Gabriela Biló / Estadão
O presidente Jair Bolsonaro discursa em manifestacao contra o Congresso e a favor de intervencao militar em frente ao Quartel General do Exército em Brasília Gabriela Biló / Estadão

'Nós não queremos negociar nada', diz Bolsonaro em ato contra STF e Congresso

Presidente volta a provocar aglomeração na tarde deste domingo, ao discursar em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 15h06

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro elevou neste domingo, 19, o tom do confronto com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal e, diante do Quartel- General do Exército, pregou o fim da “patifaria” em uma manifestação que pedia intervenção militar no País. Com microfone em punho, Bolsonaro subiu na caçamba de uma caminhonete e fez um discurso inflamado para seguidores que exibiam faixas com inscrições favoráveis a um novo AI-5, o mais duro ato da ditadura (1964 a 1985), e gritavam palavras de ordem contra o STF e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

“Nós não queremos negociar nada. Queremos é ação pelo Brasil”, disse Bolsonaro, aplaudido por centenas de manifestantes. “Chega da velha política! (...) Acabou a época da patifaria. Agora é o povo no poder. Vocês têm a obrigação de lutar pelo País de vocês”.

Dezenas de cartazes sugeriam fechamento do Congresso e do Supremo, além de pedidos para que as Forças Armadas ocupassem as ruas. O grito de “Fora, Maia” era um dos mais ouvidos. Em nenhum momento, porém, o presidente contestou os apelos pela volta da repressão. O Estado apurou que militares reprovaram a atitude de Bolsonaro.

O protesto foi visto como preocupante por governadores, prefeitos e pelas cúpulas do Legislativo e do Judiciário, que enxergaram no gesto de Bolsonaro o sintoma de uma escalada autoritária no País, justamente no momento em que ele perde apoio e a pandemia do coronavírus se agrava. “Não temos tempo a perder com retóricas golpistas. (...) No Brasil, temos de lutar contra o corona e o vírus do autoritarismo”, escreveu Maia, no Twitter. Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o ministro do STF Luís Roberto Barroso foi na mesma linha. “É assustador ver manifestações pela volta do regime militar.”

Ainda neste domingo, 20 governadores divulgaram uma carta em apoio a Maia e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Para eles, Bolsonaro está “afrontando os princípios democráticos que fundamentam” a Nação.

Atos foram convocados pelo Dia do Exército

Embora Bolsonaro tenha tentado passar a ideia de que o ato foi de improviso, na esteira de carreatas pela reabertura do comércio, seguidores bolsonaristas convocaram as manifestações pelas redes sociais para comemorar o Dia do Exército. “O Brasil vai parar. Na frente dos quartéis”, dizia uma das convocações, ao pregar a “deposição” do Supremo e de governadores. Além disso, mensagens de WhatsApp traziam endereços de vários quartéis e batalhões pelo País. O texto era acompanhado das hasthags #abaixo STF e #abaixo Congresso Nacional.

Ao chegar nete domingo ao QG do Exército, por volta de 13h30 – após almoçar na casa do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), seu filho –, o presidente foi ovacionado por apoiadores. Apesar da recomendação da Organização Mundial da Saúde para que sejam evitadas aglomerações, com o objetivo de diminuir o risco de contágio da covid-19, o apelo não foi respeitado. Muitos bolsonaristas chegaram ao local em carreatas, que pediam o fim do isolamento social e a reabertura do comércio.

Bolsonaro provoca aglomeração ao discursar para multidão que pedia fechamento do congresso pic.twitter.com/IbDCLnNxMp

Presidente tossiu várias vezes

Pelo segundo dia consecutivo, Bolsonaro não poupou ataques aos outros Poderes e se empolgou com o apoio recebido. Parecia mesmo estar em um palanque de campanha. “Contem com o seu presidente para fazer tudo aquilo que for necessário para que nós possamos manter a nossa democracia e garantir aquilo que há de mais sagrado em nós, que é a nossa liberdade. Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”, discursou ele, que tossiu várias vezes durante o ato.

