Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Pressionado, Bolsonaro adota discurso ameno em ato de apoio a seu governo

Em frente ao palácio, centenas de pessoas empunhavam bandeiras do Brasil e faixas de apoio ao presidente

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 15h47

BRASÍLIA – Pressionado pela crise na área de saúde e ameaçado de impeachment, o presidente da República, Jair Bolsonaro, participou neste domingo, 17, de um ato de apoio ao seu governo, em Brasília. Da rampa do Palácio do Planalto, Bolsonaro posou para fotos com 11 de seus 22 ministros, cantou o hino nacional e adotou um discurso ameno em uma transmissão ao vivo do ato. “Nenhuma faixa, nenhuma bandeira, que atente contra nossa Constituição, contra o Estado de Direito”, disse o presidente durante a transmissão, em relação aos manifestantes.

O comentário marca uma diferença em relação à postura adotada em atos anteriores, como o do dia 19 de abril, quando Bolsonaro participou de manifestação contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, em frente ao Quartel General do Exército.

Hoje, em frente ao palácio, centenas de pessoas empunhavam bandeiras do Brasil e faixas de apoio ao presidente. Mas algumas delas também traziam provocações, como “Nossa bandeira, jamais será vermelha”, em referência aos partidos de esquerda, e “Cloroquina já”, em defesa do uso do medicamento no tratamento de infectados com a covid-19. Havia ainda um caixão com o nome do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro.

Bolsonaro chegou à rampa acompanhado de ministros e de um dos filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também apareceu depois no local.   

Para inflamar os manifestantes, ele ergueu os braços de vários ministros, como se os estivesse apresentando ao público pela primeira vez. “Deixa ver se você tem moral”, chegou a dizer o presidente a um ministro antes de apresentá-lo.

Entre os ministros, estava a da Agricultura, Teresa Cristina, que entrou recentemente na lista de autoridades com cargos ameaçados. Também estava presente o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), Marcos Pontes, outro que pode sair do governo. Em Brasília, especula-se que Pontes pode dar lugar a um representante do Centrão, que se aproximou recentemente do presidente. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, não participou do ato.

Na rampa, Bolsonaro chegou a ficar por cerca de 4 minutos em silêncio, apenas observando os manifestantes. Eles cantaram o hino nacional e entoaram gritos de apoio.

Após fazer uma transmissão ao vivo em suas redes sociais, Bolsonaro pegou no colo uma criança, vestindo roupa completa do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Minas Gerais.

Com a criança, desceu a rampa e andou próximo à grade do palácio, mais perto do público. Ao contrário do visto em episódio anterior, no entanto, Bolsonaro não deu as mãos aos apoiadores, mantendo uma distância. Ele também estava de máscara, assim como os ministros.

Perto do fim do ato, manifestantes com bandeiras de Israel e dos EUA foram chamados para subir à rampa. O deputado federal Eduardo Bolsonaro pegou uma bandeira de Israel, entregue pelo público, e posou para fotos com ela.

O momento chamou a atenção justamente pela simbologia: Bolsonaro, ministros e demais autoridades presentes, na rampa do Palácio do Planalto – sede do governo brasileiro – posaram para fotos empunhando bandeiras do Brasil e de duas nações estrangeiras: Israel e EUA.

Já o público cantava sambas em apoio a Bolsonaro e uma paródia da música Florentina, do humorista e deputado federal Tiririca (PL-SP), com defesa do uso da cloroquina. “Cloroquina, cloroquina, cloroquina lá do SUS...”, cantaram os manifestantes.

Sem falar

Bolsonaro saiu do Palácio da Alvorada, em direção ao ato, sem falar com a imprensa. No Palácio do Planalto, apesar dos pedidos dos jornalistas, ele também não falou.

Bolsonaro ainda não se pronunciou sobre o pedido de demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich, na última quinta-feira. Além disso, o presidente ainda não falou sobre as novas informações surgidas a respeito de investigações que envolvem um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o empresário Paulo Marinho, pré-candidato à Prefeitura do Rio pelo PSDB, afirmou que Flávio teria recebido vazamento da Polícia Federal (PF) sobre investigações envolvendo seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

Em resposta nas redes sociais neste domingo, o senador classificou a acusação de "invenção" e afirmou que o empresário tem interesse em prejudicá-lo, já que é suplente de Flávio no Senado Federal. Flávio não participou do ato.

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