Reprodução/Facebook
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Ao lado de generais, Bolsonaro rebate críticas a fala sobre democracia e Forças Armadas

Em live nas redes sociais, presidente diz que condicionamento da democracia às Forças Armadas ocorre 'em todo lugar do mundo'

Julia Lindner, Mateus Fagundes e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2019 | 19h48

Em uma transmissão de vídeo nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro rebateu as críticas ao seu discurso na manhã desta quinta-feira, 7, quando disse que a liberdade e a democracia só existem “quando as Forças Armadas assim o querem”. Ao lado do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general Augusto Heleno, e do porta-voz da presidência, o general Otávio do Rêgo Barros, o presidente disse que “assim é em todo lugar do mundo” e reclamou que a frase gerou “as mais variadas interpretações possíveis”.

Em seguida, Bolsonaro passou a palavra para o general Heleno, e perguntou se o discurso deixava “alguma dúvida” sobre o compromisso do governo com a democracia. O general, elogiado por Bolsonaro por ser conselheiro de “momentos difíceis”, disse que não.

“Isso aí não tem nada de polêmico, ao contrário. As suas palavras foram ditas de improviso para um tropa qualificada e foram colocadas exatamente para aqueles que amam a sua pátria, aqueles que vivem diariamente o problema da manutenção da democracia e da liberdade”, disse Heleno. O ministro disse que houve uma tentativa de distorção do discurso. “No caso do Brasil, é claro que as Forças Armadas são o pilar da democracia e da liberdade.”

Assim como fez o vice-presidente, Hamilton Mourão, o ministro do GSI citou a situação da Venezuela para minimizar a fala do presidente, dizendo que são os militares venezuelanos que mantém Nicolás Maduro no poder. “Querem um exemplo, vejam a Venezuela, por que Maduro está sendo mantido? Porque as Forças Armadas estão dando segurança presidente quase deposto. Por que Fidel Castro durou tempo que durou? Porque as Forças Armadas cubanas mantiveram a ditadura. De acordo com a tendência das FA isso acaba sendo fator fundamental do regime de um país. Forças Armadas são pilar da democracia e da liberdade”, concluiu Heleno.

Por fim, o general Rêgo Barros citou o cientista político americano Samuel Huntington, conhecido pela análise do relacionamento entre os militares e o poder civil, e explicou a interpretação do papel do Exército no controle civil.“Ele advoga que as Forças Armadas devem a fortaleza desse controle civil. Naturalmente, as Forças Armadas já o são, por defenderem veementemente a democracia.”

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Bolsonaro rebateu críticas a participação de militares no governo dele. Segundo ele, há “muitos civis no governo” e espaço para militares.  “Não vale dizer que tem apenas militar aqui. Agora obviamente, porque eu sou militar, a gente dá uma atenção redobrada aos militares, que fazem o seu trabalho com muito zelo, como muitos civis que estão no nosso governo estão fazendo”, afirmou o presidente.

A fala foi feita após Bolsonaro elogiar o trabalho do ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e do diretor-geral do Departamento Nacional de infraestrutura de Transportes (DNIT), Antônio Leite dos Santos Filho. Ambos têm formação militar. 

Após se envolver em uma série de polêmicas ao longo da semana, Bolsonaro anunciou hoje que fará uma transmissão ao vivo em suas redes sociais todas as quintas-feiras para falar de assuntos variados. Os vídeos terão início sempre no mesmo horário, segundo o presidente, às 18h30. 

Em cerca de três horas, a transmissão desta quinta foi vista mais de um milhão de usuários. Já a última live do presidente, em dezembro, acumulou 1,6 milhão de visualizações no período de três meses. Desta vez, o vídeo foi compartilhado por mais internautas: foram 46,5 mil compartilhamentos em poucas horas, cerca de 7 mil a mais do que a transmissão anterior. 

Cartões corporativos

Na live, o ministro do GSI citou a posse presidencial, em 1.º de janeiro, como justificativa para o aumento de 16% nos gastos com cartões corporativos da Presidência da República. Conforme publicou o Estado, a despesa nos dois primeiros meses do ano chegou a R$ 1,1 milhão.

“Todo o aparato para a posse, a vinda de presidente estrangeiros, altas autoridades, é lógico que acabou fazendo com que o cartão corporativo aumentasse sua despesa”, disse Heleno.