Na prática, a ofensiva de Bolsonaro contra o Congresso, o Supremo e governadores que defendem a quarentena tem aumentado de intensidade na mesma proporção de seu isolamento político. Na rampa do Planalto, na sexta-feira, o presidente criticou o Supremo em transmissão ao vivo pela internet e chegou até mesmo a apontar para o prédio da Corte ao lembrar que os magistrados deram autonomia a Estados e municípios para decretarem medidas de distanciamento social. “Estão fazendo o que bem entendem”, disse ele, que também atacou o Congresso. “Não vão me tirar daqui”, afirmou.

Na noite deste domingo, Bolsonaro se reuniu com os ministros da Defesa, Fernando Azevedo; do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, no Palácio da Alvorada. Questionado sobre o tema do encontro, Heleno foi lacônico: “Falamos sobre futebol”. Pela manhã, ao ler a Ordem do Dia, o comandante do Exército, general Edson Pujol, pregou a união do País e classificou a pandemia como “uma das maiores crises vividas nos últimos tempos”.

Distanciamento

Antes de falar com os manifestantes, o presidente voltou a defender a flexibilização do distanciamento social. “A continuar com o fecha geral não está difícil de saber o que nos espera”, escreveu o presidente em sua conta pessoal no Twitter.

Bolsonaro publicou no Twitter a manchete da edição deste domingo do Estado, que informou que 91 milhões de brasileiros - o equivalente a 58% da população adulta do País - deixaram de pagar neste mês pelo menos uma das contas referentes ao consumo de março.  Como comparação, no mês anterior, antes dos impactos da quarentena, eram 59 milhões (37%) com contas atrasadas - houve, portanto, um salto de 54% no período.

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Ministros do STF repudiam atos: 'assustador', 'saudosistas inoportunos'

Marco Aurélio Mello afirma que uma escalada autoritária está em curso; Barroso disse que é “assustador” ver manifestações pela volta do regime militar; e Gilmar Mendes critica quem pede AI-5

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 16h51

BRASÍLIA - Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) criticaram, neste domingo, protestos que pedem intervenção militar, fechamento do Congresso e do Supremo e deposição dos governadores. O presidente Jair Bolsonaro foi ao ato, em frente ao Quartel General do Exército em Brasília, e disse que não vai "negociar nada", pois a "velha política" acabou.

O ministro Marco Aurélio Mello chamou os manifestantes de "saudosistas inoportunos" e afirmou que uma escalada autoritária está em curso no Brasil. O ministro Luís Roberto Barroso disse que é “assustador” ver manifestações pela volta do regime militar, após 30 anos de democracia. Gilmar Mendes declarou que invocar o AI-5 é "rasgar o compromisso com a Constituição". 

O primeiro a se manifestar foi Barroso. “Só pode desejar intervenção militar quem perdeu a fé no futuro e sonha com um passado que nunca houve. Ditaduras vêm com violência contra os adversários, censura e intolerância. Pessoas de bem e que amam o Brasil não desejam isso”, escreveu Barroso no Twitter.

“É assustador ver manifestações pela volta do regime militar, após 30 anos de democracia. Defender a Constituição e as instituições democráticas faz parte do meu papel e do meu dever. ‘Pior do que o grito dos maus é o silêncio dos bons’”, afirmou o ministro, em referência a Martin Luther King, líder do movimento pelos direitos civis dos negros.

O ministro Marco Aurélio Mello disse ao Estado que não sabe onde o presidente está com a cabeça ao apoiar o que considera “maluquices”. 

“Tempos estranhos! Não há espaço para retrocesso. Os ares são democráticos e assim continuarão. Visão totalitária merece a excomunhão maior”, afirmou o ministro da Corte ao ser questionado sobre os protestos. “Saudosistas inoportunos. As instituições estão funcionando”, emendou sobre os participantes dos protestos. 

