WERTHER SANTANA/ESTADÂO
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Lei não pode ‘transigir’ por conveniências, diz general

O comandante militar do Sudeste, Luiz Eduardo Ramos, cita as eleições 2018 e afirma que legislação deve ser cumprida independentemente de ‘interesses político-partidários’

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2018 | 05h00

O general de Exército Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, comandante militar do Sudeste, citou a proximidade das eleições 2018 para afirmar nesta sexta-feira, 27, que “a lei tem de ser cumprida, independentemente de quem está sendo atingido por ela”. “Não podemos transigir com as leis vigentes, buscando atender a interesses pessoais ou até mesmo político-partidários. Todos nós, militares ou civis, estamos sob o jugo do império da lei”, disse na solenidade do aniversário do Comando Militar do Sudeste.

A 20 dias do início da campanha eleitoral, o pronunciamento do general vai na mesma linha da manifestação feita pelo comandante da Força, o general Eduardo Villas Bôas, na véspera da análise pelo Supremo Tribunal Federal de um habeas corpus apresentado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Operação Lava Jato.

Em abril, Villas Bôas afirmou no Twitter que compartilhava “o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição”.

A fala de Ramos indica preocupação com eventual revisão pelo Supremo da autorização para a prisão após condenação em segunda instância. Mesmo preso e potencialmente atingido pela Lei da Ficha Limpa, Lula é mantido como pré-candidato à Presidência pelo PT. 

Ramos discursou de improviso na cerimônia. “Na preparação da cerimônia, eu disse: ‘não vou escrever nada, quero falar com o coração’. Os senhores que estão em forma são descendentes de heroicos militares que no passado defenderam os ideais democráticos”, disse o general. Era o começo de um pronunciamento sobretudo político. “As tropas do Comando Militar do Sudeste sempre nortearam os seus valores, como diz o general Villas Bôas, pela legalidade, pela legitimidade e pela estabilidade.”

Próximo do comandante do Exército, Ramos citou o chefe três vezes em seu discurso, uma fala que, segundo auxiliares, era dirigida à tropa bem como à população do Estado. “Estamos nos aproximando de um período muito importante para o nosso país, o das nossas eleições. Esse é o regime democrático em que nós temos de respeitar o resultado das urnas. Todos nós, do soldado ao general mais antigo”, continuou o general antes citar o comandante do Exército pela última vez e se encaminhar para o discurso de nove minutos.

“Nosso comandante, o general Villas Bôas afirma: ‘Não há atalho fora da democracia ou da nossa Constituição’. Não temos lado. Quando me perguntam, general, qual o seu partido, qual o seu candidato? Eu digo: meu partido é a Pátria; meu candidato é o Exército brasileiro.”

Deputados federais e estaduais participaram de cerimônia

Ramos desceu do palanque das autoridades e se dirigiu ao prédio da sede do Comando Militar do Sudeste sem dar entrevistas. Ao seu lado, na solenidade, havia três deputados federais – Baleia Rossi (MDB-SP), Arnaldo Faria de Sá (PP-SP) e Major Olímpio (PSL-SP) – este último saiu antes do discurso. A fala foi ainda acompanhada por dois deputados estaduais: Salim Curiati (PP) e o coronel Telhada (PP).

“Achei importante ele (Ramos) falar sobre a eleição para que ela seja pacífica e tranquila. Ele disse que a decisão do povo tem de ser respeitada”, afirmou o líder do MDB na Câmara, Baleia Rossi. O deputado destacou o fato de o general ter deixado claro o caráter apartidário do discurso. “Para que ninguém tente usar a credibilidade que a instituição tem em favor de A, B ou C.” Questionado se entendia que o recado atingiria o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL), Baleia Rossi sorriu. “Não acho que ele mandou recado para ninguém. Foram considerações felizes e oportunas.”

Para Telhada, a fala do general reforçou a defesa da legalidade. “Muitos cobram atitude dos generais querendo intervenção militar ou uma ação mais enérgica contra o governo. Isso não acontecerá, pois nossa lealdade à lei não será quebrada. O povo vota errado e depois quer que a situação seja resolvida à força. Isso não pode acontecer.”

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