Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Padre Júlio conta ao 'Estadão' como foi telefonema do Papa

Francisco telefona para o padre Júlio Lancellotti depois de publicar encíclica sobre desigualdade

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 20h52

Eram 14h15 quando o telefone do padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal do Povo de Rua de São Paulo, tocou. O número parecia ser de uma ligação do exterior. Lancellotti atendeu, pensando se tratar de um jornalista estrangeiro. “Parla italiano o habla español?” perguntou o interlocutor. O religioso respondeu que falava italiano. “Sou o papa Francesco.” “Santidade!”, exclamou o padre. Pela primeira vez, um papa telefonava para um simples padre brasileiro para apoiar seu trabalho e se solidarizar com os moradores de rua.

O telefonema de papa Bergoglio ocorreu na semana em que o pontífice publicou um dos mais importantes documentos de seu papado, a encíclica Fratelli Tutti (Todos irmãos), que, como escreveu o cardeal dom Odilo P. Scherer em artigo ao Estadão, representa a “convicção cristã de que a humanidade, apesar de suas diferenças, é uma grande família de irmãos”. O gesto marca ainda a véspera da comemoração de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do País.

É Lancellotti, um sacerdote conhecido por denunciar violências contra adolescentes e moradores de rua na cidade de São Paulo, quem conta ao Estadão os antecedentes do telefonema. O padre enviou uma carta ao papa relatando o trabalho ao lado dos moradores de rua e as dificuldades que enfrentava em sua pastoral. De fato, no dia 18 de setembro, o padre foi alvo do candidato a prefeito Artur do val, o Mamãe Falei (Patriota). “O que o Padre Lancellotti faz é deplorável”, escreveu o político. Ele disse que ia desmascará-lo e o acusou de ser uma farsa. Foi obrigado pela Justiça Eleitoral a retirar o post.

O caso não era a primeira ameaça que o padre enfrentava em razão do trabalho em áreas degradadas da cidade, como a Cracolândia, na região central. “Mandei fotos de meu trabalho ao papa. Eu queria muito conversar com Francisco, mas achava muito difícil”, contou o padre. Ele se lembrou que ainda jovem vira de longe o papa João Paulo II no Brasil e se emocionara. Depois quase conseguira tocar a mão do papa Bento XVI, mas foi impedido por um segurança. Nunca, portanto, havia conseguido conversar com um papa ou mesmo tocá-lo. “É natural. A Igreja tem sua hierarquia”, disse.

Depois de se identificar a Lancellotti, o pontífice começou a falar sem pressa. Perguntou sobre o quotidiano do padre. “Sei das dificuldade que você e os moradores de rua passam. Vi suas fotos e peço que não desanime e permaneça, como Jesus, ao lado dos mais pobres. Vocês têm o meu amor e o meu carinho. Rezo por você e pelos moradores de rua todos os dias e peço que vocês rezem por mim também.”

O telefonema durou cerca de cinco minutos – Francisco tem se notabilizado em seu pontificado pelas ligações que dispara do Vaticano sem aviso prévio. Terminada a conversa, o padre telefonou para d. Odilo Scherer (“A quem devo obediência”) para relatar o diálogo. “Espero que o gesto do papa desperte a consciência das pessoas, assim como sua encíclica, que demonstra a importância do cuidado dos fracos e da atenção aos pobres”, concluiu.

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