Marco Aurélio relembrou que, em 1983, fez a Escola Militar de Guerra, e questionou a postura de Bolsonaro, que é capitão reformado do Exército. “Conheço os militares. Observam a disciplina, a hierarquia e não apoiam maluquices. Não sei onde o capitão está com a cabeça”, declarou sobre a participação do presidente da República nas manifestações.   

Indagado pelo Estado se teme uma escalada autoritária no País, Marco Aurélio disse que não, mas que o movimento já está em curso. “Temer (a escalada autoritária), não. Mas que já está em curso, está”, afirmou. 

O ministro disse, ainda, que em 2017 manifestou preocupação pelo Brasil com a eleição “desse populista de direita”, mais uma vez sem citar o nome de Bolsonaro diretamente. “Premonição? Não. Experiência, considerado o contexto mundial e a vida pregressa, parlamentar dele. Quem viver verá”, declarou. 

O ministro Gilmar Mendes também se manifestou pelas redes sociais. "A crise do coronavirus só vai ser superada com responsabilidade política, união de todos e solidariedade. Invocar o AI-5 e a volta da Ditadura é rasgar o compromisso com a Constituição e com a ordem democrática #DitaduraNuncaMais", escreveu. 

O procurador-geral da República, Augusto Aras, não quis comentar o gesto do presidente e reiterou o que havia declarado na semana passada. "Precisamos estar atentos para que uma calamidade pública não evolua para modelo de estado de defesa ou de sítio, porque a história revela que nesses momentos podem surgir oportunistas em busca de locupletamento a partir da miséria e da perda da paz que podem resultar em graves comoções sociais", afirmou Aras.

Ao discursar de improviso para uma multidão que o aguardava em frente ao Quartel General do Exército, Bolsonaro disse que não irá “negociar nada”, defendeu “acabar com essa patifaria” e afirmou que “esses políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”. O protesto em Brasília contou com várias faixas com menções ao AI-5 e a uma intervenção militar”.

O AI-5 foi o Ato Institucional mais duro instituído pela repressão militar nos anos de chumbo, em 13 de dezembro de 1968, ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e Estados. Também suspendeu quaisquer garantias constitucionais, como o direito a habeas corpus, e instalou a censura nos meios de comunicação. A partir da medida, a repressão do regime militar recrudesceu.

Bolsonaro vem acumulando desgastes com o Congresso e governadores de todo o País por conta do enfrentamento do novo coronavírus. O presidente defende um relaxamento do distanciamento social por temer o impacto do isolamento sobre a economia brasileira.

Na semana passada, o STF impôs uma derrota ao Palácio do Planalto e decidiu que governadores e prefeitos também podem tomar medidas de isolamento para evitar o avanço da pandemia.

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Comandante do Exército diz que pandemia é uma das maiores crises dos últimos anos

Edson Pujol afirmou ainda que 25 mil militares atuam nas ações de enfrentamento à covid-19

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 11h53

BRASÍLIA - Na data em que se comemora o dia do Exército Brasileiro, o comandante da força, general Edson Pujol, classificou a pandemia do novo coronavírus como "uma das maiores crises vividas pelo Brasil nos últimos tempos".  Segundo a instituição, 25 mil militares estão atuando nas ações de enfrentamento à covid-19 no País. 

Em Brasília, apoiadores de Jair Bolsonaro preparam manifestações para a tarde deste domingo, em defesa do Exército e também do presidente da República. Sites e grupos bolsonaristas na internet também marcaram carreatas para o dia de hoje pedindo a "deposição" do Supremo Tribunal Federal (STF) e de governadores. A mensagem do comandante do Exército diz que a força está à disposição do País caso seja solicitada. 

Sobre a pandemia, o general Edson Pujol afirmou que tem apoiado o governo federal, Estados e municípios em ações como construção de hospitais de campanha, desinfecção de instalações públicas, produção de medicamentos e materiais de proteção individual. Os militares também têm atuado na distribuição de alimentos e participado de campanhas de conscientização, vacinação e doação de sangue.

