Manuel Elias/ONU
Salão onde ocorre a Assembleia-Geral da ONU. Manuel Elias/ONU

'Estadão' na ONU: Tudo sobre a Assembleia-Geral das Nações Unidas

Fique por dentro do evento que reúne líderes e representantes de 193 países em Nova York com a cobertura do 'Estadão'

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 09h38
Atualizado 04 de dezembro de 2019 | 12h49

Líderes e representantes de 193 países sentam à mesa para discutir os principais problemas do mundo. Esta é Assembleia-Geral das Nações Unidas, que acontece em Nova York. O Estado acompanha o evento, no qual presidentes, incluindo o do Brasil, Jair Bolsonaro, discursam entre os dias 24 e 30 de setembro.

Estado participa de um programa global da ONU que selecionou 15 jornalistas em um concurso entre 750 repórteres. O único representante do Brasil é Paulo Beraldo, repórter da editoria de Política. Ele ficará na sede da ONU de 16 de setembro a 4 de outubro para realizar um treinamento e escrever sobre o trabalho e o papel da Organização.

Fique por dentro da cobertura:

- Discurso de Bolsonaro: Em discurso desafiador, Bolsonaro ataca ‘colonialismo’ na questão ambiental

- Na íntegra: Veja o discurso completo de Bolsonaro na Assembleia-Geral das Nações Unidas

- Análise: Muito ideológico e agressivo, discurso de Bolsonaro é pouco propositivo

- Alvos: Veja quem foi alvo de ataques de Bolsonaro em seu discurso na ONU

- Repercussão 1: Jornal inglês destaca fala em que Bolsonaro nega devastação da Amazônia

- Repercussão 2: Macron rebate Bolsonaro: 'Não é questão de lobby, queremos ajudar futuro da Amazônia'

ESPECIAIS

- Entenda: O que é e para que serve a Assembleia-Geral?

- Especial: Por dentro da ONU - os bastidores das Nações Unidas

- Relembre: Os discursos dos presidentes brasileiros na ONU

- Entenda: Por que o Brasil faz o primeiro discurso na Assembleia-Geral da ONU?

- Entrevista: Marcos Azambuja: 'Brasil não está sendo coerente com sua política ambiental desde a Eco-92'

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Por que o Brasil faz o primeiro discurso na Assembleia-Geral da ONU?

Presidente Jair Bolsonaro estreia na Assembleia-Geral da ONU mantendo tradição

Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 14h00

NOVA YORK – O Brasil tem a responsabilidade, a cada ano, de ser o primeiro país a discursar na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Nesta edição, a 74ª, os olhos do mundo estão particularmente voltados ao País, já que o governo deve ser questionado sobre a situação da Amazônia — com o aumento das queimadas e do desmatamento —, e também sobre a política ambiental e as mudanças climáticas, áreas em que teve protagonismo historicamente.

Há algumas teorias que explicam o protagonismo do Brasil no "parlamento mundial" da ONU. O professor Oliver Stuenkel, coordenador de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, diz que a “tradição informal” pode ser considerada um prêmio de consolação pelo fato de o Brasil ter ficado de fora do Conselho de Segurança da Organização, composto por Estados Unidos, Rússia, França, China e Reino Unido desde a fundação da ONU, em 1945. Até hoje, o País pleiteia mudanças na composição do Conselho, que tem ainda dez membros rotativos eleitos a cada dois anos. No entanto, só os cinco iniciais têm poder de veto nas decisões. 

“O mais provável é que essa tradição iniciou-se porque o Brasil acabou sendo vetado por Winston Churchill (líder do Reino Unido) e por Josef Stalin (líder da URSS) de fazer parte do Conselho de Segurança de maneira permanente. Então, isso acabou sendo uma espécie de prêmio de consolação porque tinha de haver uma maneira de reconhecer a importância do Brasil à época”, disse.

O Brasil integrou o primeiro grupo de 51 países fundadores da ONU. Hoje, são 193 nações, mas a “regra” continua, apesar de não haver documentos ou normas da ONU com essa previsão. Outra teoria difundida é a de que o País tem essa atribuição pela sua participação na solução pacífica da criação do Estado de Israel, ainda nos primórdios da ONU.

“É um reconhecimento tácito de sua participação na fundação da organização e dos esforços do então chanceler brasileiro, Oswaldo Aranha, nas discussões da época, em especial a criação do Estado de Israel”, afirmou o professor Lucas Leite, da Fundação Armando Álvares Penteado, doutor em relações internacionais.

Para além das motivações da tradição, o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer, que discursou em nome do Brasil nas Assembleias-Gerais de 1992 e de 2002, quando foi chanceler, diz que é um momento especial para a voz do País ser ouvida no plano internacional. “É uma tentativa de o Brasil contribuir para a formulação da agenda global e, portanto, para os objetivos de nossa política externa e de nossa inserção no mundo”.

*O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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Amazônia, soberania, mudanças climáticas: O que esperar do discurso do Brasil na ONU?

País abre os discursos no dia 24 de setembro, na estreia do presidente Jair Bolsonaro na tribuna das Nações Unidas

Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 12h00

NOVA YORK – O presidente Jair Bolsonaro faz, nesta terça-feira, 24, sua estreia na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, sob o olhar e a expectativa de chefes de Estado e representantes dos 193 países-membros da Organização. À sua frente, o presidente brasileiro terá uma plateia interessada em entender quais ações o governo adotará para reduzir o número de incêndios e o desmatamento, e como o Brasil contribuirá para combater as ameaças causadas pelas mudanças climáticas, um dos grandes temas da 74ª Assembleia Geral. 

Além da reunião de líderes, está prevista uma cúpula sobre mudanças climáticas. O objetivo é encorajar líderes mundiais a elaborarem políticas públicas capazes de mitigar os efeitos negativos das mudanças do clima. A ONU também será palco de eventos e reuniões diárias com foco nos objetivos de desenvolvimento sustentável — criados em 2015 — e que devem balizar a ação dos países signatários da Organização até 2030. Combate à pobreza, promoção da educação de qualidade, garantia de água e saneamento, erradicação da fome e redução das desigualdades são alguns dos 17 objetivos. 

Estado ouviu analistas, diplomatas e ex-ministros para responderem: que mensagem o Brasil, responsável pelo primeiro discurso, deve passar na ONU? 

Para o ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes, o Brasil deve reforçar a imagem de ser um país que defende o meio ambiente, que tem uma matriz energética limpa e uma agricultura competitiva e sustentável. “Eu iria na linha de contrapor toda essa imagem que vem se cristalizando sobre o nosso comportamento em matéria ambiental”, disse. 

