Capítulo 09

Heleno, o tradutor-mor de Bolsonaro

Sempre ao lado do presidente, general da reserva e ministro do GSI terá uma longa tarefa de interpretar o chefe e explicar o significado do bolsonarês, uma nova variação do nosso idioma

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 10h00

Caro leitor,

Tradutor é aquele sujeito que está sempre ao lado do chefe de Estado. Está nas fotografias no Salão Oval da Casa Branca ao lado dos presidentes. É visto onde nenhum outro mortal ou ministro aparece. Eles podem ser mais do que uma presença; são testemunhas da história, como o tradutor Viktor Sukhorev, que trabalhou para os líderes soviéticos Nikita Kruchev, Leonid Brejnev e Mikhail Gorbachev, esgueirando-se do Degelo à Glasnost.

Aliás, na época da KGB, todo tradutor era também um agente do serviço secreto russo e todos os que visitavam a URSS deviam estar cientes disso, mesmo os comunistas dos chamados partidos irmãos. Pois Jair Bolsonaro também foi encontrar na área da inteligência, o seu tradutor. Trata-se do general Augusto Heleno, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

No último sábado, Heleno saiu a campo pela enésima vez para interpretar o chefe, vítima da “distorção de jornalistas que não estão preparados para cobrir o presidente da República”. Um dia antes, no Amapá, o presidente, depois de ficar seis dias calado – o leitor viu em outra coluna – sobre a morte do músico Evaldo Rosa dos Santos, de 46 anos, atingido por disparos feitos por uma patrulha do Exército, em Guadalupe, no Rio, disse: “O Exército não matou ninguém. O Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de assassino. Houve um incidente. Houve uma morte. Lamentamos ser um cidadão trabalhador, honesto”.

Mas não foi um tenente, um sargento e sete soldados que foram presos? Não teriam disparado dezenas de tiro no carro do homem que estava com a mulher e o filho de cinco anos e ia para um chá de bebê? Se não era o Exército, quem teria matado o senhor Evaldo? Traficantes? Uma tempestade tomou conta das redes sociais após a declaração do presidente. E lá foi Heleno interpretar o que o chefe disse:

“O que ele disse foi o seguinte: o Exército não matou ninguém, o Exército é uma instituição que respeita profundamente os valores humanos e nunca matou ninguém. Quem matou, se aconteceu de alguém morrer na operação, foi alguém que o Exército vai responsabilizar pela morte”.

Heleno está sempre ao lado do presidente, não como os antigos tradutores, mas como os modernos, sentado ao lado do chefe durante as transmissões ao vivo do presidente nas redes sociais. Foi em uma delas que o ministro traduziu a declaração de Bolsonaro que disse dependerem das Forças Armadas a democracia e a liberdade no Brasil. Nela, o presidente fez o gesto que entronizou Heleno oficialmente em sua função de intérprete do chefe.

O general é, portanto, mais do que um Sukhorev. Em 1956, o russo traduziu Kruchev em uma recepção para os embaixadores ocidentais: “Gostem vocês ou não, a história está do nosso lado. Nós vamos enterrar vocês." E 13 embaixadores da Otan e o de Israel se retiraram. Sukhorev limitou-se a traduzir. Nunca foi autorizado pelo chefes a interpretá-los.

Na primeira “live” do presidente depois da eleição, Heleno ouviu o presidente dizer. “No Brasil, nós devemos às Forças Armadas a nossa democracia e a nossa liberdade, e assim é em todo lugar do mundo”, afirmou Bolsonaro. Em seguida, dirigindo-se a Heleno, o presidente perguntou: “O senhor achou o nosso pronunciamento polêmico? Deixa dúvidas?”

Com a licença do autor da frase, o chefe do GSI a traduziu. “Não, claro que não, isso não tem nada de polêmico, ao contrário, suas palavras foram feitas de improviso para uma tropa qualificada e foram colocadas exatamente para aqueles que amam a sua pátria.” O chefe agradeceu.

Antes ele já havia explicado o cansaço de Bolsonaro em Davos e dito que os valores depositados na conta de Michelle Bolsonaro – R$ 24 mil – por Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, eram uma quantia irrisória, o que isentava o chefe no caso. Heleno conhece Bolsonaro há muito tempo. Ele foi seu instrutor na Academia Militar das Agulhas Negras.

O general terá uma longa tarefa para interpretar o chefe e traduzir seus pensamentos e frases para jornalistas que não conhecem ou não sabem lidar com o bolsonarês, uma nova variação de nosso idioma, prática frequente de alguns presidentes da República no Brasil. Já teve de interpretar os sentimentos de Bolsonaro quando um repórter incauto resolveu comparar a visita do chefe à Terra Santa à passagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – aquele que está preso e condenado pela Lava Jato – por ali. “Pelo amor de Deus, tchau. Não misturem coisas heterogêneas.” E deixou a entrevista. 

O general pode ser indagado sobre o que chefe quer dizer com “nova política”, o que desejava ao classificar o nazismo como um regime de esquerda, por que Bolsonaro pensa que não houve ditadura no Brasil, como fazer um governo sem ideologia entregando o ministério da Educação e o das Relações Exteriores a discípulos de Olavo de Carvalho e qual a lei econômica que autoriza um governo de liberais a vetar a mistura de diesel ao chopp. Tarefa árdua a de Heleno. Seria mais fácil traduzir e interpretar Shakespeare.

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Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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