Mourão e os generais são prisioneiros do governo Bolsonaro 

Consternação pelas acusações de Moro cedeu lugar à necessidade de se defender o governo com o qual se identificam plenamente

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 09h49

Caro leitor,

Eram 17 horas de sexta-feira, 24, quando Jair Bolsonaro e seu ministério produziram uma imagem histórica. Ali estavam cinco generais perfilados ao lado do homem que acabara de ser acusado de crimes que fariam ruborescer quem escreveu o Estatuto dos Militares. Os juristas do País já elencavam naquele momento sete condutas delituosas, em tese, praticadas pelo presidente: de corrupção à obstrução de Justiça. E, como se não bastasse, horas depois esse homem ainda seria confrontado pelas cópias de mensagens que o próprio enviou a Sérgio Moro. O silêncio dos militares diante do estupor da catilinária do ex-ministro cedeu, no entanto, lugar à interpretação de que o governo estava sob ataque e, nessa guerra, era preciso defendê-lo.  

Os cinco generais de Exército e o almirante presentes no palco queriam provar que não existe uma ala militar na Esplanada, mas um governo coeso de generais em torno do presidente. Nem mesmo o vice estava ausente, aquele que Carlos Bolsonaro suspeitava conspirar contra seu pai. Mais do que isso, nas horas seguintes partiu de Hamilton Mourão a sugestão do nome do desembargador federal Carlos Eduardo Thompson Flores para ocupar a pasta da Justiça. Thompson Flores é outro magistrado que ajudou a condenar Lula. Se fosse partida de xadrez, a manobra seria conhecida como "defesa Regina Duarte", aquela em que se troca um peão por outro, seis por meia dúzia.

Mourão conhecera Thompson Flores quando chefiara o Comando Militar do Sul (CMS). Em vez de conspirar, o vice tentou ajudar o presidente a superar a crise. Ele e os demais generais não abandonaram Bolsonaro porque sabem que os votos quem os tem é o presidente. É Bolsonaro quem faz o governo ter um mínimo de popularidade, o que o torna mais difícil de ser derrotado em 2022. Mourão é visto pelos que defendem a renúncia como mais um conservador, alguém previsível. Não é o que diz o próprio Bolsonaro. "Com todo respeito ao Mourão, ele é muito mais tosco do que eu. Muito mais tosco. Não é porque é gaúcho não. Alguns falam que eu sou até muito cordial diante de Mourão", disse o presidente há um mês. Um general que os conhece concorda com Bolsonaro.

Ele lembra que o vice ainda não foi testado diante de um Congresso que não lhe permita aprovar todos os seus planos ou de um Supremo que lhe negue "consertar" o País. "O Mourão ia endurecer. Pode acreditar. E o Exército vai estar com ele." A maioria dos oficiais não vê em Mourão os problemas de Bolsonaro - os filhos e o astrólogo da Virgínia. Por fim, a maçonaria também lhe daria apoio irrestrito. "Ninguém estaria tranquilo com Mourão, nem no Congresso, nem no Supremo. E este é mais um motivo para que Bolsonaro permaneça no cargo", disse um general que busca reacender a estratégia bolsonarista de levantar o temor de um governo militar com Mourão.  

E os demais generais da foto? Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, tem a seu favor o fato de ser amigo pessoal do presidente, e o mandamento da lealdade sempre pode ser lembrado pelo general. Ramos é tido, no mundo civil, como o homem que poderia moderar Bolsonaro, não só pelo seus contatos com os políticos como pela sua amizade com o mandatário. Tornou-se o primeiro quatro estrelas a deixar o Alto Comando do Exército para assumir um assento na Esplanada. Mantém-se fiel ao presidente e pede aos jornalistas que publiquem histórias positivas sobre a covid-19. Eles não estariam ajudando. Afinal, que importa se Bolsonaro chama a doença de "gripezinha"? O problema é a imprensa. Culpa-se o carteiro pelo aviso de cobrança.  

