Vídeo espalha desinformação sobre eficácia das vacinas e medidas de prevenção contra a covid-19

Vídeo espalha desinformação sobre eficácia das vacinas e medidas de prevenção contra a covid-19

Dona de canal bolsonarista em Juiz de Fora apela para boatos antigos ao criticar empresas não identificadas que estariam exigindo a vacinação de funcionários

Samuel Lima

18 de agosto de 2021 | 13h16

Circula nas redes sociais um vídeo de uma mulher de Juiz de Fora, em Minas Gerais, dona de um canal bolsonarista, defendendo que as pessoas não se vacinem contra a covid-19, nem usem máscaras ou pratiquem o isolamento social, em meio a uma crítica sobre empresas que estariam exigindo a imunização de seus funcionários. O comentário envolve uma série de alegações falsas checadas anteriormente pelo Estadão Verifica e o projeto Comprova. Ainda assim, teve mais de 50 mil visualizações no Facebook.

Ela afirma na gravação, por exemplo, que as pessoas que tiveram a covid-19 estariam “sete vezes mais imunizadas” do que aqueles que se vacinaram. Essa história viralizou recentemente com base em um “estudo de Israel” — que, na verdade, era apenas uma interpretação de um site a partir de supostos dados epidemiológicos do país do Oriente Médio

Em resposta ao Comprova, o Ministério da Saúde de Israel disse que a alegação era insustentável. Adicionalmente, enviou um estudo publicado na revista Lancet que analisou o impacto dos primeiros quatro meses de vacinação no país a partir de dados do sistema público de saúde. Os pesquisadores concluem que as duas doses do imunizante da Pfizer “são altamente eficazes em todas as faixas etárias na prevenção de infecções sintomáticas e assintomáticas por Sars-CoV-2 e hospitalizações relacionadas à covid-19, doença grave e morte”.

O vídeo também engana ao sugerir que casos isolados de mortes de pessoas com imunização completa demonstram que a vacina contra a covid-19 “não tem funcionado tanto assim”. Como explica essa reportagem do Estadão, nenhum imunizante é 100% eficaz no mundo real, mas estudos comprovam que as vacinas reduzem drasticamente o risco de internação e morte no caso de uma infecção pelo vírus.

Vacinação em mega drive thru no Memorial da América Latina, em São Paulo. Foto: Taba Benedicto/Estadão

A eficácia dos produtos é medida por meio de estudos controlados, em que parte dos voluntários recebe a vacina e outro grupo, placebo. Nem médico, nem paciente sabem o que cada um tomou, em um método conhecido como duplo cego, que mitiga o risco de viés comportamental. Depois, as taxas de infecção, hospitalização e óbito são comparadas. Ao mesmo tempo, cientistas acompanham regularmente essas pessoas para verificar a incidência de efeitos colaterais e garantir a segurança. 

As quatro vacinas contra a covid-19 aprovadas para uso no Brasil apresentam eficácia geral acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde: Coronavac (Sinovac), com 50,4%; Covishield (Oxford/Astrazeneca) com 70,4%; Comirnaty (Pfizer/BioNTech), com 95%; e Janssen (Johnson & Johnson), com 66,9%. Esse percentual se refere ao desfecho primário, ou seja, informa o quanto elas protegem contra casos sintomáticos da doença em uma pessoa totalmente imunizada.

Esses números são naturalmente ampliados quando o critério passa a ser o risco de hospitalização e de mortes, demonstrando que as vacinas são altamente eficientes em proteger a população contra a covid-19. Nos estudos clínicos, a Coronavac, por exemplo, mostrou 78% de eficácia em evitar internações, enquanto Covishield e Comirnaty tiveram 100% de eficácia nos dados iniciais da pesquisa e a Janssen, 85%.

Com o avanço da vacinação, os cientistas passaram a avaliar o impacto real das vacinas a partir de dados epidemiológicos em locais com alto índice da população imunizada, como no caso de Israel, com a Pfizer. A Coronavac já foi analisada no Chile e na cidade paulista de Serrana, pesquisadores estimaram a eficácia da Covishield no Reino Unido, e o mesmo ocorreu com a Comirnaty e a Janssen nos Estados Unidos, entre outros exemplos positivos.

No Brasil, boletim epidemiológico da Fiocruz divulgado na primeira semana de agosto mostrou que o País estava com o melhor cenário de lotação de UTI nos estados desde o início da análise, em julho de 2020. Os cientistas avaliaram que as vacinas estão “claramente contribuindo para a redução de casos graves, internações e óbitos no país”, citando como exemplo a maior redução da média móvel de óbitos em relação a de casos e a consequente diminuição da taxa de letalidade. 

A Fiocruz alerta, porém, para a necessidade de se manter as medidas de prevenção contra a covid-19, principalmente diante de um cenário de avanço da variante Delta em vários pontos do Brasil. A média móvel de novos casos estava em 29.117 diagnósticos por dia nesta terça-feira, 17 de agosto, e a de mortes, em 833. 

Na mesma data, 23,58% dos brasileiros já haviam completado o esquema vacinal, enquanto 55,58% da população recebeu ao menos a primeira dose. Especialistas observam que a proteção máxima das vacinas é conferida apenas cerca de duas semanas após a aplicação da segunda dose (ou da dose única, no caso da Janssen).