“O discurso deve reafirmar o que constitui a identidade internacional do Brasil. Dar ênfase a temas em que temos destaque, como direitos humanos, paz, desarmamento, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. São nossas credenciais”. 

O diplomata Marcos Azambuja, um dos responsáveis por organizar a Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, a Eco-92, também enfatiza a liderança do Brasil na área ambiental. “A proteção do meio ambiente é um casamento virtuoso entre preocupações globais e interesses nacionais”, afirmou. “O Brasil abre o debate, isso é algo bom e desejável, mas só existe porque nossa voz era ouvida como a expressão de opiniões compartilhadas amplamente, e não isolada. Então, isso é uma coisa a se preservar”, afirmou ele, que ainda chefiou as embaixadas do Brasil na França e na Argentina. 

​Veja abaixo outras avaliações 

Luís Alfonso de Alba, enviado especial da ONU para mudanças climáticas na 74ª Assembleia Geral

O Brasil é uma nação muito importante globalmente, obviamente a maior economia na América Latina. Estamos muito engajados com as autoridades locais. E creio que é muito necessário continuar a reconhecer a contribuição muito ativa que a sociedade civil, as autoridades e o setor privado brasileiros têm tido. Visitei o Brasil este ano e fiquei particularmente impressionado com o interesse do setor privado (em ações para reduzir o impacto das mudanças climáticas). 

Muitas coisas precisam ser feitas para diminuir o impacto e os efeitos negativos mudanças climáticas. No caso específico do Brasil e da Amazônia em particular, estamos encorajando os países da região para ver qual pode ser a contribuição do sistema das Nações Unidas, mas destacando a importância de uma ação coordenada dos países afetados (a Floresta Amazônica está em nove países — Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa).  

Roberto Abdenur, diplomata e ex-embaixador do Brasil no Equador, Alemanha, Áustria, China e Estados Unidos

O Brasil enfrentará situação delicada no contexto da Assembleia-Geral. O próprio secretário-geral afirmou a importância da abordagem da crise da Amazônia durante a reunião. Haverá por parte de diversos países numerosas e enfáticas expressões de interesse e preocupação com o assunto. É provável que se recomende a criação de algum esquema ou mecanismo para o acompanhamento de riscos para a sobrevivência da floresta. Talvez surjam ofertas de apoio político, material ou financeiro para medidas que nosso governo tome em defesa da Amazônia.

O governo brasileiro deve ser muito firme na reafirmação de sua soberania, mas não convém colocar-se em postura de confrontação com boa parte da comunidade internacional. Precisamos ter jogo de cintura, e mostrar habilidade, serenidade e moderação em face dos desafios.

André Guimarães, engenheiro agrônomo e um dos representantes da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura

Há 40 anos, o Brasil era importador de alimentos e hoje é um dos maiores exportadores. O Brasil alimenta mais de 1,2 bilhão de pessoas todos os dias. A responsabilidade e o papel do Brasil enquanto provedor de alimentos é inexorável e só deve crescer nos próximos anos. Entretanto, esse papel de player importante no suprimento de alimentos vai depender de nossa capacidade de equacionar a relação entre a produção agropecuária e a conservação ambiental. Caso contrário, não continuaremos abrindo novos mercados. Temos que mostrar ao mundo nossa competência em produzir alimentos de forma sustentável. O Brasil deve aproveitar essas inserções nas agendas internacionais e nos fóruns mundiais para reafirmar o compromisso com a sustentabilidade na produção de alimentos. 

Ana Flávia Barros-Platiau, coordenadora da pós-graduação em relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB)

O Brasil está com a imagem negativa porque não soube responder às provocações e acusações que recebeu. Precisa se reposicionar como país responsável e aberto a negociações construtivas. Em outros termos, trocas de farpas demonstram apenas que as autoridades não estão preparadas para enfrentar situações adversas e delas tirar proveito. Alinhamento caudatário não é estratégia. Não fortalecerá a soberania nacional. Os países precisam saber navegar em oceanos de incertezas, instabilidade e imprevistos que tornam as agendas atuais de negociação mais complexas. Então, os temas a serem tratados são relativos a desafios globais: clima, paz sustentável, segurança coletiva e inclusiva, segurança alimentar.

O País deve reconhecer o seu papel no mundo, de protagonista da segurança climática e alimentar em escala global. E, a partir daí, promover agendas multilaterais construtivas e construir uma agenda robusta. O Brasil também deve passar a mensagem de que não está desconectado do resto do planeta. Em tempos de agendas extremamente complexas, pensar nas formas de conexão entre diferentes temas e parceiros estratégicos é vital. Há muito trabalho pela frente em nome da “governança da sustentabilidade” para as futuras gerações. Trocar farpas e se furtar de negociações necessárias não interessam a ninguém.

Fernando Schüler, cientista político e pesquisador do Insper 

O Brasil tem dois grandes desafios: primeiro, afirmar o seu compromisso com a questão ambiental, desfazendo esse problema dos desmatamentos, dos incêndios, que trouxe um grande desgaste ao País. É um tema global e vai ser centro de preocupações na Assembleia-Geral da ONU. Em segundo, reafirmar sua posição de compromisso com a questão de direitos humanos, mas também com o tema da abertura comercial, da retomada do desenvolvimento, da abertura para o exterior, mostrar algumas conquistas que o País vem obtendo, como o acordo Mercosul-União Europeia

(É preciso destacar) A compatibilização da agenda social de direitos, da agenda ambiental, com a agenda econômica. Por último, reafirmar uma visão global do Brasil como um país comprometido com a democracia global, com o multilateralismo, com questões de direitos humanos, com a paz, e firmar uma posição histórica que sempre teve no sentido de ser comprometido com uma visão multilateral, de promoção de democracia e direitos humanos a nível global. 

*O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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    Marcos Azambuja: 'Brasil não está sendo coerente com sua política ambiental desde a Eco-92'

    Coordenador da Eco-92 diz que defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável é 'casamento virtuoso' entre preocupações globais e interesses nacionais

    Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

    23 de setembro de 2019 | 17h30

    NOVA YORK – O Brasil tem mais a perder do que ganhar ao adotar uma postura diferente em relação ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável, pautas cuja defesa consolidou a imagem do País como um dos líderes globais dessa discussão nas últimas décadas, em especial em foros internacionais como a Organização das Nações Unidas. "Houve a ruptura de um equilíbrio", avalia o diplomata Marcos Azambuja, que coordenou a Conferência da ONU sobre Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, realizada no Rio, com 108 chefes de Estado para conciliar o desenvolvimento econômico com a conservação dos recursos naturais, há 27 anos.

