Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Boulos diz que PT não é ‘adversário’ e defende ‘projeto de esquerda renovado’

Candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo e coordenador do MTST diz que as pautas do presidente Jair Bolsonaro e do governador João Doria estão 'destruindo o País'

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2020 | 16h05
Atualizado 16 de outubro de 2020 | 20h42

O candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo e coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, defendeu nesta sexta-feira, 16, a necessidade de se “construir um projeto de esquerda renovado”. Em um claro aceno ao maior partido que deteve a hegemonia da esquerda por anos, ele afirmou que não vê o PT – que tem como candidato o ex-secretário municipal Jilmar Tatto – como um adversário na disputa municipal. As declarações foram dadas durante a segunda sabatina do Estadão com candidatos na capital paulista.

Na entrevista, Boulos manteve a estratégia de atacar as gestões do presidente Jair Bolsonaro e dos tucanos João Doria, governador do Estado, e Bruno Covas, atual prefeito e candidato à reeleição. “Por que eu vou ter o PT como adversário? Eu tenho que ter como adversário quem está destruindo o País com um projeto autoritário e quem está destruindo o Estado e a cidade com um projeto elitista”, disse. “Trabalhei muito para que a gente tivesse unidade de esquerda nessa eleição.”

Oponentes e pesquisa  

Boulos é atualmente o terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, com 10% na pesquisa Ibope/TV Globo/ Estadão divulgada nesta quinta-feira, 15. Está atrás justamente do candidato bolsonarista, Celso Russomanno (Republicanos), que tem 25%, e do tucano Covas, que tem 22%. “A nossa candidatura é aquela que se mostra capaz de evitar uma tragédia BolsoDoria no segundo turno”, afirmou, salientando o fato de que é o candidato da esquerda mais bem colocado. “Mesmo uma semana depois do início da propaganda eleitoral, onde eu tenho só 17 segundos, eu cresci 2 pontos (porcentuais). Cresci (na pesquisa) mesmo sem debate”, afirmou. Sobre o fato de pontuar mais entre os eleitores com maior renda e escolaridade, apesar de apresentar uma pauta direcionada às periferias, Boulos afirmou que essa é a fatia do eleitorado que já o conhece. “A minha taxa de conhecimento entre as pessoas de maior escolaridade é 80%.”

Lula e o PT

Questionado se gostaria de receber o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Boulos disse que “sonha em ter o apoio da maioria da população de São Paulo”. “Neste momento, Lula tem o partido dele e o candidato dele”, acrescentou. 

Márcio França

O candidato do PSOL se recusou a classificar o quarto colocado nas pesquisas, Márcio França (PSB), como um candidato de seu campo. “Eu não vejo o Márcio França no campo da esquerda, ele é aquela velha biruta de aeroporto”, afirmou, acrescentando o oponente socialista já foi vice-governador do tucano Geraldo Alckmin e chegou a apoiar Doria na disputa pela prefeitura em 2016. “Como o (presidente Jair) Bolsonaro não quis apoiar ele aqui, ele ficou órfão e veio recorrer à esquerda.” 

Renda básica

Na sabatina, o candidato criticou o fato de Covas ter dado aval nesta semana a um projeto de lei do vereador Eduardo Suplicy (PT) sobre renda básica. A proposta garante, durante três meses, um auxílio emergencial de R$ 100 por indivíduo de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família, vendedores ambulantes, trabalhadores informais. Perguntado se o PSOL votaria a favor do projeto, Boulos afirmou que a iniciativa não é séria. Disse que respeita Suplicy, que historicamente atua pela renda básica, mas chamou de demagogia a articulação do prefeito. “Eu fiquei estarrecido quando vi o tuíte do Bruno Covas (apoiando a ideia). Como é que pode? O cara ficou quatro anos no governo e não propôs uma renda básica. Nós estamos há sete meses numa pandemia sem nenhum auxílio da Prefeitura.”

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Ocupações

Perguntado a respeito de quais ações tomaria em relação aos loteamentos irregulares promovidos pelo crime organizado em áreas de mananciais à beira de represas, principalmente na Zona Sul da cidade, Boulos afirmou: “A luta por moradia eu conheço bem. As pessoas foram sendo jogadas para regiões distantes de São Paulo. Uma coisa é a luta por moradia e a situação dos sem-teto. Outra é quem se aproveita da luta dos outros. Nunca aceitei gente que usa da carência das pessoas para vender lote, para extorquir. Vou investigar como prefeito e não permitir que aconteça.”

“Atuei no movimento sem-teto com orgulho, moro na periferia de São Paulo. Há três anos, tomei a decisão de entender que a luta no movimento social é importante, mas sem a caneta na mão é tudo mais difícil. Não dava para deixar as mesmas pessoas que levaram ao descrédito completo a política. Decidi ser candidato a presidente e agora, junto com Erundina, a prefeito de São Paulo (...) “São minhas escolhas de vida. Sou filho da classe média paulistana. Nasci numa família de classe média, estudei em escolas particulares parte da vida, tive oportunidades que muitas pessoas não têm. Contradições da sociedade começaram a me incomodar. Ninguém em sã consciência passa por uma rua, vê alguém humilhado e acha isso natural. Eu peguei esse incômodo e fui fazer algo. Jovem, fui para a escola pública, montei grêmio, depois fui morar com os sem-teto, em uma ocupação em Osasco. 

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Pacaembu e concessões

Em seu plano de governo e na entrevista, Boulos prometeu revogar a concessão do Estádio do Pacaembu, realizada pelo governo do PSDB. Questionado como faria isso – já que a quebra de contrato prevê multas – o candidato disse que vai realizar auditoria nas licitações. “Quero ver com lupa lá. Não quero sair rasgando contrato, mas, onde houver irregularidade, eu vou romper”, afirmou. Boulos acrescentou que, caso seja eleito, não dará continuidade às privatizações. 

Cracolândia

Sobre a região da cracolândia, no centro de São Paulo, o candidato reafirmou sua intenção de retomar o projeto Braços Abertos, implementado durante a gestão de Fernando Haddad (PT). No entanto, ao invés de contar com a rede hoteleira para o abrigo dos atendidos, o candidato disse que vai incluí-los nas Casas Solidárias, proposta geral de acolhimento para pessoas em situação de rua. A ideia é que esses estabelecimentos acolham grupos menores em relação aos locais voltados para esse fim atualmente, com o acompanhamento de assistentes sociais e psicólogos./ RICARDO GALHARDO, TULIO KRUSE E MILIBI ARRUDA E PAULA REVERBEL

 

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