"Quase  quatro séculos nos separam dos feitos dos heróis da Batalha de Guararapes. Aqueles brasileiros lutaram sem temor para defender o território colonial do invasor estrangeiro e, ao mesmo tempo, inauguraram um sentimento genuíno de pertencimento à terra e de amor à Pátria. Plantaram a semente de um país forte e soberano, de um povo capaz, guerreiro e solidário", escreveu o comandante do Exército.

"À altura de sua grandeza, o Brasil possui, hoje, uma Força Terrestre comprometida, preparada e eficiente, em sintonia com as necessidades e aspirações do país. (...) Nação brasileira, nossa razão de ser e existir, conte sempre com o braço forte e a mão amiga do seu Exército. Amálgama da sociedade, cônscios dos nossos deveres de militar e cidadão, dos Pampas à Amazônia, do litoral ao Pantanal, exclusivamente dedicados, disciplinados, aptos e capacitados, somos 220 mil combatentes prontos para lutar sem temor!", concluiu o general Edson Pujol.

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Estimulados por Bolsonaro, apoiadores fazem manifestação na Paulista

Grupos pequenos de manifestantes foram às ruas em São Paulo, Brasília e mais quatro cidades; no Rio Grande do Sul, mulher foi agredida

Tiago Aguiar, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 17h39

Estimulados pelo presidente Jair Bolsonaro, manifestantes foram às ruas de São Paulo neste domingo, 19, pelo segundo dia consecutivo em apoio ao governo federal e contra o isolamento social. Uma faixa de um quarteirão da Avenida Paulista chegou a ser fechada à tarde. Ontem, o número de mortes no Estado pela covid-19 passou de mil.

Bolsonaro fez uma participação no ato, via chamada de voz, por meio do celular do publicitário Sérgio Lima, que trabalha no partido em formação Aliança pelo Brasil. Nem todos conseguiram ouvir a chamada, devido ao barulho que faziam os manifestantes.

Os organizadores haviam convocado carreatas, mas muitos manifestantes participaram a pé, o que causou pontos de aglomeração, com concentração em frente à sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Nos dois dias, carros e motos partiram do ginásio do Ibirapuera.

Assim como havia ocorrido em manifestação semelhante ocorrida no sábado, manifestantes atacaram o governador João Doria (PSDB) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e criticaram o Supremo Tribunal Federal (STF) e a imprensa. Além de Brasília e São Paulo, houve atos em ao menos quatro capitais – Rio, Salvador, Porto Alegre e Manaus. Em Ribeirão Preto, a carreata deste domingo foi proibida por um juiz a pedido do Ministério Público Estadual.

Tomé Abduch, porta voz do movimento Nas Ruas, ligado à deputada federal Carla Zambelli  (PSL-SP), convidou ao longo da semana para a carreata deste domingo e o movimento pedia para que as pessoas não saíssem dos carros.

"As nossas pautas serão 'Fora Rodrigo Maia', que ninguém mais suporta esse homem governando nosso país, 'o isolamento vertical responsável' e também a 'PL 149 não' que pode destruir o nosso país e dar para os governadores de todos os Estados um dinheiro gigantesco sem qualquer contrapartida", disse Tomé em vídeo postado nesta manhã.

O “isolamento vertical” é a o isolamento social apenas dos que estão no grupo de risco à exposição ao vírus, como maiores de 60 anos e portadores de doenças crônicas. A teoria é vista com ceticismo pela comunidade médica. O PL 149 foi aprovado nesta segunda-feira, 13, pela Câmara dos Deputados. O projeto que estabelece auxílio financeiro a Estados e municípios durante seis meses pela perda das receitas com arrecadação de impostos por causa da pandemia do novo coronavírus, o Senado resolveu priorizar um projeto próprio para poder dar a palavra final sobre a medida. Nesta semana o presidente disse, em entrevista à rede de TV CNN, que a atuaçãode Maia é “péssima” e insinuou que o parlamentar trama contra o seu governo

A página do Movimento Avança Brasil, movimento bolsonarista com maior número de seguidores, além do 'Fora Doria', pedia a saída do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e dos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. A página transmitiu imagens dos atos dos dois dias.