    Nesta semana, o Brasil estará diante do mundo na tribuna da Assembleia-Geral da ONU, onde deve usar o discurso de abertura do evento para rebater as críticas em relação à pauta ambiental. O ministro Ricardo Salles afirmou que tem viajado ao exterior para transmitir uma mensagem de esclarecimento, "rebater desinformações" e apresentar oportunidades de investimentos no País. O País ficou de fora dos discursos da cúpula global do clima nesta segunda.

    "O Brasil era visto como um sócio necessário e natural de uma causa comum e, agora, inspira desconfiança. O País não está sendo coerente com sua política ambiental desde a Eco-92", afirmou Azambuja, que também foi chefe das embaixadas do Brasil na Argentina e na França e hoje é conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

    Abaixo, os principais trechos da entrevista.

    • O Brasil se consolidou como protagonista, ao longo dos últimos anos, de temas como a defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. O País estará agora diante do mundo na tribuna das Nações Unidas e enfrenta questionamentos por conta dos incêndios na Amazônia e da política ambiental. Como chegamos até aqui?

    Houve a ruptura de um equilíbrio. Há muitos anos, o Brasil não era mais alvo de nenhuma reação mundial. Pelo contrário, era parte de um consenso. Agora, passamos a ter um comportamento permissivo demais e acusamos ONGs e países de conspiração. Depois de tantos anos de harmonia, temos uma relação conflituosa.

    O Brasil era visto como um sócio necessário e natural de uma causa comum, mas agora inspira desconfiança. Resolveu se distanciar de um consenso sobre meio ambiente e direitos humanos. Ainda que o Brasil tivesse suas especificidades, estava de acordo com o ideário global, tinha uma ideia de atenção sustentada sobre desenvolvimento sustentável. O mundo aceitava que o Brasil estava agindo com prudência, embora quisessem que fôssemos mais velozes.

    Agora, o meio ambiente é visto como parte de uma conspiração internacional contra os interesses brasileiros. Perdeu-se a sensação de que o meio ambiente é, acima de tudo, interesse do Brasil. Quando penso em meio ambiente, não estou preocupado só com a Groenlândia, estou preocupado com o peixe aqui do lado. O mundo começa no Brasil.

    • O que fazer para mitigar possíveis danos na Assembleia Geral das Nações Unidas?

    No momento, desconfio da filosofia do nosso representante. Em condições normais, o objetivo seria restabelecer a confiança, já que a política externa é construída sobre confiança recíproca. Há uma repartição de responsabilidades, por isso é preciso diálogo e entendimento. Mas não vejo esses ingredientes. Minha impressão é que a situação, diplomaticamente, tende a piorar um pouco mais antes de melhorar.

    Que ganhos e prejuízos essa mudança em relação ao meio ambiente pode trazer?

    Os prejuízos são mais fáceis de antever. Ganhos, não vejo nenhum. Vejo perdas na confiança internacional e na credibilidade. O Brasil deveria oferecer credibilidade para ter acesso a órgãos mais importantes e a mais mercados. A desconfiança é terrível, afeta investimentos, o turismo, a parte cultural. É bom ser visto como pacífico, construtivo, como um país que contribui para a criação de um consenso internacional.

    O Brasil é uma potência média-grande e precisa trabalhar em conjunto com os outros países. É naturalmente um país multilateralista, tem dez vizinhos. Só China e Rússia têm mais vizinhos. Nossa vocação é o convívio, o diálogo, a integração, e temos de manter isso. Então, em termos de política externa, não é um bom momento. Não vislumbro nada a não ser um pouco de mais do mesmo. Mas sei que esses ciclos se esgotam.

    • Um dos marcos do Brasil na defesa de pautas ambientais foi a Eco-92, conferência da qual o senhor foi coordenador. O que ela representa?

    O mérito da Rio-92 foi encontrar no desenvolvimento sustentável uma fórmula salvadora. Ela foi marcada por grande otimismo. Era a grande conferência mundial pós-Guerra Fria, o mundo se sentava à mesa para encontrar convergências. E dali surgiram muitos instrumentos que consagraram a ideia do desenvolvimento sustentável. Ela leva ao Protocolo de Kyoto (acordo para reduzir emissões de gases efeito estufa, assinado em 1997), às COPs (conferências que tratam de mudanças climáticas), ao Acordo de Paris. Era uma fórmula que parecia boa para todos.

    O que não se imaginou é que a degradação do meio ambiente fosse ser potencialmente tão veloz e tão ameaçadora. Todo mundo imaginava que seria uma degradação ao longo de séculos. Então, depois de Kyoto, há uma nova divisão: entre aqueles que pensavam que alterações climáticas tinham poucos anos para serem remediadas e entre os que acham essa visão um imenso exagero.

    • E no Brasil, o que mudou a partir dali?

    O País incorporou no seu ideário nacional a proteção do meio ambiente. Deixou de ser uma 'ideia estrangeira' para ser uma causa nacional. Antes, víamos o meio ambiente como algo 'com os outros'. Depois, passou a ser 'coisa nossa'. Não era protegido para agradar europeus, canadenses, mas para proteger o que era nosso. Foi um casamento virtuoso entre preocupações globais e interesses nacionais.

    O Brasil começou a cuidar do meio ambiente não porque fosse bom para a Dinamarca, mas porque uma floresta queimada é ruim para nós, porque uma praia poluída nos prejudica. Então, se alinha com uma boa causa, participa de todas as COPs, da Rio +10, da Rio+20, até que assinamos as convenções do Acordo de Paris. O País ia navegando de maneira tranquila em harmonia com o mundo. Mas, agora, o Brasil não está sendo coerente com a sua política ambiental desde a Eco-92. 

    * O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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    Em discurso desafiador na ONU, Bolsonaro ataca ‘colonialismo’ na questão ambiental

    Presidente fez menção direta à França, país que esteve na linha de frente das críticas ao Brasil na questão da Amazônia

    Beatriz Bulla, Giovana Girardi, Ricardo Leopoldo e Paulo Beraldo, Enviados especiais

    24 de setembro de 2019 | 11h40
    Atualizado 25 de setembro de 2019 | 05h42

    NOVA YORK – Em sua estreia na Assembleia-Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira, 24, um discurso no qual classificou como “falácia” a tese de que a Amazônia “é patrimônio da humanidade” e criticou o que chamou de “espírito colonialista” de países que recentemente questionaram o compromisso do País com a preservação ambiental. Durante sua fala de 32 minutos, recheada de referências religiosas, Bolsonaro surpreendeu ao não adotar uma retórica conciliatória. Ele reforçou na tribuna internacional o discurso mais ideológico ao afirmar que o Brasil esteve “à beira do socialismo” e atacar adversários políticos e países como Cuba e Venezuela

    A Assembleia-Geral da ONU se tornou, na prática, o maior teste de política externa de Bolsonaro. Para observadores das relações exteriores, o discurso do brasileiro, com foco no confronto, rompeu uma tradição da diplomacia brasileira – baseada na moderação e no pragmatismo – e pode causar prejuízos futuros para setores exportadores e a consolidação de acordos de livre-comércio. 

