CAPÍTULO 03

O arriscado pôquer de Flávio Bolsonaro

O pedido do filho do presidente para suspender as investigações do MP Fluminense no caso Queiroz abre espaço para o imponderável e nacionaliza o problema ; a PGR pode, em tese, pedir uma apuração mais ampla - em direção ao Executivo

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2019 | 19h39

Caro leitor,

Em um movimento surpreendente, Flávio Bolsonaro piscou. Dois dias atrás, o procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, afirmou que poderia oferecer denúncia à Justiça sem ouvir o seu depoimento ou o de seu ex-assessor Fabrício Queiroz no caso das movimentações atípicas detectadas na Assembleia Legislativa do Rio pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Nesta quarta-feira, 16, porém, o primogênito do presidente Jair Bolsonaro obteve uma decisão de Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), em contradição com posicionamento anterior do próprio ministro, como mostrou o BR18. Fux supendeu as investigações do MP fluminense. O pedido de Flávio, porém, abre espaço ao imponderável. Nacionaliza o problema, levando-o para a procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Ela em tese pode pedir uma investigação mais ampla - em direção ao Executivo.

Até então, o deputado estadual em fim de mandato e senador eleito pelo PSL do Rio jogava simbolicamente uma espécie de pôquer que parecia não terminar. Mediu - assim como seu ex-assessor por mais de dez anos Queiroz - cada carta que baixou na investigação. Primeiro, repetiu que não tinha nada a ver com os atos do ex-subordinado, relembre aqui. Depois, faltou a depoimento para o qual fora convidado pelo MP - deixando para os últimos minutos o aviso de que não compareceria. Finalmente, manteve uma atitude cautelosa em relação à imprensa, limitando suas manifestações (após faltar ao convite com o MP) a uma entrevista a apenas uma emissora de TV. Nela, de novo, alegou inocência. 

Talvez seja só coincidência, mas o futuro senador mudou de postura a declaração de Gussem - até então paciente com os dribles que tomara de Flávio, de Queiroz e da família do ex-assessor. Aparentemente, o aviso cifrado do procurador-geral de que tentar adiar os depoimentos poderia não salvar Flávio e Queiroz de uma denúncia criminal alarmou o deputado. Assim, pouco depois da campanha eleitoral vitoriosa com a bandeira do combate à corrupção, o senador eleito pediu a suspensão da investigação - a mesma com a qual dizia não ter relação - com base em detalhes técnicos.

As reações da oposição, compreensivelmente, foram duras, mas o que chamou atenção foram as críticas entre bolsonaristas em uma semana de altos e baixos para o governo. Ela começou no sábado, 12, quando foi divulgado um vídeo em que Queiroz aparecia dançando e rindo com parentes, durante sua internação para tratamento de saúde. Foi, segundo fonte próxima ao ex-assessor, um momento de “descontração entre a família na virada” do ano. Queiroz faltou a depoimentos com a alegação de que enfrenta um câncer, o que o impediria de se apresentar ao Ministério Público. A repercussão foi ruim, mas a má impressão já tinha recuado depois de o presidente assinar o decreto flexibilizando a posse de armas, uma promessa da campanha presidencial. Era uma rara notícia positiva desde a posse, quando foi iniciada uma sucessão de decisões anunciadas com estardalhaço, seguidas de recuos constrangedores. A decisão favorável do STF, Corte malvista pelos bolsonaristas por tomar decisões supostamente a favor de "criminosos e corruptos", deu às reações um toque de ironia e mal-estar entre o conservadorismo recém-triunfante.

No fim da tarde desta quinta, 17, era claro que a chegada do caso Queiroz ao Supremo complica as coisas. A nacionalização do problema, até então tratado com extrema cautela pelo MP fluminense e agora assunto da mais alta Corte do País, aumenta as preocupações do presidente Jair Bolsonaro. Afinal, foi Bolsonaro pai que assumiu ser seu o dinheiro (R$ 24 mil) que, segundo o Coaf, foi transferido por Queiroz para a conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Seria o reembolso de um empréstimo, afirmou o presidente da República, sem apresentar documentos.

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Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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