criminoso. Após o colaborador tratar da operacionalização com outros membros da ORCRIM, escolheu-se a Cruz Vermelha do Brasil – Filial do Rio Grande do Sul, em julho de 2011.

Palácio da Redenção, sede do governo paraibano. Foto: Google Maps/Reprodução

Três atos publicados por Coutinho no prazo de três dias foram suficientes para viabilizar juridicamente a contratação da Cruz Vermelha.

Em 4 de julho, o ex-governador publicou uma medida provisória que instituiu o sistema de Organização Social. No dia seguinte, a Secretaria de Administração publicou uma portaria qualificando a Cruz Vermelha do Brasil – Filial do Rio Grande do Sul como Organização Social. Por fim, em 6 de julho, seria assinado o contrato emergencial com a Cruz Vermelha para a gestão do Hospital de Trauma de João Pessoa.

A investigação aponta desvio de pelo menos R$ 134,2 milhões da área da saúde em benefício do esquema Coutinho. Outros setores da gestão também seriam fontes de propinas do ex-governador, que é procurado pela Polícia Federal. Fora do País, em ‘viagem de férias previamente programada’, Coutinho informou, via Instagram, que vai antecipar seu retorno ao País para colaborar com a Justiça. Ele nega ligação com organização criminosa que, segundo os investigadores, se instalou no Palácio da Redenção, sede do Executivo da Paraíba.

Em um diálogo grampeado, em novembro de 2017, Daniel Gomes é questionado sobre valores pelo então governador.

ACOMPANHE

Ricardo Coutinho: Aqui olhe, veja bem, nessa conta aqui…

Daniel Gomes: Hum

Ricardo Coutinho: …Até janeiro, ou seja, uma, uma cacetada só…

Daniel: Hã Ricardo…eu teria que ter vin… vinte e quatro milhões. É, no, nesse, nesse cenário é, no outro é 21

Ricardo Coutinho: Quer dizer.. é

Daniel: Mas aí o senhor tem que me dizer, olha eu não preci.., não tenho como… aquele… aquele negócio: quanto mais recursos eu tiver mais barato eu compro os aparelhos. Quanto mais eu conseguir dar de entrada… pagar a

vista… eu consigo o melhor preço, melhora o resultado. Aí é uma conta muito… isso é planilha aberta mesmo, como o senhor já sabe que a gente trabalha. Aí depende muito se você…Entendi Ricardo… vou pagando. Tá bom. Aí é uma decisão muito mais sua. Se o

senhor conseguir falar comigo, ‘Daniel olha só eu consigo ter sei lá, 10, 15 milhões, 10 é pouco, mas pelo menos uns 15… Se o senhor me garantir 15 em dois mil e… dezessete eu consigo inaugurar ele em janeiro. Aí depois o senhor me diz o que o senhor precisa para esticar ele…’olha, junho é pouco, eu quero que você me esti… dívida em parcelas iguais até outubro’, por exemplo

Ricardo Coutinho: A minha lógica tinha sido… a minha esperança tinha sido construir algo que eu tivesse 10 esse ano…

Daniel: Hummm..

Ricardo Coutinho: Mais 12 meses

Daniel: Então, na realidade o que o senhor tá falando é o seguinte: Faria-se 10 milhões de agora, ou 31 ou 34, eu não sei…

Ricardo Coutinho: É

Daniel Gomes: … ou 33 tá, é que na realidade eu tô, esse número eu só vou ter ele certo depois. Digamos que fosse 33, teria 23 que daria por 10 meses do ano que vem. Pra gente não deixar pra novembro e dezembro que é sempre difícil, novembro e dezembro, né? Ricardo Coutinho: Não, ao contrário , é o melhor mês, porque é o que entra mais, (ininteligível) mas no nosso caso não porque, por exemplo, décimo terceiro, prêmio, tudo eu guardo antes…

Daniel Gomes: E o senhor vai pagando também antes…

Ricardo Coutinho: Meio…

Daniel Gomes: Que você paga meio do ano já tá pagando décimo terceiro

Ricardo Coutinho: … meio do ano é, eu não tenho problema com essa história. O meu décimo terceiro já tá certo porque eu já fiz. Daniel Gomes: Entendi.

Ricardo Coutinho: Então, eu num (…)

Daniel Gomes: Então diluiria esse restante por 12 vezes?

