Escolha de militar para cadeira de Onyx provoca crise com grupo de Olavo

Olavistas avaliam que, ao dar aos generais postos estratégicos no núcleo do governo, Bolsonaro cria um problema que pode se voltar contra ele

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2020 | 14h58
Atualizado 13 de fevereiro de 2020 | 18h10

Caro leitor,

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de entregar a Casa Civil ao general Walter Braga Netto, chefe do Estado-Maior do Exército, provocou revolta e desconfiança na ala bolsonarista formada por seguidores do escritor Olavo de Carvalho. Nos bastidores, o grupo avalia que, ao se cercar de militares no Palácio do Planalto, dando aos generais postos estratégicos no núcleo do governo, o capitão Bolsonaro criou um problema que pode se voltar contra ele. 

Conhecidos por ver “conspiração” em todos os cantos, os olavistas disputam poder com os militares desde a campanha de 2018. Na Esplanada, o representante mais dileto desse time é o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que, apesar de desgastado, não cairá agora. Mais adiante, Weintraub deve até mesmo ser o formulador do programa ideológico do Aliança pelo Brasil, novo partido de Bolsonaro. 

Amigo de Weintraub e de malas prontas para o Ministério da CidadaniaOnyx Lorenzoni sai da Casa Civil após entrar em confronto com o general Luiz Eduardo Ramos, que há sete meses assumiu a Secretaria de Governo. Foi o próprio Bolsonaro, no entanto, que criou o embaraço ao chamar Ramos para comandar a articulação política do Planalto com o Congresso, esvaziando funções que antes eram de Onyx. Até hoje, no quarto andar do Planalto, o corredor que separa os gabinetes de Onyx e Ramos é conhecido como “Faixa de Gaza”.

Indicado por Onyx para a Cidadania, Osmar Terra retomará o mandato de deputado na Câmara. A ala fardada do governo não se cansa de repetir que as últimas crises ocorreram no “núcleo gaúcho”.  Na prática, desde meados de 2019, o então todo poderoso chefe da Casa Civil – que é pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul – vem sendo “fritado” em praça pública. No mês passado, por exemplo, quando estava em viagem de férias nos Estados Unidos, Onyx foi visitar Olavo de Carvalho, ideólogo do bolsonarismo e guru dos filhos do presidente. Parecia um pedido de proteção. Não adiantou. O ministro antecipou o retorno ao Brasil após ver o número dois da Casa Civil, Vicente Santini, ser demitido por uso indevido do avião Força Aérea Brasileira (FAB). Para piorar, Onyx perdeu o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) para Paulo Guedes, titular da Economia.

Em um ano de eleições municipais, sem uma base de apoio no Congresso, com programas sociais empacados e um partido que ainda não saiu do papel, Bolsonaro quer agora que o general Braga Netto cuide da coordenação dos ministérios. Com fama de “durão”, Braga Netto foi o interventor na segurança pública do Rio, em 2018, mas entrou em atrito com o governador Wilson Witzel, eleito naquele ano.

Sob Bolsonaro, a interlocução política com o Congresso continuará a cargo do general Ramos, que, no fim de 2019, foi obrigado a cumprir promessas feitas por Onyx para pagamento de emendas parlamentares. O Centrão foi duro com Ramos: era isso ou ninguém votava mais nada. Foi um toma lá, dá cá para ninguém botar defeito. 

Ramos, porém, fará agora dobradinha com o novo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Ex-deputado, Marinho teve importante papel na conquista dos votos para a reforma da Previdência. 

Ainda assim, as mudanças no primeiro escalão são vistas com ceticismo pelo Congresso. Até aliados de Bolsonaro estão com pé atrás diante de mais um reforço verde-oliva no “governo de generais”.  

Filiado ao DEM, mesmo partido de Onyx, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, continua irritado com Bolsonaro. A portas fechadas, Maia avalia que o Planalto quer transferir para o Congresso o ônus de fazer as “maldades” da reforma administrativa em um ano eleitoral. Embora sem citar Guedes, Maia não deixou dúvidas sobre quem falava, na segunda-feira, 10, ao criticar o uso de “termos pejorativos” sobre o assunto depois que o comandante da Economia comparou funcionários públicos a “parasitas”. 

Nesse enredo pré-carnaval, Bolsonaro se reaproximou do vice-presidente, general Hamilton Mourão, escolhido para coordenar o Conselho da Amazônia. Detalhe: os olavistas também não gostaram de ver Mourão recuperar o protagonismo, após nove meses de ostracismo. Para eles, o golpe está logo ali na esquina.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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