Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Os tuítes e os Tonhos da Lua de Jair Bolsonaro

Mensagem do presidente no Twitter que gerou críticas foi mais um episódio de sequência em que ficou clara a diferença entre gerir uma rede social e administrar um país

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2019 | 20h04

Caro leitor:

Tonho da Lua é o apelido maldoso que os amigos de Gustavo Bebianno deram a Carlos Bolsonaro. Interpretado por Marcos Frota, o personagem, com nítidos problemas mentais misturados a talento inato para a arte, esculpia na praia suas “Mulheres de Areia”. Assim se chamava a refilmagem de novela com o mesmo nome do drama, anos antes exibido pela antiga TV Tupi - ambas escritas por Ivani Ribeiro. Com alguns tuítes duros, o filho de Jair Bolsonaro derrubou Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência. Em sua incontinência com celular em punho, no entanto, Carlos não está sozinho. É o que mostra o próprio presidente, com o controverso vídeo exibindo uma cena deplorável em sua conta no  Twitter.

Não se trata de falso moralismo, nem de esconder a realidade, como seguidores do presidente classificaram essas manifestações de desagrado, ao defenderem o presidente dos ataques. Afinal, como defendeu o Estadão em editorial, o governo não é como as redes sociais.  Diferentemente do que gostaria, enquanto ocupar o Palácio do Planalto Bolsonaro não será só “o Jair”. Será o presidente do Brasil, com todo o ritual do cargo. Daí a repercussão internacional do episódio, prejudicial às imagens do Brasil e de  uma festa que traz recursos para o País. Houve quem atribuísse o episódio a uma suposta reação de Bolsonaro a protestos e críticas que recebeu no carnaval  - até na porta do condomínio onde tem casa, no Rio, teve bloco de protesto. Houve também sátiras ao caso Queiroz, um dos problemas que atormentam os Bolsonaro. Em uma delas, foliões estavam fantasiados de caixa eletrônico e cheques-laranja

O criticado tuíte do presidente foi mais um episódio em uma sequência que envolveu seus filhos, deixando um rastro de polêmicas que agitaram o carnaval. Mesmo antes da festa, a controvérsia rondava o Primeiro Clã, com a possibilidade de surgimento de novo candidato a Tonho da Lua no grupo mais próximo do presidente. Na sexta-feira, 1 de março, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) criticou a saída da prisão, concedida pela Justiça, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para ir ao velório do neto Arthur, de sete anos, vítima de meningite. Eduardo, o filho Zero Três, suscitou outras polêmicas. Foi dele, em boa parte, a indicação para o Ministério das Relações Exteriores de Ernesto Araújo, diplomata que assumiu o cargo com um discurso pitoresco, no qual misturou José de Anchieta e Raul Seixas, em meio a citações em grego e tupi-guarani e com ataques ao que chamou de “globalismo”. Após alguns problemas na política externa, como os expostos por Eliane Cantanhêde, Araújo passou a ser “protegido” por um “comitê de tutela” de militares, conforme revelou o Blog do Fucs, para evitar problemas mais sérios.

Ainda no campo das atitudes aluadas, inseriu-se, antes da festa, a desastrada mensagem do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que você leu primeiro aqui. O ministro é um bolsonarista “ideológico” que já criticara os brasileiros como selvagens em viagens no exterior. Agora, pedia às escolas que reunissem seus alunos para cantar o Hino Nacional - o ato deveria ser filmado , e o vídeo, enviado ao MEC - e também para ouvir a mensagem do ministério, encerrada pelo slogan de Bolsonaro na campanha. Pedido que causou revolta e protestos. A sequência de reações oficiais manteve o tom que tem marcado o novo governo, com uma série de recuos que terminou  na desistência do MEC.

Em meio à polêmica na Quarta-Feira de Cinzas, a oposição subiu o tom contra o presidente . Houve quem falasse em pedir à Procuradoria-Geral da República investigação do tuíte e até em pedido de impeachment. Mesmo entre apoiadores de Bolsonaro o vídeo causou críticas e confusão. O deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) repudiou a atitude do presidente. Sem mencioná-lo, Carlos Bolsonaro bateu no que chamou de “isentões”.  A polêmica, portanto, parece longe do fim. O perigo maior, porém, poderá vir em duas semanas: no dia 20, haverá lua cheia. Tonho poderá voltar - talvez até antes.

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