Ricardo Coutinho: Por 12 vezes

Daniel Gomes: Tá bom, a princípio…

Ricardo Coutinho:  Coloque 11 vezes pra gerar tranquilidade…

Daniel: Pra gerar tranquilidade

Ricardo Coutinho: Por que dezembro…

Daniel: Pra não deixar o último mês

Ricardo Coutinho: É, né? Aí o ‘caba’ sai dia 31 aí..? E que estendesse pro restante do ano, são…

Daniel: Então a gente faria o seguinte, …é 11 parcelas de 2 milhões,vai dá 22 e a gentefaz 11 agora. 11 ou 12, vai só depender desse número aqui, 34 ou 31

Ricardo Coutinho: Aí você adianta

Daniel: Eu adianto. Faço até dezembro. Aí depois o senhor me diz como que eu faço

Ricardo Coutinho: Tá

Daniel Gomes: Faço lá pra Livânia (Farias, ex-procuradora-geral do Estado, que também fez acordo de delação premiada ), ou eu faço lá pro seu… o senhor define como é que faz tá? Eu só não fechei o número entre… a Cláudia tá com esse nú… com esse número mesmo viu governador,31…34, ou seja, no processo licitatório a minha intenção é cotar os 34 por, pra gente… eu acho que eu consigo trabalhar com menos tá?

Ricardo Coutinho: É mesmo? Que tá a maior loucura desse povo que fabrica que não tão vendendo pra canto nenhum

Daniel Gomes: Na realidade, o momento tá ótimo pra comprar

Ricardo: Hein?

Daniel Gomes: O momento tá ótimo pra comprar

Ricardo Coutinho: É, exatamente

(….)

Ricardo Coutinho: Certo, e esse adiantamento você vai me fazer…

Daniel Gomes: O adiantamento eu faço pro senhor, Aí de repente o se.., a gente dando tudo governador,a gente também não tem muito problema…se o senhor tiver precisando, mas a gente dá um jeito de antecipar…

Em outro diálogo, de 27 de novembro de 2017, o interlocutor de Coutinho fala em adiantamento de ‘1.5’.

Acompanhe:

Daniel Gomes: Tá bom! Última coisa que eu fiquei de ver com o senhor hoje foi o negócio do repasse do investimento e do destino. O do repasse de 10% do valor. O senhor ficou de me

dizer se eu passo pra Livânia ou se faço com alguém

Ricardo Coutinho: Como é que… quando é que seria isso?

Daniel Gomes: Então governador,hoje eu tô com 1.5 disponível, tá? Tá no Rio. Eu vou dar um jeito de trazer pra cá como o senhor me pediu, tá? O outro 1.5 eu acho que… enfim… no início de janeiro. (Você) me pediu que era até dezembro, (mas) como atrasou o contrato eu tô adiantando de outras fontes aqui. Não vai ser do investimento, que ainda vai demorar muito

Ricardo Coutinho: Livânia tá sabendo?

Daniel Gomes: Não!

Ricardo Coutinho: Então você poderia ver com o ‘Cori’ (Coriolano Coutinho, irmão do ex-governador)

Daniel Gomes: Vejo com o ‘Cori’ direto… encontrar com ele amanhã então, tá? Fechado? Eu já tive com ele hoje, eu ligo pra ele agora e faço.. Qualquer coisa eu já combino com ele, tá?

Daniel Gomes: O mensal depois do contrato… o senhor me define se esse também mensal segue com ele… por outro caminho… ou se vai por Livânia. Depois o senhor pensa

Ricardo Coutinho: Segue com ele! E ele (Coriolano) vai conversar com você acerca dos serviços né… dos serviços… do…

Daniel Gomes: Os serviços que o senhor tiver, tá à disposição!

Ricardo Coutinho: Dos serviços!

Daniel Gomes: Alguma coisa que tiver pros serviços… é o que… o pessoal sentar caso a caso, ver quem é parceiro quem não é parceiro, pra gente poder negociar pra poder funcionar

Ricardo Coutinho: Não é… evidentemente… quando.. o valor…

Em outra conversa grampeada, o ex-governador deixa claro seus métodos.

ACOMPANHE:

Ricardo Coutinho: Então, eu não deixo os caras respirar…Por que quando tá a gente já bota outro aqui   eu vou botando, vou botando, vou botando

Daniel Gomes: Não respira né, o cara não respira…

No anexo 9 do termo de colaboração premiada de Daniel Gomes, foi transcrito outro diálogo dele com Ricardo Coutinho.

O ex-governador é incisivo.

‘Me diz uma coisa, aquela contribuição tá sendo repassado?’

Daniel Gomes: Eu tô… se não falha a memória, com 800 em aberto com Livânia…

Ricardo Coutinho: Tá em aberto?

Daniel Gomes: Em aberto, 800, mas ela sabe direitinho… tô com a planilha… eu tô repassando pingado… eu só pedi pra ela segurar um pouquinho…

Ricardo Coutinho: Tá repassando… ah é… em qual o mês, o último?

