Petista reclama e opositor lucra

Petista reclama e opositor lucra

Acampamento em frente à Polícia Federal muda rotina da capital paranaense

Pedro Venceslau e Ricardo Brandt, enviados especiais a Curitiba

12 Abril 2018 | 05h00

Manifestantes pró-Lula acampados nos arredores da Polícia Federal, em Curitiba. Foto: THEO MARQUES/FRAMEPHOTO

Desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (condenado e preso na Operação Lava Jato) chegou à sede da Polícia Federal em Curitiba, no sábado passado, a vida do desempregado Eduardo Maciel, 20 anos, mudou drasticamente. Morador do pacato bairro Santa Cândida, na zona norte de Curitiba, há oito meses, ele e sua família (pai, mãe e três irmãos) viram na montagem do acampamento “Lula Livre” uma oportunidade de negócios.

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Uma placa na porta da casa explica o empreendimento: “Número 1 – R$ 2, número 2 – R$ 3, Banho: R$ 4, carregamento de celular – R$ 2.” “Faturamos entre R$ 300 e R$ 400 por dia”, disse ele ao Estado, enquanto organizava a fila do banho. Eleitor declarado do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), Maciel não se furta de falar de política com os militantes petistas que chegam em busca de algum alívio – ou higiene.

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“Voto no Bolsonaro. Vi os vídeos dele e gostei. Se o Lula está preso, não é por acaso”, afirmou o jovem, enquanto os integrantes da fila o olhavam com reprovação.

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Na esquina de cima, o aposentado Atahyde Carlos da Silveira, 59 anos, morador do bairro há 25 e eleitor de Lula e Dilma, reclamava da “vigília”. “Minha vida virou de pernas para o ar. Nossa liberdade de ir e vir está comprometida. Nem o carteiro consegue chegar mais aqui. Tenho que andar com comprovante de residência e não posso mais chamar convidados”, disse ele. Do dia para a noite (literalmente), cerca de 500 manifestantes, segundo a Polícia Militar (os organizadores falam em mil pessoas), se espalharam pelas ruas no entorno da Polícia Federal.

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A estrutura de funcionamento é a mesma dos acampamentos recém-criados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): há uma organização rigorosa, com divisão de trabalho, provisões de alimentação e água, estrutura provisória de moradia (barracas de lona improvisada e de camping).

‘Disciplina’. Mas, em vez de ocupar uma área rural verde ou de pastagem, está montada em pleno bairro residencial, de ruas planejadas com asfalto, calçadas de grama e ladeiras íngremes. No local também funciona uma subsede do PT nacional.

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“Eu sei que não é confortável abrir a porta de casa e ver isso. Mas estamos fazendo tudo com muita disciplina e respeito. Enquanto Lula estiver aqui, ficaremos. Esse é o nosso local de resistência”, disse a professora Vanda Santana, 49 anos, integrante da executiva do PT-PR e uma das coordenadoras do acampamento.

Ela disse que alguns moradores inicialmente avessos à vigília acabaram se envolvendo e abrindo suas casas para os militantes usarem o banheiro e tomar água. Um morador fez um pacto: liberou a água, mas depois que a coordenação aceitou pagar sua conta.

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Transferência. O cerco ao prédio da PF fez o Sindicato dos Delegados da Polícia Federal do Paraná pedir a remoção de Lula da unidade, alegando prejuízo aos serviços oferecidos à população e pelos riscos de segurança causados aos moradores e aos policiais.

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“Pessoas filiadas ao nosso sindicato trouxeram essa dificuldade. Ou seja, estão até sendo intimidadas ao saírem de suas casas. As ruas estão com problema de acesso, de saúde pública. Essa região da sede da PF não tem a mínima condição de receber esse condenado”, afirmou o presidente do sindicato, delegado Algacir Mikalowski.

O pedido foi apresentado ao superintendente regional da PF em Curitiba, delegado Maurício Valeixo. Em nota, a direção da PF informou que Lula está recebendo o mesmo tratamento aplicado aos “demais custodiados” no prédio.

Pela primeira vez desde que foi preso em uma cela no último andar da sede da PF, o ex-presidente vai receber nesta quinta-feira, 12, a visita dos filhos.