Fachin levou 3 anos para entender o que Villas Bôas admitiu em 2018

Na noite do tuíte, general havia dito que o Alto Comando o apoiava; revelação sobre a redação do manifesto só provocou a reação do ministro após a desilusão da Lava Jato com o governo

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 10h15

Caro leitor,

general Eduardo Villa Bôas não esperava que, após três anos, a repetição do que dissera na noite do seu famoso tuíte fosse causar tamanho alvoroço, terminando com a prisão de um deputado federal que pensou ter chegado a hora de se atravessar o Rubicão. Daniel Silveira, o precursor, foi adiante, mas a tropa não o acompanhou. Está na cadeia, sozinho, em companhia apenas dos queixumes e jeremiadas de alguns colegas e oficiais.

Na noite de 3 de abril de 2018, diante da repercussão da sua manifestação pelo Twitter, Villa Bôas disse à colunista Eliane Cantanhêde, do Estadão, em reportagem publicada às 23h44 (leia aqui)  que sua fala expressava “a posição do Alto Comando do Exército”. Também fez a ressalva de que a manifestação era “exclusivamente a da Força”. O general afirmava não ter falado por conta própria, mas sim pelo Exército e sem nenhuma combinação com a Aeronáutica e a Marinha.

Villas Bôas repetiu o mesmo no livro. Era um recado ao público interno? Agira  amparado pelo Alto Comando. E assim seu exemplo não serviria de precedente a algum militar que resolvesse tratar de política em suas redes sociais, elogiando o governador João Doria (PSDB) ou mesmo o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL)? Talvez fosse essa – a política dos outros – que Villas Bôas pensava em afastar dos quartéis.  Parecia ao ex-comandante impossível que os detalhes da redação do tuíte – a consulta a membros do Alto Comando e a apresentação aos comandantes de área – pudessem despertar tamanha tempestade.

O problema é que Villas Bôas tuitou em 2018, mas o livro saiu em 2021. De lá para cá muitos políticos e analistas se desvencilharam das ilusões fardadas que nutriam. As memórias do general ajudaram a reler o passado e a ver com outros olhos movimentos que passaram despercebidos na época. Visitas de generais, como Antonio Miotto, ao Tribunal Regional Federal da 4.ª Região ganharam uma nova leitura, conforme recordou o coronel  Marcelo Pimentel. Miotto foi um dos que se manifestaram publicamente em apoio a Villas Bôas minutos depois do tuíte do comandante.

 

Foi Villas Bôas quem autorizou a maior formatura em anos feita no Comando Militar do Sudeste. Seu comandante de então, o general  Luiz Eduardo Ramos, organizou o evento para lembrar a morte do sargento Mário Kozel Filho. Certamente o jovem militar morto pela bomba da Vanguarda Popular Revolucionária merecia a homenagem, mas hoje analistas enxergam que Ramos e Villas Bôas procuravam antagonizar a esquerda – do PT a Fernando Henrique Cardoso –, contribuindo para a construção do clima que levou à eleição do candidato in pectore do comandante e de outros generais: Bolsonaro.

Um Exército  que representa a Nação não deve lembrar dos mortos de apenas um dos lados de um conflito civil, sob a pena de tornar a instituição partidária. Nos EUA, nenhum chefe militar renega os caídos na guerra civil, ainda que um dos lados lutasse por uma causa inglória. Todos, indistintamente, são lembrados porque eram americanos. Assim quis também Caxias, quando insistiram que comemorasse a vitória sobre os farrapos. “Rezemos, antes, um Te Deum, pois eram todos brasileiros..” Em 2018, o exemplo de Caxias  foi posto de lado. E o ato de Villas Bôas ganha novo significado.

Poucos se deram conta de quem mais se beneficiava da ação dos generais. Em agosto de 2018, Ramos fez um pronunciamento em São Paulo contra a impunidade. Villas Bôas tinha conhecimento prévio. O futuro ministro da Secretaria de Governo de Bolsonaro disse que sua fala era uma recado ao mesmo tempo para os públicos interno e externo. A manutenção da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pela Lava Jato, impediu que o réu agisse livremente como cabo eleitoral de seu candidato. Bolsonaro e os militares que o apoiam se beneficiaram ao identificarem o antipetismo e o combate à corrupção com a ideia da volta dos militares à política e ao governo. Os tuítes de Villas Bôas ajudaram a canalizar votos ao capitão indisciplinado.

