TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Arthur do Val diz que São Paulo ‘não tem dinheiro para dar auxílio’ e que proposta é ‘populista’

Em sabatina do ‘Estadão’, o candidato do Patriota diz que Prefeitura ‘só atrapalha’ e faz ‘diferença negativa’ na vida das pessoas

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 15h59
Atualizado 20 de outubro de 2020 | 19h56

O deputado estadual Arthur do Val (Patriota), candidato à Prefeitura de São Paulo e que é conhecido como Mamãe Falei, afirmou, durante sabatina do Estadão desta terça-feira, dia 20, que considera a promessa de qualquer auxílio financeiro municipal como uma estratégia populista. A proposta de uma ajuda financeira consta entre as ideias defendidas por diversos candidatos, inclusive Celso Russomanno (Republicanos), que lidera as pesquisas de intenção de voto e conta com apoio do presidente Jair Bolsonaro.

“E acho completamente populista qualquer tipo de renda que se prometa e você que está me ouvindo aí tem que ouvir: aumento de imposto, ponto final. São Paulo não tem dinheiro para construir absolutamente nada, não tem dinheiro para dar auxílio para ninguém”, afirmou. “Eu duvido que o Bolsonaro seja amigo de fato do Celso Russomanno e, mesmo que fosse, (duvido que) ele teria dinheiro para entregar para a cidade fazer auxílio populista”, acrescentou. 

Para Entender

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De acordo com a mais recente pesquisa Ibope/TV Globo/Estadão, divulgada na quinta-feira, dia 15, Russomanno aparecia com 25% e o atual prefeito Bruno Covas, com 22% das intenções de voto. Guilherme Boulos (PSOL) tinha 10%, Márcio França (PSB) estava com 7% e Arthur com 2%.

Na sabatina, Arthur do Val também defendeu a ideia de que a Prefeitura “só atrapalha” a vida das pessoas. “Quando eu digo que a Prefeitura só atrapalha, não estou dizendo que ela não faz a diferença na vida das pessoas, muito pelo contrário. Eu falo que ela faz (diferença), de maneira negativa. Portanto, eu acho que ela deve fazer menos diferença na vida das pessoas, justamente deixando as pessoas mais livres”, defendeu.

‘Não concordo com o Papa quando ele elogia Júlio Lancellotti’

Ao longo da entrevista, Arthur do Val voltou a criticar o padre Júlio Lancellotti, conhecido pela atuação na Pastoral Povo da Rua, que o deputado tem acusado de fortalecer políticas públicas “ineficientes” que seriam responsáveis pela “degradação” do centro. Mamãe Falei também disse discordar do endosso que o Papa Francisco deu ao padre. “Eu não concordo com o Papa (Francisco) quando ele diz ali que o (padre) Júlio Lancellotti faz um bom trabalho, assim como eu não concordo com o Papa quando ele recebe o Lula no Vaticano e tece elogios à gestão do PT”, disse.

“Eu não acho que artista do Leblon que apoiam o Júlio Lancellotti saibam a realidade aqui de São Paulo quando estão a 400 km daqui e não sabem o que é você morar na Rua Helvétia (via da região central tomada pela cracolândia), você sai na rua e não consegue simplesmente sair com o celular na mão que você é roubado instantaneamente”, concluiu na sabatina. Opositores de Arthur têm classificado o discurso dele como higienista.

Arthur do Val deu a entender que não procedem as afirmações do padre segundo as quais ele vem sendo alvo de ameaças e bullying depois de entrar na mira do deputado. “É muito engraçado que o Júlio Lancellotti venha se dizer ameaçado agora sendo que tem diversos relatos dele na internet dizendo que ele está sendo ameaçado, inclusive um de janeiro deste ano”, comentou o candidato sobre os relatos de bullying do padre.

‘Liberal não significa liberbobo’

Na sabatina, o deputado afirmou que ser liberal não significa ser o que ele chamou de “liberbobo’, em referência a um defensor do liberalismo econômico que acredita que o mero enxugamento do Estado resolveria todos os problemas de política pública. 

“Quando a gente se define como um liberal, isso não significa ser um 'liberbobo', como a gente chama”, disse. Em seguida, o candidato mudou o tom de voz e imitou o que seria a fala de um “liberbobo”: “Ai, é só tirar o Estado que tudo se resolve”. Arthur do Val disse que não pensa dessa maneira. 

“Agora, de fato, eu não acho que, quando você depende de Prefeitura, você está bem amparado. Eu tenho certeza que todo mundo que está me ouvindo agora sabe que todas as vezes que você dependeu da Prefeitura, você se ferrou, e não tem outra palavra mais fraca para usar. Quando você depende da Prefeitura, você está ferrado”, concluiu.

‘Diferente de Bolsonaro, eu nunca neguei a política’ 

Perguntado sobre qual a garantia que o paulistano tem de que, caso eleito, de que ele não irá se abraçar com o Centrão e com a Câmara municipal, assim como Bolsonaro fez no Congresso Nacional, Arthur do Val defendeu a necessidade de diálogo e disse que a aproximação que o presidente tem feito com o Legislativo federal é “completamente diferente”.