Um pouco a frente de Ramos na foto estava Walter Braga Netto, que coordena as negociações com parlamentares para a construção de uma nova base do governo no Congresso. A história vai registrar que no ato de demissão do delegado Maurício Valeixo, denunciado como falso por Moro, foi a assinatura do general de quatro estrelas que entrou no lugar daquela do ministro demissionário horas depois. Um dia antes, Braga Netto afirmara aos jornalistas que a saída de Moro havia sido negada pela assessoria do Ministério da Justiça. O general desmentia uma informação verdadeira. Quando não se pode falar sobre fatos, é melhor não brigar com eles e guardar silêncio. A ninguém é permitido desconhecer a prudência no exercício do poder.

 

Augusto Heleno, o quarto general da fotografia, é o homem que planejou a volta dos militares à política. Tentava fazer isso desde quando estava na ativa e se relacionava com os arrozeiros de Roraima. Na cena do Planalto, representava o grupo dos fidelíssimos, que deseja o conflito final contra o Congresso e o Supremo porque imagina os dois outros poderes da República como meros estorvos ao projeto que acredita resgatar o Brasil. E, por fim, estava ali o ministro da defesa, o general Fernando Azevedo e Silva, o homem que assinou uma nota na segunda-feira, dia 20, para afirmar que as Forças Armadas cumprem a Constituição. Só a necessidade de se produzir tal documento já demonstra o grau de esgarçamento da legalidade a que esse governo chegou.

Os generais estavam ao lado do presidente porque pensam como Bolsonaro e, concordando com o conteúdo de seu pensamento, discordam apenas da forma como ele se manifesta. E a razão é uma só: este é um governo de militares. Ele mantém o apoio da maioria dos oficiais da ativa e da reserva ouvidos desde sexta-feira pela coluna. Houve até quem chamasse Sérgio Moro de "traidor" e "dissimulado". "Era o homem certo no lugar errado", disse um coronel da Aeronáutica. Moro - concluiu -  não estava preparado para uma função que é antes de tudo política e a desempenhou como uma criança que nunca tocou a campainha da casa do vizinho.

Por fim, um general chegou a qualificá-lo como "socialista". Logo Moro, a Nêmesis de Lula, odiado pela esquerda, que se vira diante do constrangimento de torcer por "um empate" entre o ex-magistrado e o presidente. Mas, de todas as acusações, a mais interessante é a de traição. Ela mostra o tipo de lealdade que Bolsonaro exige de ministros e funcionários do Estado brasileiro. Trata-se de um governo em guerra. Incapaz de unir a Nação, ele aliena a maioria da população com seu ressentimento contra a cultura, a universidade e o pensamento crítico e com seu desrespeito às leis, ao bem comum e ao combate ao privilégio e à desigualdade.

E, assim, avolumam-se os inimigos imaginários e fabricados por Bolsonaro e quem se lhe opõe por escolha civilizatória. Uns poucos se lembraram do desabafo feito aqui pelo coronel Glauco Carvalho, da Polícia Militar de São Paulo. Até porque a maioria de seus colegas o criticou em redes sociais. Houve até quem o qualificasse como traidor, assim como agora fazem com Moro.  "Como militar, sinto-me envergonhado por tantas ações atabalhoadas, extravagantes, ridículas e mesquinhas", disse então o coronel.

À lista de Glauco, Moro acrescentou crimes: corrupção, obstrução de Justiça, advocacia administrativa, prevaricação, coação, falsidade ideológica e crime de responsabilidade. Tudo supostamente encoberto por mentiras. "Corrupção não é só receber dinheiro. É qualquer vantagem indevida.", explicou a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Resta aos quase 2,5 mil militares do governo a defesa de um projeto cada vez mais parecido com a velha política que se diziam opor. É difícil se desfazer de cargos, salários e da redenção que Bolsonaro lhes trouxe diante dos agravos dos últimos 30 anos. Mas o chefe exige em troca a adesão a um poder fundado na lealdade e na obediência. De modo que, em vez de Brasil novo, todos parecem rumar para um Gotterdammerung, o destino comum de quem se entrega como prisioneiro nas mãos de uma liderança carismática.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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