‘A responsabilidade pela anomalia que é a necessidade de defender publicamente a democracia hoje é do presidente e não da reação’, acusa Moro

‘A responsabilidade pela anomalia que é a necessidade de defender publicamente a democracia hoje é do presidente e não da reação’, acusa Moro

Ex-ministro considera a necessidade de defender publicamente a democracia no Brasil hoje uma ‘anomalia’ que se dá em reação direta ao que chama de ‘populismo autoritário’ do presidente Jair Bolsonaro

Fausto Macedo e Pepita Ortega

04 de junho de 2020 | 13h04

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sérgio Moro. Foto: Adriano Machado / Reuters

Na avaliação do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, a necessidade de defender publicamente a democracia no Brasil hoje é uma ‘anomalia’ que se dá em reação direta ao que chama de ‘populismo autoritário’ do presidente Jair Bolsonaro. A retórica do chefe do Executivo e de seus aliados sobre uma eventual ruptura institucional fez surgir novos movimentos e manifestações pelo respeito à Constituição e harmonia entre os Poderes. “A responsabilidade pela anomalia é do Presidente e não da reação”, acusou Moro ao Estadão.

Segundo o ex-ministro, as falas ‘autoritárias’ de Bolsonaro também têm impacto negativo sobre as Forças Armadas, tão citadas pelos apoiadores do presidente. Moro não vê risco de ação de exceção por parte das mesmas. “É constrangedor vê-las (as Forças Armadas) também tendo a necessidade de reafirmar continuamente seu compromisso com a democracia e de refutar os chamados autoritários do Presidente e de seus aliados”.

“Deveríamos estar discutindo questões de 2020: saúde, educação, segurança, emprego. Não temas da época da Guerra Fria”, disse ainda o ex-ministro.

Após atos bolsonaristas com faixas pedindo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal e até intervenção militar, as manifestações pró-democracia uniram adversários políticos e até torcidas de futebol. Novos movimentos tiveram adesão de centenas de milhares de pessoas poucos dias após seus lançamentos. Manifestantes foram às ruas em atos a favor da democracia e contra o presidente no último domingo e organizam protestos para o próximo fim de semana em São Paulo, Rio, Salvador, Belo Horizonte e outras cidades.

Como mostraram as repórteres Julia Lindner e Tânia Monteiro, levantamento da empresa AP Exata mostra que há nas redes sociais uma tendência de crescimento das manifestações anti-Bolsonaro, com argumentos de defesa da democracia. De acordo com a pesquisa, recentes mensagens postadas por seguidores do presidente indicam que a mídia e a esquerda buscam estimular os protestos para derrubar o presidente. Os próximos atos de rua também devem incorporar a pauta antirracista.

Para Moro, as movimentações em prol da democracia são positivos, mas segundo o ex-juiz devem ser eliminadas violência ou vandalismo em protestos.

Manifestação no último domingo em São Paulo. Foto: Divulgação

‘Terroristas’

Em reação às manifestações de rua do último domingo, Bolsonaro chamou manifestantes contrários a seu governo – grupos autointitulados antifascistas – de ‘marginais’ e ‘terroristas’. Na mesma linha, o vice-presidente Hamilton Mourão também classificou os participantes desses protestos como ‘baderneiros’, em artigo. Líderes de movimentos classificaram as reações de autoritárias.

O Estadão mostrou que o Palácio do Planalto teme que os atos em defesa da democracia e contra o governo federal cresçam e se tornem atos pró-impeachment. A fala de Bolsonaro sobre os manifestantes contrários a seu governo refletiu a preocupação expressada por aliados do governo nas redes sociais.

Além das declarações, alinhados ao governo, três deputados bolsonaristas já apresentaram projetos à Câmara dos Deputados com o objetivo de enquadrar movimentos antifascistas na lei antiterrorismo.

Novos movimentos

Entre os novos movimentos pró-democracia que surgiram após as falas dos bolsonaristas está o Estamos Juntos, movimento que se apresenta como ‘uma reunião de cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras que fazem parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia’. Até a manhã desta quinta, 4, o manifesto do grupo contava com mais de 275 mil assinaturas.

Há também o ‘Somos 70 por cento’, em alusão às pessoas que consideram o governo de Bolsonaro como ruim, péssimo ou regular, segundo a última pesquisa Datafolha; o manifesto Basta! elaborado por juristas e advogados contra os ataques do presidente às instituições democráticas e acusando Bolsonaro de cometer crimes de responsabilidade; e o Somos Democracia, que nasceu de forma autônoma dentro da torcida do Corinthians.

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