    “Isso vai afetar muito as perspectivas do agronegócio brasileiro, da exportação do Brasil em geral”, disse Rubens Ricupero, ex-ministro e ex-embaixador nos Estados Unidos

    O conteúdo da fala, contudo, agradou aos políticos alinhados ao presidente. “Foi um discurso histórico que teve como base Deus, pátria e família”, afirmou o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP), primeiro-vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e descendente da antiga família real. 

    Ao rebater as críticas envolvendo as queimadas na Amazônia, o presidente brasileiro reiterou a tese da defesa da soberania nacional. Ele fez menção direta à França, país que esteve na linha de frente das críticas ao Brasil na discussão sobre a preservação da floresta. Bolsonaro voltou a sustentar a teoria de que as nações que o criticam têm interesse comercial nas riquezas minerais do Brasil. E, neste tema, associou a mídia a “mentiras”.  

    “Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista”, disse Bolsonaro, sem citar o presidente francês, Emmanuel Macron

    “É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade, e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a nossa floresta é o pulmão do mundo. Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista”, afirmou. “Ela (Amazônia) não está sendo devastada e nem consumida pelo fogo, como diz mentirosamente a mídia. Cada um de vocês pode comprovar o que estou falando agora. Não deixem de conhecer o Brasil, ele é muito diferente daquele estampado em muitos jornais e televisões”, disse o presidente. 

    Bolsonaro não citou nominalmente, mas deixou claro que suas críticas estavam direcionadas a líderes como Macron e saudou, como aliado, o americano Donald Trump. “Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania! Um deles por ocasião do encontro do G-7 ousou sugerir aplicar sanções ao Brasil, sem sequer nos ouvir. Agradeço àqueles que não aceitaram levar adiante essa absurda proposta”, afirmou Bolsonaro. Depois de discursar, Bolsonaro se sentou na plateia do plenário da ONU para assistir à fala de Trump. 

    América Latina

    O brasileiro iniciou sua fala citando que assumiu um País que estava “à beira do socialismo”, fortemente influenciado por Cuba e Venezuela. Em tom irônico, afirmou que “o socialismo está dando certo na Venezuela: todos estão pobres e sem liberdades”. E disse que o Foro de São Paulo – que reúne partidos de esquerda da América Latina – “continua vivo e tem que ser combatido”. 

    + Carlos Melo: Bolsonaro emerge como pastiche de Trump

    O plenário estava com lotação praticamente completa durante o discurso de Bolsonaro. Perante líderes de outros 192 países, Bolsonaro disse que não se pode apagar “nacionalidades” em nome de um “interesse global abstrato”. “Esta não é a Organização do Interesse Global. É a Organização das Nações Unidas.” Uma das líderes presentes para ouvir o brasileiro foi Angela Merkel, chanceler da Alemanha, que aplaudiu sem entusiasmo quando Bolsonaro encerrou seu discurso. Mais tarde, o presidente brasileiro negou ter sido agressivo e classificou o próprio discurso como objetivo e contundente.  

    * OS REPÓRTERES PAULO BERALDO E GIOVANA GIRARDI VIAJARAM A CONVITE DA ONU E DA ORGANIZAÇÃO NO PEACE WITHOUT JUSTICE, RESPECTIVAMENTE

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    Na Assembleia-Geral da ONU, selfies, vídeos e cadeiras vazias depois dos primeiros discursos

    74ª edição do encontro anual de líderes marcou a estreia do presidente Jair Bolsonaro na Organização das Nações Unidas

    Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

    24 de setembro de 2019 | 14h03

    NOVA YORK – Passadas quatro horas, diversas cadeiras já estavam vazias na Assembleia-Geral das Nações Unidas, que, nesta terça-feira, 24, recebeu as delegações da maior parte dos 193 Estados-membros da ONU para participarem da 74ª edição do encontro anual de líderes em Nova York. Os discursos dos chefes de Estado e diplomatas continuam pelos próximos dias, até a próxima segunda-feira, 30. 

    A Assembleia começou por volta de 9h com um discurso em inglês, francês e espanhol do secretário-geral português António Guterres, que tem apostado nas mudanças climáticas como um dos marcos de sua administração. A ONU tem ainda outras três línguas oficiais: árabe, russo e chinês. Os tradutores ficam em cabines nas laterais da sala, que tem traços do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. 

    O hall da Assembleia-Geral é o espaço mais procurado por qualquer visitante que vá à ONU pela primeira vez. As selfies e vídeos dos visitantes não deixaram dúvida. Com duas mil cadeiras, o edifício foi sendo reformado ao longo dos anos conforme mais países foram aderindo à organização. No início, eram apenas 51 países - o Brasil entre os fundadores. Hoje, o número quase quadruplicou. 

    Enquanto Guterres repetia o discurso em francês e espanhol, já não eram muitos os representantes internacionais que prestavam atenção em suas palavras. Outros tentavam se entender com o aparelho que faz traduções em tempo real nos idiomas da ONU. 

    Após suas falas, foi a vez do nigeriano Tijjani Muhammad-Bande, o novo presidente da Assembleia-Geral, falar. Com a sala cheia cada vez mais cheia, dezenas de convidados das delegações faziam fotos, vídeos e selfies - alguns no meio do plenário. Bande bateu o seu martelo na mesa diversas vezes para chamar a atenção dos presentes. Nem sempre com sucesso. Ele assumiu o cargo este mês e ainda se adapta à liturgia da função. 

    O martelo - presente da Islândia - já foi roubado no passado. Desde então, ninguém pode subir no local onde fica o presidente da Assembleia-Geral. O tradicional mármore verde que aparece em todas as fotos dos discursos foi um presente da Itália. O carpete verde, também típico, foi doado pelos irlandeses.  

    Quando o presidente Jair Bolsonaro fazia sua estreia, alguns líderes ainda não estavam na sala. Recep Erdogan, da Turquia, entrou no final do discurso do presidente brasileiro. Já a delegação de Cuba deixou a sala no meio da fala de Bolsonaro, que teve críticas ao país. As maiores atenções foram para o presidente Donald Trump, que sucedeu Bolsonaro. As selfies continuaram. Em seguida, falou o presidente egícpio Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, que já começou a ver a sala se esvaziar no início de suas palavras. 