Daniel Gomes: O último foi R$ 120 mil em agosto, no início de agosto, eu tenho planilha de tudo isso, se o senhor quiser, viu? …eu… eu tenho salvo na minha pendrive… eu tenho salvo também

Ricardo Coutinho: Teve nenhuma despesa nossa, né? …não precisa tá… nunca teve acesso…

Daniel Gomes: Não, é… 0 nosso total é 360 por mês

Ricardo Coutinho: É…

Daniel Gomes: E eu só tô em aberto com 800… na realidade… porque a gente… na realidade governador… teve uma parte…não sei se o senhor lembra, né?, que a gente antecipou de campanha

 

Uma conversa de 38 minutos e 50 segundos de duração, no dia 7 de agosto de 2018, levou os investigadores a concluírem que o então governador ‘discutiu um adiantamento de uma propina referente a equipamentos médicos e o repasse de propina relativo ao Hospital Metropolitano de Santa Rita e o Hospital Geral de Mamanguape’.

ACOMPANHE:

Ricardo Coutinho: Certo, e esse adiantamento você vai me fazer…

Daniel Gomes: O adiantamento eu faço pro senhor logo. Aí de repente o se… a gente dando tudo certo aqui governador, a gente também não teve (ininteligível)… se o senhor tiver precisando, mas a gente dá um jeito de antecipar, mas a princípio, eu… minha programação era pra novembro. Pra fazer o adiantamento. Já tá lá na minha conta isso já. Agora aqui governador, eu, é custo, eu não estimei nada de…de retorno, não sei se o … como é que o senhor quer fazer aqui, que Mamanguape que a gente até hoje não tem nada né?

Ricardo Coutinho: É

Daniel Gomes: No Trauma nosso valor é 380 atualmente, que a gente repassa por mês. Não sei se o senhor queria que fizesse uma regra de três a incluir isso aqui. Que não chegou nem incluir 100%, porque parte até, eu já tinha até um resíduo aqui de uns 50 e poucos mil que tá sobrando desse valor aqui, eu só arredondei porque sabia que esse número aqui eu já… é um número que u(interrompido)

Ricardo Coutinho: É, chegar a…

Daniel Gomes: Acho que pelo menos uns 200 ou 300…acho que caberia

Ricardo Coutinho: (ininteligível)

Daniel Gomes: Se o senhor me autorizar eu refaço isso daqui.

COM A PALAVRA, RICARDO COUTINHO

Em sua página no Instagram, o ex-governador da Paraíba postou.

“Fui surpreendido com decisão judicial decretando minha prisão preventiva em meio a uma acusação genérica de que eu faria parte de uma suposta organização criminosa.

Com a maior serenidade digo ao povo paraibano que contribuirei com a justiça para provar minha total inocência. Sempre estive à disposição dos órgãos de investigação e nunca criei obstáculos a qualquer tipo de apuração.

Acrescento que jamais seria possível um Estado ser governado por uma associação criminosa e ter vivenciado os investimentos e avanços nas obras e políticas sociais nunca antes registrados.
Lamento que a Paraíba esteja presenciando o seu maior período de desenvolvimento e elevação da autoestima ser totalmente criminalizado.

Estou em viagem de férias previamente programada, mas estarei antecipando meu retorno para me colocar à inteira disposição da justiça brasileira para que possa lutar e provar minha inocência.

Ricardo Vieira Coutinho”

COM A PALAVRA, O PSB

Por meio de nota, a assessoria de comunicação do PSB informou. “Em face da Operação Calvário, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira, 17, no Estado da Paraíba, o Partido Socialista Brasileiro reafirma, como sempre, seu total apoio à apuração dos fatos, respeitados o devido processo legal e o amplo direito de defesa. O PSB reitera sua confiança na conduta do ex-governador Ricardo Coutinho e dos demais investigados e investigadas, na certeza de que uma apuração isenta e justa resultará no pleno esclarecimento das denúncias.”

Documento

COM A PALAVRA, NEY SUASSUNA

A reportagem busca contato com a defesa do ex-senador. O espaço está aberto para manifestação. (pedro.prata@estadao.com)

COM A PALAVRA, O GOVERNO DA PARAÍBA

Por meio de nota, o governo da Paraíba disse. “O Governo do Estado, diante das operações de buscas e apreensões ocorridas nesta terça-feira (17) nas dependências da administração estadual, por conta da Operação Calvário, vem esclarecer que desde o início da atual gestão tem mantido a postura de colaborar com quaisquer informações ou acesso que a Justiça determinar em seus processos investigativos.”

COM A PALAVRA, OS DEMAIS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com a defesa dos investigados. O espaço está aberto para manifestação. (pedro.prata@estadao.com)