Mulher é agredida em Porto Alegre

A manifestação a favor de intervenção militar e pelo fechamento do Congresso e do Supremo terminou em confusão em Porto Alegre. Simpatizantes do presidente tentaram agredir uma mulher e seus amigos, que usavam uma máscara com os dizeres "Fora Bolsonaro". Uma mulher levou um soco quando tentou evitar a confusão, segundo boletim de ocorrência registrado no 1º DP da cidade. Ela tirou fotos do agressor e as encaminhou à polícia.

O presidente participou de ato em Brasília no início da tarde deste domingo. Na capital federal os manifestantes pediam o fechamento do Congresso Nacional, a volta do AI-5 e as Forças Armadas nas ruas.

Panelaços

Nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, na noite deste domingo, manifestantes protestaram contra o presidente. No Rio moradores da zona sul - como de Botafogo, Laranjeiras, Cosme Velho, Humaitá e Flamengo - promoveram panelaços e gritaram pedindo a saída do presidente. 

As manifestações têm acontecido diariamente, principalmente em resposta ao posicionamento de Bolsonaro frente à pandemia do coronavírus. O presidente defende a flexibilização do isolamento. 

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Discurso de Bolsonaro 'incentiva desobediência' e é 'escalada antidemocrática', dizem políticos

Parlamentares, presidentes de partidos e governadores criticaram discurso feito pelo presidente da República em ato que pedia fechamento do Congresso e intervenção militar

Pedro Venceslau e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 17h10

Lideranças políticas criticaram, neste domingo, 19, o discurso do presidente Jair Bolsonaro em uma manifestação que pedia o fechamento do Congresso e intervenção militar em Brasília. Os políticos classificaram como "grave", "incentivo à desobediência" e "escalada antidemocrática" a atitude de Bolsonaro de ir a um protesto antidemocrático e de incentivar a aglomeração de pessoas. 

Na tarde deste domingo, o presidente voltou a descumprir as medidas de isolamento social, provocou aglomeração em frente ao Quartel General do Exército, na capital federal, e se dirigiu aos manifestantes do alto de uma caminhonete. "Eu estou aqui porque acredito em vocês, vocês estão aqui porque acreditam no Brasil. Nós não iremos negociar nada", disse, enquanto a multidão pedia o fechamento do Congresso Nacional, a volta do AI-5 e as Forças Armadas nas ruas.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), repudiou os atos que ocorreram neste domingo contra o Congresso e em defesa de um novo golpe militar no País, que contaram com a participação do presidente Jair Bolsonaro. Pelo Twitter, Maia afirmou que pregar uma ruptura democrática durante a pandemia do novo coronavírus é uma “crueldade imperdoável” com as famílias das vítimas fatais da doença, que já chegam a quase 2.500 pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde. 

“O mundo inteiro está unido contra o coronavírus. No Brasil, temos de lutar contra o corona e o vírus do autoritarismo. É mais trabalhoso, mas venceremos. Em nome da Câmara dos Deputados, repudio todo e qualquer ato que defenda a ditadura, atentando contra a Constituição”, escreveu o presidente da Câmara na rede social. 

Com ênfase no combate à covid-19, Maia afirmou que “não temos tempo a perder com retóricas golpistas” e que é “urgente continuar ajudando os mais pobres, os que estão doentes esperando tratamento em UTIs e trabalhar para manter os empregos”.

“Defender a ditadura é estimular a desordem. É flertar com o caos. Pois é o Estado Democrático de Direito que dá ao Brasil um ordenamento jurídico capaz de fazer o País avançar com transparência e justiça social”, disse Maia na rede social. 

“São, ao todo, 2462 mortes registradas no Brasil. Pregar uma ruptura democrática diante dessas mortes é uma crueldade imperdoável com as famílias das vítimas e um desprezo com doentes e desempregados”, escreveu o presidente da Câmara na sequência. 