    *O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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      'Enfrentamos mais desafios urgentes a cada dia', diz novo presidente da Assembleia-Geral da ONU

      Nigeriano Tijjani Muhammad-Bande defende cooperação entre países e organizações para a solução de problemas globais

      Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

      02 de outubro de 2019 | 11h43

      NOVA YORK, EUA - Quando o assunto é Assembleia-Geral das Nações Unidas, em geral a primeira lembrança é de um discurso dos chefes de Estado ou do secretário-geral da ONU. Mas, antes dessas autoridades, o primeiro a usar a tribuna é outro líder: o presidente da Assembleia-Geral. 

      Recém-empossado, o diplomata nigeriano Tijjani Muhammad-Bande, de 61 anos, disse que a defesa da cooperação entre países e organizações será um dos focos de sua gestão, que começou em setembro e vai até 2021. 

      “Enfrentamos mais desafios urgentes a cada dia. Olhe as mudanças climáticas: alguns países enfrentam até extinção (de algumas espécies). Não é ficção científica, é o que os países estão vivendo, com aumento de fenômenos como ciclones, enchentes, elevação do nível do mar”, afirmou ele em entrevista a jornalistas que participam de um programa de capacitação na ONU em Nova York. 

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      Desde setembro, as Nações Unidas têm sido palco de eventos com lideranças internacionais sobre mudanças climáticas, o principal assunto da última Assembleia-Geral e das reuniões que ocorreram em paralelo. O ponto alto foi a presença da ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, na semana passada, em fala incisiva a chefes de Estado

      Bande assume a Assembleia-Geral em um momento em que alguns líderes exaltam o nacionalismo e o isolacionismo e às vésperas de a ONU completar 75 anos de fundação, em 2020. E é na união que ele aposta suas fichas. 

      “Nenhum país sozinho pode enfrentar situações como as mudanças climáticas, o terrorismo, a migração. Existe um debate sobre a utilidade do multilateralismo, mas nenhum país saiu das organizações multilaterais”, disse ele. “Apesar da retórica, nenhuma nação pode se separar do mundo.” 

      Ele afirmou ainda que o exemplo da Assembleia-Geral, que teve a participação de 192 dos 193 Estados-membros da ONU, é uma mostra de que o multilateralismo continua sendo importante. ”Se um fórum não é útil, você não vai lá falar”, afirmou Bande, exaltando a presença e a dificuldade logística para os líderes e representantes internacionais se deslocarem até os Estados Unidos

      Para Entender

      Presidentes brasileiros na ONU

      Meio ambiente, multilateralismo e paz: relembre as estreias dos presidentes brasileiros na Assembleia-Geral

      “Temos muitos consensos, em alguns pontos os países têm visões fortes, sugerindo que a atuação deveria ser diferente. Mas isso é o que temos. Não é que o multilateralismo esteja morto, esse é o ponto. Todos os dias pessoas estiveram aqui trabalhando até 23h e debatendo sobre como resolver problemas juntos.”

      Antes de assumir o cargo, Bande foi representante da Nigéria na ONU em Nova York, diretor do principal centro de política e estudos estratégicos de seu país e professor universitário na área de ciência política por quase 30 anos.

      * O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas 

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      Na ONU, Bill Gates pede 'impostos justos' e ajuda a países em desenvolvimento

      Em cúpula sobre financiamento para o desenvolvimento sustentável, bilionário defendeu a cooperação internacional para atingir a Agenda 2030

      Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

      26 de setembro de 2019 | 18h28

      NOVA YORK - Enquanto presidentes e líderes internacionais ainda discursam no terceiro dia Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas - que começou na terça-feira, 24,  com discurso do presidente Jair Bolsonaro - a ONU é palco de uma cúpula para financiar a Agenda 2030 de desenvolvimento sustentável com chefes de Estado, empresários, investidores e autoridades internacionais. Um dos destaques do evento foi a presença do bilionário Bill Gates, fundador da Microsoft, filantropo e uma das pessoas mais ricas do mundo.  

      O empresário iniciou sua fala dizendo que os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável definidos pela ONU em 2015 oferecem metas concretas para acabar com problemas como a pobreza e a fome, e para promover crescimento econômico inclusivo, mas ressaltou que em muitos países os recursos locais são insuficientes para promovê-los. Gates afirmou que a cooperação internacional é fundamental para confrontar os efeitos das mudanças climáticas, que agravam as vulnerabilidades das populações mais pobres, e que realidades diferentes requerem financiamentos distintos. 

      “Ainda temos muito a fazer para cumprir a promessa completa dos objetivos de desenvolvimento sustentável para todos. O cumprimento dessa promessa exigirá vontade política de mobilizar recursos locais de forma equitativa, manter a ajuda internacional e direcionar recursos para onde eles são mais necessários", afirmou, dizendo que a assistência internacional para os países em desenvolvimento está em risco. A ONU estima que a realização desses objetivos poderia gerar US$ 12 trilhões na economia global, criando 380 milhões de novos empregos nos próximos 11 anos.

      Bill Gates ressaltou ainda que as nações precisam aperfeiçoar seus sistemas de coleta de impostos e usar de maneira mais eficiente os recursos arrecadados, de forma que as pessoas percebam que estão tendo retorno com o que pagam. "Os países em desenvolvimento devem lutar para fazer os impostos serem justos". Ele também defendeu mais transparência nesse processo e afirmou que a arrecadação de impostos deve ser a principal fonte de financiar o desenvolvimento local.  

      Canalizar recursos para o desenvolvimento sustentável

      O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que há mais de US$ 200 trilhões em capital privado investido nos mercados financeiros globais com taxas de retorno que poderiam ser mais vantajosas em outras atividades. "Esses fundos podem ser canalizados para projetos de investimento sustentável mais produtivos, inclusive utilizando instrumentos de financiamento inovadores", afirmou o português, cujo mandato tem sido marcado pela defesa dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável. Guterres afirmou que o financiamento desses objetivos - como a erradicação da pobreza, promoção de educação de qualidade e igualdade de gênero - são um teste "da nossa seriedade", e que hoje os números estão longe do suficiente. 