O ministro ainda citou o fato de, no mesmo período de 2018, somente o presidente da República, sem vice-presidente, ter usado o cartão. “Em janeiro de 2018, era ‘o’ presidente da República. Não tinha nem vice-presidente. E agora, em janeiro de 2019, nós tínhamos o presidente que estava deixando o poder, o presidente que foi eleito e mais o vice-presidente”, afirmou Heleno. Segundo ele, “o assunto foi colocado na imprensa de forma incorreta”. A seu lado, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “a despesa majorada foi 16%”, mas “como um todo, de forma global, a despesa com cartões corporativos baixou 28%”.

Os dois números constavam do texto publicado pelo Estado e não foram questionados pelo presidente nem pelo ministro. A comparação feita pela reportagem não se resumiu ao ano passado, como citado por Heleno. O aumento de 16% se deu em relação à média de gastos nos dois primeiros meses dos últimos quatro anos – o que inclui os dois anos de governo Michel Temer e os dois últimos de Dilma Rousseff, quando havia vice. 

Além disso, o cálculo levou em consideração os gastos vinculados à Secretaria de Administração – responsável direta pelas despesas do presidente, seus familiares e residência oficiais. Não inclui a Vice-Presidência, que gastou R$ 28,4 mil no período.

Antes da publicação da reportagem, o Estado questionou a Secretaria de Comunicação da Presidência o motivo do aumento, mas não obteve resposta.

Bolsonaro ainda divulgou informações imprecisas sobre a Caderneta da Saúde da Adolescente, desenvolvida pelo Ministério da Saúde durante o governo Dilma. Ele disse que se tratava de uma caderneta de vacinação destinada a crianças a partir dos 9 anos, mas o material é direcionado a adolescentes entre 10 e 19 anos. Ele sugeriu rasgar páginas que seriam impróprias para os adolescentes.

Concurso

Durante a transmissão, Bolsonaro deu um “conselho” para quem tem interesse em prestar concurso público no País. Ao criticar a exigência de cursos de diversidade e prevenção ao assédio em edital para vaga de assistente técnico da Previ, voltada para funcionários do Banco do Brasil, Bolsonaro disse que quem entrar na Justiça contra o requisito “vai ganhar”. Ele deixou claro que está atuando junto ao banco para acabar com este tipo de exigência nos próximos editais.

A assessoria do Banco do Brasil esclareceu que os treinamentos exigidos são ‘autoinstrucionais’, de curta duração, e podem ser feitos pelo computador ou pelo celular. Além de “diversidade” e “Prevenção e Combate ao Assédio Moral e Sexual”, também é exigido curso de “Ética”. Todos os cursos têm menos de 2 horas de duração. A instituição também destaca que os pré-requisitos são usados para seleções internas, e não para concursos externos.

Ao comentar o episódio, que mencionou como “curiosidade”, Bolsonaro criticou o fato da instituição abrir concurso para a vaga de assistente técnico. “Olha só o nível de aparelhamento que existe no Brasil”, comentou. Ele também questionou a exigência dos cursos de diversidade e prevenção ao assédio moral e sexual, alegando que isso “é questão de educação, ninguém precisa fazer curso nesse sentido”.

Bolsonaro contou, ainda, que ligou para o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, para confirmar a informação. “Ele confirmou que o edital é verdadeiro, mas vigorou até 1.º de março. Nos futuros editais não teremos mais essa obrigatoriedade”, continuou. 

Ele disse que vai tentar interceder “para que se evite isso” e para abrir um novo prazo para aqueles que não possuem os cursos mencionados, mas, como alternativa, sugeriu que as pessoas entrem na Justiça contra a exigência. “Um conselho que dou a vocês. Se por ventura alguém for aprovado em um concurso que for exigido esse diploma, tu pode entrar na justiça que tu vai ganhar”.

“E aí, que que você acha, está preparado para fazer concurso?”, questionou Bolsonaro ao porta-voz, Rêgo Barros, que estava ao seu lado. Todos riram. Ele também fez a pergunta ao ministro do GSI, que respondeu aos risos que considera fazer o curso. ”A gente está rindo, mas não pode ser assim, pelo amor de Deus”, finalizou Bolsonaro.

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