“Em nenhum momento eu neguei a política e em nenhum momento eu neguei a (necessidade do Prefeito fazer) aliança, muito pelo contrário. O que o Bolsonaro está fazendo é completamente diferente. Eu digo que se você não escolher e se você não fizer política, alguém vai fazer por você”, alegou. Ele também afirmou que sua postura de “brigão” não significa que ele não é aberto a conversas.

Em outro momento, o deputado estadual, quando perguntado do apoio que deu à eleição de Bolsonaro, recordou que só apoiou o atual presidente no segundo turno, quando ele próprio já estava eleito para um mandato na Assembleia Legislativa. Hoje Arthur do Val é crítico do presidente.

‘Dizer ser contra a corrupção é como defender a paz mundial’

O deputado afirmou que se dizer contra a corrupção é uma postura fisiológica semelhante a defender a paz mundial. “A coisa mais fisiológica que você pode dizer é vir aqui e falar: ‘Oi, tudo bem? Eu sou contra a corrupção’. É a mesma coisa que eu chegar aqui e dizer: ‘Oi, pessoal, quero a paz mundial’. O meu plano de governo foca em nenhuma promessa fisiológica ou lista de desejos”, argumentou.

Ele defende a redução do número de funcionários de livre nomeação do executivo e a revogação de leis inúteis que, segundo ele, só servem para que fiscais possam achacar empresários. Como exemplo de uma lei inútil, ele citou o caso de uma norma de 1993 que foi revogada e que obrigava bares bares, lanchonetes, restaurantes e similares a instalar tablados de madeira na parte anterior dos balcões.

“São leis que ajudam o fiscal a ganhar uma propina”, argumentou. O atual prefeito Bruno Covas (PSDB) sancionou parcialmente em setembro um projeto do vereador Fernando Holiday, aliado de Arthur, que revogou dezenas de leis do tipo. Na sabatina, Mamãe Falei disse ser favorável a um mandato para o controlador do município.

‘A cracolândia está ligada a erros urbanísticos’

“Nós temos a chance histórica de redefinir a nossa cidade urbanisticamente”, afirmou, sobre a revisão do plano diretor que está marcada na lei para ser entregue por quem estará sentado na cadeira de prefeito no próximo mandato. “A cracolândia não é uma questão apenas de assistencialismo ou de porrada da polícia. A cracolândia em São Paulo está intrinsecamente ligada a erros urbanísticos que nós viemos cometendo desde o anos 1950”, afirmou.

O candidato defendeu um “plano diretor mais liberal” como forma de “dar mais vida para o centro”, facilitando a entrada da iniciativa privada e revisando alguns tombamentos. Com isso, explicou, caberia aplicar outras medidas direcionadas à cracolândia, como a descentralização de equipamento social e o uso inteligente da GCM para identificação dos traficantes. 

Sem Anitta na Virada Cultural

Questionado sobre propostas para desenvolvimento cultural na cidade, Arthur do Val criticou a Virada Cultural da maneira como é feita hoje. Disse que não tem opinião formada sobre a extinção do evento, mas que não contrataria artistas caros para realizar shows no Centro da cidade numa possível gestão.  “Não é papel da Prefeitura colocar show da Anitta no Centro, onde pessoas já ricas já têm acesso”.

O candidato também avaliou que o gasto com a área em São Paulo é baixo - são R$472 milhões anuais - e comparou com o orçamento para Câmara Municipal, de R$4,7 bilhões. Apresentou propostas de mudanças nos editais da Prefeitura - como restringir 30% da verba total a um mesmo CNPJ e que entidades participantes não possam compor as comissões julgadoras - e falou em pulverizar microfinanciamentos.

Escolha de partido

Sobre sua escolha de partido, o candidato disse que tem muitas semelhanças ideológicas com o Novo. Afirmou que não se lançou a deputado estadual pela sigla em 2018 por discordar de algumas regras, como não poder apoiar candidatos de outras filiações. 

Foi eleito pelo DEM, sigla da qual foi expulso em 2019 por infidelidade partidária. Val disse que não vê a sanção com “maus olhos” por ser contra a obrigatoriedade de filiação e defender a candidatura avulsa

Nas eleições 2020, o candidato disse que procurou diversos partidos - como PP, Podemos e Avante - mas que estes receberam cargos em subprefeituras. “O único partido que não se vendeu foi o Patriota”.

Polícia municipal

Uma das propostas de Val é transformar a Guarda Civil Metropolitana (GCM) em polícia municipal. Após criticar a forma como o ex-prefeito João Doria (PSDB) tentou fazer isso, disse que a mudança não deveria ser somente retórica, e sim de projeto. Em 2017, o tucano tentou modificar o nome da guarda, mas foi proibido pela Justiça de São Paulo.

O candidato do Patriota afirmou que o Executivo municipal tem muita influência sobre o Legislativo e apontou a possibilidade da aprovação de um projeto que prevê, por exemplo, a criação das Rondas Ostensivas Municipais. 

Jovem Capitalista

Em relação à educação, defendeu o programa Jovem Capitalista, para ensinar economia, educação financeira e Direito a estudantes da rede municipal como atividade extracurricular. 

A proposta faz parte do Escola 360, em que o candidato promete manter abertas as instituições nas férias e nos filmes de semana para aulas de reforço, extras e práticas esportivas.

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