      Guterres também lembrou que a cooperação internacional é crucial para reduzir a evasão fiscal, a corrupção e os fluxos financeiros ilícitos que privam os países em desenvolvimento de dezenas de bilhões de dólares em recursos potenciais para seu desenvolvimento. Ele anunciou que, em outubro, será lançada uma Aliança Global de Investidores para o Desenvolvimento Sustentável, responsável por cerca de US$ 16 trilhões. "Vou contar com o apoio deles (cerca de 30 CEOs de todas as regiões) para transformar esses objetivos de aspirações em ações, e também no alinhamento do financiamento às estratégias nacionais de desenvolvimento sustentável".

      Presidente da 74ª Assembleia-Geral, o nigeriano Tijjani Muhammad-Bande reforçou as "tremendas oportunidades" de investimento no financiamento do desenvolvimento sustentável e disse que hoje há uma diferença anual de US$ 2.5 trilhões por ano entre recursos disponíveis e as necessidades para se atingir os objetivos definidos em 2015. "Precisamos gerar recursos, aumentar os investimentos privados e reduzir os fluxos ilícitos de dinheiro, que são uma perda para o desenvolvimento sustentável".

      *O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas 

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      Macron rebate Bolsonaro: 'Não é questão de lobby, queremos ajudar futuro da Amazônia'

      Presidente francês não assistiu ao discurso do brasileiro na abertura da Assembleia-Geral da ONU: 'Eu estava em uma correria'

      Beatriz Bulla, Ricardo Leopoldo, Giovana Girardi, Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

      24 de setembro de 2019 | 12h30

      NOVA YORK - O presidente da França, Emmanuel Macron, não assistiu ao discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia-Geral das Nações Unidas, mas rebateu um dos argumentos do brasileiro. Cerca de 30 minutos após o discurso, questionado pelo Estado sobre a fala de Bolsonaro, Macron disse que não se trata de interesse econômico na floresta, mas de pensar no futuro da região que é “um bem comum”.

      “Eu estava em uma correria e não vi o discurso”, disse Macron. Diante da informação de que Bolsonaro afirmou que há interesse colonialista e de exploração da riqueza da região por parte dos que criticam o governo brasileiro, o francês respondeu.

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       “Eu acho que todos nós só queremos ajudar as pessoas da Amazônia. (…) Temos muitas pessoas envolvidas no (debate sobre) futuro da Amazônia e acho que o que queremos fazer é ajudar as pessoas, com completo respeito pela soberania, ajudando o povo. Não é questão de lobby ou interesse, os lobbies são para destruir a floresta para seus próprios interesses. O que nós queremos fazer é ajudar pessoas para elas mesmas e para o futuro da Amazônia, porque é um bem comum.”
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      Emannuel Macron, presidente da França

      Enquanto Bolsonaro saía do plenário da Assembleia-Geral após assistir ao discurso do presidente americano Donald Trump, o francês se reuniu no corredor da ONU com o governador do Amapá, Waldez Góes (PDT). Não há previsão de encontro bilateral entre o governo federal brasileiro e a comitiva francesa.

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      Ricardo Salles: 'Brasil fará discurso de esclarecimento e oportunidades'

      Às vésperas da Assembleia-Geral da ONU, ministro do Meio Ambiente diz que há desinformações sendo repetidas e que é preciso destacar oportunidades de investimento no Brasil

      Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

      22 de setembro de 2019 | 11h26

      NOVA YORK - O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o Brasil quer transmitir para a comunidade internacional um esclarecimento sobre o que de fato está acontecendo no território brasileiro na questão ambiental - em especial na Amazônia - e exaltar as oportunidades de investimento no País.

      Ele está nos Estados Unidos desde quinta-feira, onde tem se reunido com investidores e autoridades locais, e recebeu o Estado para um café no hotel em que está hospedado no sábado, 21, em Nova York. 

      A presença do ministro coincide com a greve do clima, que mobilizou milhões de jovens em 130 países na sexta, e permeia o período da cúpula global de mudanças climáticas, na segunda, e da Assembleia-Geral das Nações Unidas, onde o presidente Jair Bolsonaro discursará na terça, 24. Em ambas as ocasiões, o governo brasileiro vai procurar rebater as críticas que têm recebido.

      Durante a semana, diplomatas ouvidos reservadamente pela reportagem na ONU demonstraram preocupação com o que consideram um possível retrocesso na política ambiental brasileira. 

      "(Queremos) Desmistificar essa falsa ideia de que houve um desmonte do sistema ambiental, de que houve flexibilização da legislação ou da fiscalização, de que o Brasil não se importa com meio ambiente. Não é verdade. Temos que esclarecer tudo isso para que essas mentiras ou desinformações não continuem a ser repetidas", afirmou. 

      O ministro disse ainda que é preciso mostrar o potencial de investimentos ambientais no País, em áreas como créditos de carbono e pagamentos por serviços ambientais. "Há uma gama enorme de oportunidades e o Brasil é o principal canal privilegiado para receber esses recursos", afirmou o ministro, que também já foi secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo no governo Geraldo Alckmin (PSDB). 

      Em reportagem recente, o jornal britânico de economia Financial Times afirmou que o Brasil ficou de fora da cúpula do clima por não ter mostrado interesse, assim como Austrália, Arábia Saudita e Estados Unidos. Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, tem defendido que os países deveriam apresentar, nesta cúpula, ações e não discursos. Sobre a questão, Salles disse que, se abrirem uma oportunidade para o Brasil falar, está pronto para apresentar suas colocações. 

      “Os países que estão dizendo que vão aumentar suas ambições na verdade não vão fazer mais do que o Brasil já fez. Portanto, não precisamos aumentar uma ambição, que já é a NDC (contribuição nacionalmente determinada) mais ambiciosa do mundo. Os outros países é que têm de vir atrás e tentar igualar o Brasil nas suas NDCs”

      Líder ambiental

      Questionado sobre a avaliação de que o Brasil teria perdido seu papel de líder na defesa do desenvolvimento sustentável e do meio ambiente com o novo governo  - especialmente após o aumento dos incêndios na Amazônia -, o ministro negou e lembrou que o Brasil tem um Código Florestal restritivo e um "volume enorme" de recursos sendo utilizados para a manutenção das reservas legais e das áreas de proteção permanente "sem nenhum tipo de apoio de compensação pública". 

      Destacou, em ambos os casos, que outros países não fazem isso. Salles também citou os números da preservação da Amazônia  e da mata nativa ao redor do Brasil. "Dizer que perdermos uma liderança em desenvolvimento sustentável é simplesmente ignorar que as coisas continuam. São coisas que o brasileiro faz".  

