Bolsonaro brinca com fogo no Congresso e Centrão reage

Parlamentares se incomodam com falta de pagamento de emendas

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 18h03

Caro leitor,

Deputados do bloco conhecido como Centrão pressionam o Palácio do Planalto a quitar a dívida assumida em troca da aprovação da reforma da Previdência. Agora, cobram o pagamento das emendas parlamentares na segunda-feira e ameaçam paralisar votações, caso o dinheiro não seja liberado

Em reunião realizada no último dia 20, no gabinete da presidência da Câmara, líderes de vários partidos não pouparam nem mesmo  o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, ali presente.

Foram duas horas de críticas. Em tom duro, muitos deles acusaram o articulador político de Jair Bolsonaro de não cumprir acordo. Na lista dos mais exaltados estavam Wellington Roberto, do PL, e Jonathan de Jesus, do Republicanos. Os dois afirmaram que o governo não tinha palavra e, além disso, semeava intrigas. Disseram que não se importariam nem mesmo se seus apadrinhados nos Estados fossem demitidos.

Um dos presentes contou que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou a bater na mesa, sem esconder a irritação com o Planalto. “Eu não bato na mesa. Mas o governo tem de executar o que foi combinado. Só isso”, disse Maia ao Estado.  

Na tentativa de desanuviar o ambiente, o presidente do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva (SP), mais conhecido como Paulinho da Força, argumentou que “o general” era homem de palavra, em referência a Ramos. Logo depois, no entanto, avisou: “O governo tem de honrar compromissos, porque senão o clima aqui vai ficar insustentável.”

A portas fechadas, a “culpa” pela falta de pagamento das emendas foi debitada na conta do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. No Planalto, interlocutores de Onyx atribuem sua fritura ao próprio Ramos.  

A equipe econômica alega não ter dinheiro para quitar de uma vez o que foi prometido. Trata-se de uma quantia de aproximadamente R$ 2 bilhões em emendas para que um grupo de deputados apoiasse as mudanças na Previdência. Naquele mesmo dia, logo depois da ruidosa reunião  na Câmara, Ramos levou Paulinho da Força, Elmar Nascimento, líder do DEM, e Cláudio Cajado (PP-BA) para um almoço com Bolsonaro, no Planalto. 

“Como foi lá?”, perguntou o presidente ao general. Diante dos deputados, Ramos contou tudo, até os xingamentos. “Vou pedir para o PG ver isso”, reagiu Bolsonaro, assegurando o pagamento das emendas, ainda que aos poucos. “PG” é o apelido dado por ele ao ministro da Economia, Paulo Guedes. 

Depois de muitas queixas, porém, a conversa do almoço tomou outro rumo e deputados defenderam com entusiasmo a liberação dos cassinos no País. Bolsonaro disse que seria preciso, antes, ouvir a bancada evangélica

“Nós vamos criar uma frente mista contra a legalização dos jogos de azar”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) ao Estado. Evangélico, Sóstenes não estava no almoço, mas contou que conversará novamente com Bolsonaro sobre a polêmica. “Querem reabrir cassinos e usar isso para lavar dinheiro sujo”, insistiu ele.  

Entre um problema aqui e outro ali, Bolsonaro vai “toureando” o Congresso. Nos bastidores, até seus aliados dizem, no entanto, que ele está “brincando com fogo”. Que, nesse caso, não é nem fogo amigo.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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