Líder do Podemos no Senado, o senador Álvaro Dias afirmou que a atitude de Bolsonaro é um "estímulo à desobediência". "Fica difícil aceitar essa transferência de responsabilidade para o Congresso do fracasso do governo federal", afirmou o senador. "A atitude de Bolsonaro hoje (com manifestantes) foi grave. É um estímulo à desobediência. O presidente age como se estivesse em um parque de diversões."

O ex-ministro Bruno Araújo, presidente do PSDB, afirmou que Bolsonaro coloca em risco a democracia e desmoraliza a Presidência: " O presidente jurou obedecer à Constituição brasileira. Ao apoiar abertamente um movimento golpista, ele coloca em risco a democracia e desmoraliza o cargo que ocupa. O povo e as instituições brasileiras não aceitarão".

Roberto Freire, presidente do Cidadania, classificou a atitude de Bolsonaro como uma "escalada antidemocrática". "O STF e o Congresso devem ficar em posição de alerta. O presidente está se aproveitando da pandemia para articular uma escalada anti-democrática. Além de um ato criminoso contra a saúde pública, foi um cirme de responsabilidade apoiar um ato que prega a volta do AI-5 e contra o Congresso e STF".

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também foi às redes sociais para criticar Bolsonaro neste domingo. "Lamentável que o Pr (presidente da República) adira a manifestações antidemocráticas. É hora de união ao redor da Constituição contra toda ameaça à democracia. Ideal que deve unir civis e militares; ricos e pobres. Juntos pela liberdade e pelo Brasil."

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que vem travando debates com Bolsonaro desde que determinou medidas de isolamento social para combater o coronavírus, assim como a maior parte dos governadores, chamou de "lamentável" a atuação do presidente neste domingo. "Lamentável que o presidente da República apoie um ato antidemocrático, que afronta a democracia e exalta o AI-5. Repudio também os ataques ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal. O Brasil precisa vencer a pandemia e deve preservar sua democracia."

O AI-5 foi o Ato Institucional mais duro instituído pela repressão militar nos anos de chumbo, em 13 de dezembro de 1968, ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e Estados. Também suspendeu quaisquer garantias constitucionais, como o direito a habeas corpus, e instalou a censura nos meios de comunicação. A partir da medida, a repressão do regime militar recrudesceu.

O governador Wilson Witzel (PSC) foi mais um político a se juntar ao coro criticando a presença de Jair Bolsonaro nos atos que pediam intervenção militar. Na visão de Witzel, o que Bolsonaro pratica não é democracia. "Democracia não é o que presidente Bolsonaro pratica: mandar o povo brasileiro para as ruas, correndo riscos de se contaminar, de tornar o nosso Brasil um país doente, em meio a uma grave crise de saúde mundial", afirmou. "Democracia é ter responsabilidade com o que se fala. Democracia é respeitar o Congresso, as instituições e ter uma postura condizente com o cargo que se ocupa."

Ministros do Supremo repudiam ato

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também criticaram, neste domingo, protestos que pedem intervenção militar, fechamento do Congresso e do Supremo e deposição dos governadores. O ministro Marco Aurélio Mello chamou os manifestantes de "saudosistas inoportunos" e afirmou que uma escalada autoritária está em curso no Brasil. O ministro Luís Roberto Barroso disse que é “assustador” ver manifestações pela volta do regime militar, após 30 anos de democracia. Gilmar Mendes declarou que invocar o AI-5 é "rasgar o compromisso com a Constituição". 

Bolsonaro vem acumulando desgastes com o Congresso e governadores de todo o País por conta do enfrentamento do novo coronavírus. O presidente defende um relaxamento do distanciamento social por temer o impacto do isolamento sobre a economia brasileira. Na quinta-feira, 16,, o presidente atacou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao dizer que acha que a intenção do parlamentar é tirá-lo da Presidência

Em reação às críticas, Maia disse que não entraria numa disputa pública com Bolsonaro: “O presidente não vai ter ataques (de minha parte). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores”, completou. Neste domingo, seu correligionário, o deputado Efraim Filho (PB), líder do DEM na Câmara, minimizou a participação do presidente da República na manifestação: "É hora de quebrar o retrovisor e pensar no amanhã em diante. Não é hora de trazer para o cenário mais uma crise política. A nação brasileira espera um gesto de paz e diálogo." 

