Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Governo discute emprego da Força Nacional em manifestações marcadas para domingo em Brasília

Bolsonaro tem criticado manifestantes contra sua gestão, numa tentativa de criminalizar os movimentos, que rebatem o presidente

Tânia Monteiro, Daniel Weterman, Nicholas Shores e Luci Ribeiro, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2020 | 09h40
Atualizado 08 de junho de 2020 | 17h55

BRASÍLIA - O governo federal vai discutir nesta sexta-feira, 5, a necessidade de empregar a Força Nacional de Segurança Pública nos protestos do próximo domingo, 7, quando estão previstos atos a favor e contra o presidente Jair Bolsonaro em Brasília. As discussões envolvem o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Polícia Militar do Distrito Federal, responsável pela segurança da capital federal.

Bolsonaro tem criticado manifestantes contra seu governo, numa tentativa de criminalizar os movimentos, e citou a Força Nacional durante discurso na inauguração de hospital de campanha em Águas Lindas de Goiás nesta manhã. Ele voltou a pedir que seus apoiadores não participem dos atos marcados para o domingo, sinalizando que isso ajudaria a identificar os que ele chamou de "marginais". "Que o outro lado que luta pela democracia, que quer o governo funcionando e quer um Brasil melhor e preza por sua liberdade que não compareça às ruas nesses dias para que nós possamos, a Força de Segurança, nossas forças estaduais bem como a nossa Federal façam seu devido trabalho, por ventura, esses marginais extrapolem os limites da lei", afirmou. 

Na noite de quinta-feira, 4, na "live" semanal que faz nas suas redes sociais, já havia chamado os integrantes de grupos que pretendem ir às ruas no domingo de “marginais” e “viciados”. Na terça-feira, classificou os manifestantes de terroristas.

Apesar do pedido de Bolsonaro para que seus apoiadores não saiam às ruas no domingo, grupos convocaram atos a favor do governo. A concentração está marcada para as proximidades da Torre de TV, área próxima à Esplanada dos Ministérios, onde os manifestantes contrários ao presidente pretendem protestar.

A preocupação é que haja novos confrontos como os ocorridos no fim de semana passado em São Paulo e no Rio de Janeiro. O ato do domingo na Avenida Paulista acabou em confronto entre manifestantes e apoiadores do presidente e também com a Polícia Militar – que interveio e usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar o início de uma briga em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).

"Fizemos uma manifestação pacífica em acordo com o coronel da Polícia Militar, encerramos e dispersamos no horário combinado. Mais de 80% dos manifestantes pró-democracia já tinham sido dispersados, mas pessoas que alegavam ser das Forças Armadas junto com outras que portavam símbolos neonazistas iniciaram provocações", afirmou nesta semana Danilo Pássaro, um dos líderes do movimento Somos Democracia e um dos organizadores do ato. Ele rechaça a tentativa de criminalizar as manifestações pacíficas. "São os apoiadores do governo que expõem seus revólveres e armas. Nossa força não está na violência, está na construção da unidade nacional pela democracia."

No dia 3 de maio, o fotógrafo Dida Sampaio, do Estadão, foi agredido com chutes, murros e empurrões por apoiadores de Bolsonaro durante um ato pró-governo em Brasília.

Abin

Caso autorizada, não será a primeira vez que a Força Nacional será empregada em protestos contra o governo. Em maio do ano passado, os agentes já atuaram durante atos na Esplanada. A sua função neste tipo de missão é a de proteção do patrimônio público, para evitar que haja depredações de prédios de ministérios, por exemplo. O acompanhamento das manifestações e controle de eventuais conflitos continua sob responsabilidade da Polícia Militar.

A decisão sobre o tipo de segurança empregada no domingo será tomada após avaliação dos diferentes órgãos de inteligência. Além da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), produzem informes sobre o caso a Polícia Federal, a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e os órgãos de segurança pública do Distrito Federal. Uma espécie de mapa de risco é desenhado para que as autoridades tomem suas decisões. O temor é de infiltrações de agitadores contrários em qualquer um dos lados, que poderia levar a um tumulto generalizado com consequências imprevisíveis.

Caso a Força Nacional seja chamada, o Ministério da Justiça convocará para a atuação os militares que estão permanentemente de prontidão na cidade satélite do Gama, nos arredores de Brasília, onde existe uma base operacional. Atualmente, 1.491 homens estão mobilizados em 53 operações, em 18 Estados e no DF.

O governo do DF, no entanto, ainda aguarda para esta sexta-feira o resultado de ações que questionam os atos pró e contra o governo na mesma data. Em São Paulo, por exemplo, o governador João Doria (PSDB) determinou que os protestos ocorram em dias diferentes.

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