Penhorou-se a credibilidade da Força como garantia de uma nova política. O apoio dado por generais a Bolsonaro foi recompensado com a direção de ministérios civis, com a distribuição de milhares de sinecuras e com a manutenção de privilégios e de aumentos salariais em época de grave crise fiscal.  Expôs-se a saúde dos brasileiros à incúria do ministro Pazuello e os acionistas da Petrobrás à ação dos que desejam pôr as mãos na administração da empresa, responsável por evaporar R$ 30 bilhões de seu valor de mercado em apenas um dia.

O Estadão mostrou o que disse Marcelo Zenkner, diretor de governança e conformidade da empresa, para justificar sua saída: o ambiente político mudou e “estavam abaladas as premissas de independência” da Petrobrás. Demitiu-se para preservar o currículo de combate à corrupção. E o que um general faria na empresa? Vive-se em um governo em que o filho e o presidente fazem malabarismos, demitem ministro e mobilizam serviços para o senador escapar da Justiça.

São esses três anos  – dois deles com Bolsonaro na Presidência – que explicam por que Edson Fachin reagiu. Se Villas Bôas não entendeu, talvez, agora entenda. Nesse meio tempo, a Lava Jato mudou de lado e acabou.  Seus defensores não estão mais no governo e se sentem como Churchill após a guerra. É verdade que o inglês se iludiu ao escrever o “percentage agreement”, exibido a Stalin. Pensava manter a Polônia fora da órbita soviética. Mas sabia exatamente com quem estava lidando. E Sérgio Moro? 

Fachin não procurou a crise, mas precisou de tempo para compreendê-la.  Nem o Supremo agiu de forma intempestiva diante do deputado Daniel Silveira. O parlamentar era investigado havia sete meses e não parou um mês sequer de ameaçar, insultar e agredir a Corte. Qualquer advogado sabe o que aconteceria com investigados que ameaçam juízes de seus casos. Não é como deputado que exerce a liberdade de expressão – como o fez Márcio Moreira Alves em 1968 – que Silveira agiu. Mas como investigado. Em dois casos.

E mesmo assim incitou em vídeo a invasão do gabinete do ministro Alexandre de Moraes para que sua “cabeça de ovo” fosse jogada no lixo. Defendeu fechar o Supremo e disse: “o STF não precisa existir”. E desafiou: “Me prendam que eu quero ver. Cármen Lúcia! Vem me prender. Eu desafio você a me prender!”. Recebeu o apoio do major-brigadeiro Jaime Rodrigues Sanchez e do general Eduardo José Barbosa, presidente do Clube Militar e colega de academia de Bolsonaro.

Barbosa soltou uma nota com nove perguntas. Eis a 6ª: "Por que os ilustres ministros do STF pensam que apoiar o Regime Militar que foi instaurado a partir de 1964 é crime quando uma grande parcela da população tem saudades daquela época?" O general se engana. Não só porque as pesquisas de opinião mostram o contrário. Mas porque a ditadura que ele apoia deixou o Brasil com 240% de inflação ao ano, o Tesouro quebrara, a dívida externa era impagável, o desemprego subiu às alturas e havia milhares de obras inacabadas pelo País. O regime só se manteve nos anos finais após a trapaça dos senadores biônicos e outros casuísmos. Para os generais, democracia só havia se ganhassem as eleições. Caos é como chamavam a alternância de poder.

O que querem afinal Barbosa e seus colegas? Reclamam de que a lei foi aplicada contra Silveira quando não seria contra outros. Queriam então a impunidade, o desrespeito à lei e o acochambro? É isso mesmo? Deviam ler o que escreveu o general Francisco Mamede de Brito Filho: "Numa sociedade civilizada, não é admissível considerar normal o fato de uma casa legislativa propor ‘acordo’ à mais alta Corte do País, diante de um ato criminoso."

Mas bolsonaristas – que não assistiram aos 30 vídeos de Silveira com ameaças à Corte – acham que o deputado foi preso por apoiar o presidente. Isso só seria verdade se os generais admitissem que, para apoiar Bolsonaro, deve-se querer o fechamento do STF e a tortura e morte de brasileiros.  Enfim, desejar uma ditadura de dar inveja a Idi Amin Dada. O general Barbosa deve respostas ao que as suas próprias perguntas revelam: sua indignação é indissociável do tuíte de Villas Bôas. Não fossem os generais, Bolsonaro seria menos valente e, talvez, até governasse. Eles dizem agir no limite da responsabilidade. O exemplo arrasta. Muitos. Até o presidente.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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