Na oposição, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que vai entrar com uma representação contra Bolsonaro na Procuradoria-Geral da República (PGR). "O senhor presidente da República atravessou o rubicão da tolerância democrática e ofendeu a Constituição em vários aspectos. Ele atentou contra as instituições do Estado democrático de direito e ofendeu inclusive o código penal", declarou.

O PSOL publicou uma nota de repúdio, assinada pelo seu presidente, Juliano Medeiros. "Essa provocação soma-se a outras tantas e comprova que ele não tem mais condições de seguir governando. É preciso que Bolsonaro deixe o poder imediatamente, pelos meios constitucionais disponíveis, para que o Brasil não siga sob as ameaças de um genocida", diz a nota.

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Governadores divulgam carta em apoio a Maia e Alcolumbre

20 dos 27 políticos assinam o documento que fala em 'superar diferenças através do diálogo democrático'

André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 19h46

Uma carta assinada por 20 governadores e divulgada neste domingo, por meio do Fórum Nacional de Governadores, manifesta apoio aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), após ataques do presidente Jair Bolsonaro aos dois principais líderes do Congresso Nacional. Para os governadores que assinam o documento, Bolsonaro está "afrontando os princípios democráticos que fundamentam nossa Nação".

A carta é assinada por todos os governadores da região Sul e Nordeste. No Sudeste, só o Estado de Minas Gerais está ausente. No Centro-Oeste, a exceção foi o Distrito Federal. No Norte, não assinaram Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima.

"Nesse momento em que o mundo vive uma das suas maiores crises, temos testemunhado o empenho com que os presidentes do Senado e da Câmara têm se conduzido, dedicando especial atenção às necessidades dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios brasileiros", diz a carta. "Ambos demonstram estar cientes de que é nessas instâncias que se dá a mais dura luta contra nosso inimigo comum, o coronavírus, e onde, portanto, precisam ser concentrados os maiores esforços de socorro federativo", continua.

Os governadores afirmam que não há conflitos inconciliáveis entre a salvaguarda da saúde da população e a proteção da economia nacional, ainda que os momentos para agir mais diretamente em defesa de uma e de outra possam ser distintos. "Consideramos fundamental superar nossas eventuais diferenças através do esforço do diálogo democrático e desprovido de vaidades. A saúde e a vida do povo brasileiro devem estar muito acima de interesses políticos, em especial nesse momento de crise", defendem.

A carta afirma ainda que a ação dos Estados, no Distrito Federal e nos municípios tem sido pautada pelos indicativos da ciência, por orientações de profissionais da saúde e pela experiência de países que já enfrentaram etapas mais duras da pandemia, buscando, neste caso, evitar escolhas malsucedidas e seguir as exitosas.

Bolsonaro abriu fogo contra Maia na última quinta-feira, após demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). Em entrevista à rede de TV CNN, disse que sua atuação é "péssima" e insinuou que o parlamentar trama contra o seu governo. Em resposta, Maia afirmou que não vai atacar Bolsonaro.

Horas antes da entrevista do presidente à CNN, Maia havia assinado uma nota conjunta com Alcolumbre em defesa de Mandetta. No dia anterior, a Mesa Diretora da Câmara deu prazo de 30 dias para que Bolsonaro apresente à Casa o resultado dos seus exames para covid-19. No mesmo dia, Maia reagiu às críticas. "O presidente ataca com um velho truque da política, com a demissão ele quer mudar o tema", afirmou Maia, que disse não ter intenção de prejudicar o governo. "O presidente não vai ter ataques (de minha parte). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores", completou.

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