Campanha antivacina espalha bula desatualizada da Pfizer para questionar aplicação em adolescentes

Campanha antivacina espalha bula desatualizada da Pfizer para questionar aplicação em adolescentes

Anvisa autoriza imunizante para pessoas com mais de 12 anos desde junho, após a farmacêutica apresentar estudos que comprovam segurança e eficácia neste grupo

Samuel Lima

01 de outubro de 2021 | 15h00

É falso que a bula da Pfizer não recomende a aplicação do imunizante contra a covid-19 em adolescentes, como afirma um boato nas redes sociais. Postagens no Facebook espalham uma versão desatualizada do documento para questionar a segurança da vacina e alardear uma conspiração que não faz sentido. 

Desde 11 de junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza a aplicação da vacina em pessoas com mais de 12 anos. Esse pedido teve como base a apresentação de estudos desenvolvidos pela empresa farmacêutica nesta faixa etária. Após a autorização ser concedida, as informações foram alteradas na embalagem, em um procedimento padrão.

Em uma das postagens que circulam nas redes, um usuário do Facebook pesquisou pela bula da Pfizer e fez um print de uma site farmacêutico que não era atualizado desde 6 de junho deste ano. Na página, constava recomendação apenas acima de 16 anos. Acontece que, para o público de 12 a 15 anos, a Anvisa autorizou o uso da vacina da Pfizer apenas cinco dias depois. Essa autorização continua vigente até hoje, como mostra uma linha do tempo no site do órgão regulatório.

Qualquer pessoa pode consultar a bula das vacinas e de outros medicamentos neste endereço do site da Anvisa. A fonte oficial disponibiliza sempre os arquivos mais recentes, o que evita o risco de acessar algo que não está mais valendo. Em 30 de setembro, a bula da vacina da Pfizer, denominada Comirnaty, mostrava o seguinte trecho sobre a prescrição para crianças e adolescentes: “Não se recomenda a sua utilização em crianças com idade inferior a 12 anos”. Ou seja, o produto é indicado acima dessa faixa etária.

De acordo com informações da Anvisa, a competência para solicitar a inclusão de novas indicações na bula é do laboratório, e a solicitação deve ser fundamentada em estudos que sustentem a indicação pretendida, tanto em relação aos aspectos de segurança quanto de eficácia. Após a alteração, a empresa tem até 180 dias para aderir ao novo formato em todos os lotes.

Além de autorizar o uso de medicamentos no Brasil, a Anvisa é o órgão responsável por verificar se as informações que constam na bula estão de acordo com as diretrizes técnicas e eventualmente solicitar mudanças aos fabricantes. A agência deve garantir que dados sobre dosagem, contraindicações, reações adversas, prazo de validade e outros aspectos sejam transmitidos de maneira adequada aos profissionais de saúde e aos pacientes. 

Da mesma forma, qualquer potencial risco associado posteriormente ao medicamento, ainda que raro, precisa constar no documento. A Anvisa pediu a inclusão de casos de miocardite e pericardite após a vacinação na bula da Comirnaty, por exemplo, que tiveram ocorrência extremamente baixa, geralmente em homens jovens e até 14 dias depois da segunda dose. Esses dois tipos de inflamação cardíaca costumam ser leves e têm tratamento. A população deve procurar atendimento médico caso tenha sintomas como dor no peito, palpitações e falta de ar.

Campanha antivacina

O boato aqui checado ganhou força depois que o Ministério da Saúde suspendeu a aplicação de vacinas em adolescentes de 12 a 17 sem comorbidades, em 16 de setembro — decisão que veio a ser revertida em menos de uma semana. Na época, a pasta justificou a medida por conta da investigação da morte de uma adolescente de São Bernardo do Campo (SP), mas uma possível relação causal com a vacina foi descartada posteriormente. Ela era portadora de uma doença rara conhecida como Púrpura Trombótica Trombocitopênica (PTT), segundo diagnóstico assinado por 70 especialistas.  

Em uma live com apoiadores, o presidente Jair Bolsonaro disse que fez o pedido diretamente ao ministro Marcelo Queiroga. “Minha conversa com o Queiroga não é uma imposição. Levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que vejo, o que chega ao meu conhecimento”, disse Bolsonaro, distorcendo em seguida um posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS não é contrária à imunização de adolescentes, apenas recomenda que esse grupo seja vacinado depois de outros com maior risco.

A Anvisa divergiu do Ministério da Saúde e manteve a autorização do imunizante da Pfizer nesta faixa etária, destacando que o caso da jovem não estava confirmado naquele momento e que os benefícios superam os riscos. Além disso, o Estadão mostrou que parte dos Estados descumpriu a orientação dada pelo governo federal e continuou vacinando adolescentes sem comorbidades. 

Em 21 de setembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski declarou que Estados e municípios têm competência para decidir sobre o assunto em um pedido de liminar. No dia seguinte, o governo federal recuou da medida e liberou novamente a vacina da Pfizer para esse grupo. 

Nesse meio tempo, o Estadão Verifica constatou um aumento no volume de desinformação envolvendo as vacinas contra a covid-19. Recentemente, o blog mostrou que era falso um comentário feito por Cristina Graeml no programa Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, que associava cinco mortes de jovens com os imunizantes. Dois deles sequer haviam recebido vacinas, um caso foi descartado e os outros dois seguem sob investigação, sendo prematuro levantar hipóteses.

Em menos de duas semanas, o blog ainda desmentiu um título sensacionalista que distorcia dados sobre eventuais mortes de pessoas vacinadas; um vídeo que inventava uma suposta morte de uma jovem por parada cardíaca no Canadá, que nunca existiu, segundo autoridades de saúde locais; outro boato envolvendo uma morte por AVC de um jovem na cidade gaúcha de Vera Cruz, sem relação com vacinas; e supostos efeitos colaterais dos produtos que carecem completamente de evidências, como câncer e doenças autoimunes

Fique atento ao receber esse tipo de conteúdo, pesquise o assunto em fontes confiáveis ou envie como sugestão de checagem ao Estadão Verifica pelo WhatsApp: (11) 97683-7490. O Estadão também preparou uma série de dicas para evitar cair em fake news.

Esse boato também foi checado por Fato ou Fake e Boatos.org.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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