      Ele disse ainda que houve uma alteração de paradigma na política ambiental. "Colocamos a defesa do desenvolvimento econômico sustentável, a harmonização entre a parte econômica e ambiental como prioridade", disse, afirmando que governos anteriores pensavam o tema ambiental de forma isolada, sem a preocupação econômica. "Nós deixamos 20 milhões de brasileiros para trás na Amazônia, que é a região mais rica do Brasil em termos de recursos naturais, mas com o pior índice de econômico. Entendemos que essa não é a maneira adequada". 

      Cooperação internacional 

      Nesta semana, o enviado especial sobre mudanças climáticas na 74ª Assembleia-Geral da ONU, Luís Alfonso de Alba, disse ao Estado que a instituição está destacando a importância de uma ação coordenada dos países afetados pelos incêndios na Amazônia. Perguntado sobre se o País aceitaria recursos externos ou uma cooperação internacional, Salles afirmou que sim e que tratou do tema em reunião com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. 

      "Mas tem um ponto: o Brasil não abre mão de escolher como usar os recursos recebidos de qualquer forma - fundo perdido, cooperação, financiamento, empréstimo. Nenhum estrangeiro vai dizer qual política pública nós temos que adotar", afirmou, destacando que a destinação dos recursos vai ter "viés de preservação" e prestigiar a visão de desenvolvimento econômico sustentável. 

      *O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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      Na ONU, jovens pedem 'justiça climática' e renovação política

      Mil pessoas participam de evento na sede da Organização das Nações Unidas para chamar atenção para mudanças do clima; secretário-geral fala em 'momento de mudança'

      Paulo Beraldo*, O Estado de S.Paulo

      21 de setembro de 2019 | 14h46

      NOVA YORK - Cerca de mil jovens dos cinco continentes se reúnem neste sábado, 21, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, para pressionar políticos a adotarem ações imediatas para reduzir as consequências das mudanças climáticas. O evento acontece um dia após a greve global do clima, que mobilizou milhões de pessoas em 130 países. 

      Participam da ação ainda empreendedores, executivos, diplomatas e representantes da maior parte dos 193 Estados-membros da ONU. Na segunda, a instituição é palco da cúpula global do clima e, na terça, da Assembleia Geral das Nações Unidas, principal encontro de líderes mundiais. 

      Na abertura do evento, a ativista sueca Gretha Thunberg, uma das líderes das manifestações, exaltou os resultados da greve do clima. "Mostramos que estamos unidos e que nós somos imparáveis", afirmou, sob aplausos. 

      O secretário-geral das Nações Unidas, o português Antônio Guterres, defendeu a necessidade de paz entre as pessoas e o planeta, dizendo que as mudanças climáticas têm criado mais conflitos ao redor do mundo ao forçarem migrações e tornarem regiões improdutivas. Segundo ele, graças ao movimento já há impacto na atuação de cidades, governos e do setor privado. "Ainda estamos perdendo a corrida, a mudança climática está correndo mais rápido que nós, mas há uma mudança e, largamente, devido a vocês", afirmou ao se dirigir aos jovens. 

      Jovens sentados à mesa

      O Estado entrevistou jovens diferentes regiões do planeta no evento e, de todos, ouviu sobre a necessidade de os políticos serem responsabilizados pelas consequências da crise do clima e implementarem mudanças concretas. Também pediram mais participação dos jovens nos processos de tomada de decisão e na política. 

      "Queremos mais jovens sentados à mesa tomando decisões. Cada estado de cada país precisa de jovens em alinhamento com as políticas locais", disse o norte-americano Jaylen Boone, observador da Associação das Nações Unidas dos EUA, para quem a renovação política é crucial. "As mudanças climáticas já estão aqui: agora é uma questão de justiça climática". 

      São semelhantes as palavras de Mirana Andriarisoa, que viajou quase 14 mil quilômetros de Madagascar até Nova York. Em seu país, oito em cada dez habitantes trabalham na zona rural, o que aumenta a vulnerabilidade a secas, enchentes, tempestades e extremos climáticos. "Madagascar tem sido muito afetado e as pessoas estão ficando mais pobres", disse ela, sobre a nação de 25 milhões de habitantes localizada no continente africano. "Os países desenvolvidos são muito mais responsáveis pelas mudanças climáticas, então eles precisam tomar atitudes imediatas. Precisamos de ações mais sérias e de justiça climática". 

      Um documento da Federação Internacional da Cruz Vermelha (IFCR) divulgado na quinta-feira estimou que o número de pessoas precisando de ajuda humanitária por causa de mudanças climáticas pode chegar a 200 milhões por ano em 2050 se nada for feito. Intitulado 'O custo de não fazer nada', o estudo mostra ainda que, nos próximos onze anos, os custos anuais podem chegar a US$ 20 bilhões.

      'Nossa casa está pegando fogo' 

      A espanhola María Laín Hernandez Ballesteros, que faz mestrado em cooperação internacional no seu país, reforçou uma das mensagens mais repetidas nas marchas de sexta: 'nossa casa está pegando fogo' e 'não há planeta B'. "É agora ou nunca. As decisões dos políticos vão determinar o nosso futuro e estamos aqui para falar diretamente com eles", afirmou. "É muito importante que haja novos políticos e que as gerações mais novas sejam ouvidas nas decisões". Hoje, há 1,8 bilhão de jovens no mundo, o maior número da história. 

      Eleala Avanitele, voluntária da Federação Internacional da Cruz Vermelha em Tuvalu, país formado por ilhas na Oceania, diz que as nações insulares são as mais afetadas pelas mudanças climáticas, em especial por causa da elevação do nível do mar. "Queremos mostrar que a mudança climática é uma realidade nos nossos países, é a nossa vida diária. Só estamos pedindo respeito e ajuda". 

      "Em Bangladesh, somos as vítimas inocentes das mudanças climáticas, um dos dez países mais vulneráveis a eventos climáticos. É uma população enorme (183 milhões de habitantes) e os extremos climáticos são muito sérios para nós. Precisamos mudar essa realidade", afirmou Tassin Udin, de 21 anos, que pede união dos jovens contra a falta de atitude dos políticos. 

      Mudança e conscientização

      Marafi Dafaalla, representante da organização Arab Youth Climate Movement no Qatar, diz que existem movimentos em seu país para aumentar a conscientização sobre desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas. O trabalho de seu grupo é a ir a universidades e escolas para falar com jovens sobre o tema. Ela diz, inclusive, que parte da classe política tem apoiado essas medidas. "Fomos convidados pelo ministério do Meio Ambiente do Qatar para representar a juventude, eles nos apoiam e têm feito esforços para isso". 

      *O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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        Cúpula do Clima da ONU tem algumas promessas, mas não o suficiente

        Ideia era que líderes se comprometessem a fazer mais do que prometeram no Acordo de Paris. Brasil, Estados Unidos e Japão ficaram de fora das declarações oficiais

        Giovana Girardi* e Paulo Beraldo**, O Estado de S.Paulo

        24 de setembro de 2019 | 06h00

        NOVA YORK - Uma conferência que começou com uma garota magrinha e pequena de 16 anos fazendo acusações fortes e emotivas de que os líderes mundiais estão roubando seus sonhos e sua infância com palavras vazias tinha de se esforçar muito para conseguir atender as altas expectativas. Algumas coisas foram prometidas, mas ainda não o bastante.

        A Cúpula do Clima da ONU realizada nesta segunda-feira, 23, foi convocada pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, para que os países trouxessem planos concretos para combater as mudanças climáticas. A ideia era que líderes se comprometessem a fazer mais do que prometeram no Acordo de Paris, visto que as metas apresentadas em 2015 colocam o planeta em direção a um aquecimento de cerca de 3ºC em média até o final de 2100. O objetivo do acordo é ficar bem abaixo de 2ºC, preferencialmente em 1,5ºC.

        Guterres abriu a conferência lembrando que a "natureza está brava”. “A gente se engana se achar que conseguimos enganar a natureza. Porque a natureza sempre revida. E em todo o mundo natureza está rebatendo com fúria”, disse. Por vários dias ele afirmou que não teria voz quem apenas viesse com discursos bonitos, mas quem tivesse ações. Foi nesse espírito que Brasil, Estados Unidos, Japão ficaram de fora das declarações oficias.

        "Há um custo para tudo, mas o maior custo é não fazer nada. O maior custo é subsidiar uma indústria de combustíveis fósseis que está morrendo, construindo cada vez mais usinas a carvão e negando o que é claro como o dia. Que estamos em um buraco climático profundo e para sair, precisamos primeiro parar de cavar. Afinal, é senso comum doar trilhões em dinheiro dos contribuintes para a indústria de combustíveis fósseis para impulsionar furacões, espalhar doenças tropicais e aumentar conflitos?"

        Guterres foi seguido de uma jovem brasileira, a estudante de Direito Paloma Costa, de 27 anos, e pela adolescente sueca Greta Thunberg, que fez o seu mais emotivo e forte discurso desde que começou a fazer greves escolar às sextas-feiras, há pouco mais de um ano, para cobrar o governo sueco a ser mais efetivo no combate às mudanças climáticas. 

        Em um discurso de pouco menos de 3 minutos, Greta questionou os líderes: “como ousam” não fazer o que lhes cabe? “Tem gente sofrendo, tem gente morrendo. Ecossistemas inteiros estão entrando em colapso. Estamos no começo de uma extinção em massa e tudo o que vocês conseguem falar é dinheiro e contos de fada sobre um crescimento econômico eterno. Como vocês ousam?”, disse parecendo ela mesma estar a ponto de cair em lágrimas.

        É uma menina, afinal de contas, que em pouco mais de um ano se tornou a voz mais ativa e influente contra as mudanças climáticas. Tornou-se um símbolo de esperança por ser alguém que critica de modo muito preciso, que diz o que no mundo diplomático ninguém fala. Ou quando fala, traz de fato muita promessa vazia, como ela pontuou. Ainda assim, é o peso de um modo nas suas costas.

        Na sexta-feira, na grande greve pelo clima que fez os jovens tomarem as ruas em várias partes do mundo, Greta disse em Nova York que não estava sacrificando seus estudos, faltando às aulas para tirar selfies com políticos e ouvir deles que a admiram. Ela disse querer ver ação.

        Alguns líderes que se seguiram a ela trouxeram planos. O presidente da França, Emmanuel Macron, por exemplo, que tem antagonizado com o presidente Jair Bolsonaro, anunciou que não entrará em nenhum acordo comercial com países que tenham políticas contrárias ao Acordo de Paris. Antes do início da cúpula, Macron liderou uma reunião pelo lançamento de uma aliança por florestas tropicais do mundo – das quais a Amazônia é a maior – sem a presença do Brasil, que não enviou representantes para o evento.

        Ao final do dia, Guterres apresentou um balanço: 77 países, muitos do mundo industrializado, se comprometeram com emissões líquidas zero (em que plantio de árvores ou tecnologias consigam absorver carbono excedente da atmosfera) até 2050; 70 países anunciaram que vão aumentar suas NDCs (contribuições nacionalmente determinadas – as metas do Acordo de Paris, no jargão da ONU) em 2020, como índia, China e União Europeia. Vários países se comprometeram com mais dinheiro para as finanças climáticas. Mais de cem líderes do setor privado se comprometeram em acelerar seu movimento para a economia verde. 

        "Eu fiquei tocado com vários exemplos de liderança inspiradora de países que menos contribuem com a crise climática. Os países-ilhas se comprometeram junto a neutralidade de carbono e usarem somente energias renováveis em 2030. Mais de 2 mil cidades prometeram colocar os riscos climáticos no centro da tomada de decisões, criando projetos urbanos inteligentes em relação ao clima. Países como Paquistão, Guatemala, Colômbia, Nigéria, Nova Zelândia e Barbados se comprometerem a plantar mais de 11 bilhões de árvores”, disse o secretário-geral.

        "Mas ainda temos um longo caminho a cumprir. Ainda não estamos lá. Precisamos de muito para atingir a neutralidade de carbono em 2050 e conter o aumento da temperatura em 1,5ºC até o final do século. Mais planos concretos, mais ambição de mais países e empresas. E mais compromissos em encerrar os subsídios para combustíveis fósseis”, disse.

        Estados Unidos não trouxeram nenhum plano. O presidente Donald Trump, que nem estava previsto para aparecer na cúpula, entrou por alguns minutos na plenária, enquanto o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, discursava, e logo depois saiu. Ele estava na ONU somente para participar de um evento sobre liberdade religiosa. O Brasil, que estava na reunião representado pelos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e das Relações Internacionais, Ernesto Araújo, tampouco fez alguma nova promessa.

        Salles disse em entrevistas nos últimos dias que o Brasil tem a NDC mais ambiciosa e que, portanto, não vai apresentar novos planos. A meta do Brasil, porém, implica em zerar o desmatamento ilegal da Amazônia em 2030. A promessa foi feita em 2015. De lá pra cá o desmatamento subiu, com estimativas de ter chegado neste primeiro ano de governo Bolsonaro a uma taxa de 10 mil km².

        *A repórter viajou a convite da organização No Peace Without Justice.

        **O repórter viajou a convite da ONU.

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