Vacinas foram rigorosamente testadas e aprovadas pela Anvisa

Em outro trecho da peça de desinformação, a mulher alega que as vacinas seriam “medicamentos em fase experimental”, em uma estratégia para atribuir desconfiança sobre a segurança dos produtos e dizer que estes não foram devidamente testados. Essa tese também é falsa e foi desmentida anteriormente pelo Estadão Verifica e pelo Comprova, em checagens sobre uma palestra de uma médica antivacina dos Estados Unidos e um post viral do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), entre outras.

Todas as vacinas aprovadas no Brasil passaram por uma série de etapas rigorosas de testes para aferir a segurança e a eficácia contra a covid-19. Desde os exames em laboratório e os testes em animais até os ensaios clínicos com milhares de voluntários. Os dados ainda passam pela análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vinculada ao Ministério da Saúde, que precisa autorizar o uso antes de serem disponibilizadas para a população.

Até o momento, foram aprovadas quatro vacinas para uso no Brasil: Covishield (Oxford/Astrazeneca), Coronavac (Sinovac), Comirnaty (Pfizer/BioNTech) e Janssen (Johnson & Johnson). Para se ter ideia, apenas na etapa final de testes em humanos, chamada de fase 3, essas vacinas contaram com a participação de pelo menos 20 mil participantes em cada. 

Vacinação em São Paulo

Jovens fazem fila para se vacinar na capital paulista. Foto: Felipe Rau/Estadão

Os resultados preliminares foram publicados em revistas científicas renomadas, como a Lancet e a New England Journal of Medicine. A Coronavac teve dados do ensaio na Turquia publicado na Lancet, enquanto o artigo que descreve o ensaio com profissionais de saúde no Brasil está em processo de revisão por pares na mesma revista (quando outros cientistas analisam o conteúdo antes da publicação, processo que ocorre com todos os artigos submetidos).

De acordo com a Anvisa, ainda que as vacinas contra a covid-19 tenham sido autorizadas com os estudos de fase 3 em andamento, os dados encaminhados para análise são suficientes para atestar que os produtos são eficazes e seguros. “Durante as avaliações sobre os pedidos de uso emergencial, foi destacado que não há lacunas em relação aos dados de segurança que comprometam o uso destas vacinas.”

Não há casos de infarto, infertilidade e mortes por vacinas

Ao defender que empregadores se responsabilizem pela saúde de seus funcionários vacinados, a autora do vídeo ainda sugere, sem apresentar nenhuma fonte confiável de informação, que as vacinas poderiam causar efeitos colaterais graves como infarto, infertilidade e até mesmo a morte. Em resposta ao Estadão Verifica, a Anvisa declarou que nenhum evento do tipo foi relacionado a vacinas contra a covid-19. 

“As suspeitas de eventos adversos notificados à Anvisa são em sua maioria leves e pontuais”, destaca o órgão de saúde. “Todos os eventos adversos conhecidos, dos mais comuns aos mais raros, estão descritos em bula”. Nenhum dos três efeitos citados no vídeo aparecem nas bulas das quatro vacinas aprovadas no Brasil, como pode ser visto nos documentos abaixo.

Documento

Documento

Documento

Documento

A Anvisa esclarece ainda que “os dados de monitoramento de eventos, os dados epidemiológicos e os dados científicos produzidos mostram que a relação de benefício e risco das vacinas em uso no Brasil são positivos”. E acrescenta que recebe notificações de vários tipos, mas que “não há relação causal estabelecida que altere o perfil de segurança destes produtos”.

Assim como no restante do conteúdo viral, a autora do vídeo parece se basear em boatos antigos. A hipótese de infertilidade, por exemplo, foi espalhada por um ex-funcionário da Pfizer e um político alemão e não encontra respaldo científico. Especialistas consultados pelo Estadão e por outros veículos de imprensa, como o jornal The New York Times, classificaram essa campanha de desinformação como absurda.

A história falsa de que as vacinas poderiam causar infarto também surgiu em dezembro de 2020, com um boato que dizia que o Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador das vacinas nos Estados Unidos, teria emitido um alerta nesse sentido, o que não é verdade. Quanto ao risco de problemas cardíacos, no máximo, pesquisadores identificaram recentemente uma possível relação extremamente rara de as vacinas da Pfizer e da Moderna causarem miocardite e pericardite, duas inflamações que costumam ser brandas e têm tratamento.

O Estadão Verifica também checou conteúdos falsos alegando que as vacinas ocasionaram mortes, geralmente baseados em sistemas de notificação abertos, que aceitam todo tipo de registro e incluem casos ainda não investigados ou descartados pelas autoridades de saúde. Conforme informado pela Anvisa, não existe nenhum caso comprovado de mortes por vacinas, mesmo com mais de 120 milhões de pessoas tendo recebido ao menos uma dose. A covid-19, por outro lado, já matou oficialmente mais de 570 mil brasileiros.

Máscaras e distanciamento social funcionam contra a covid-19

No mesmo vídeo, a mulher questiona a eficácia das máscaras e contesta a necessidade de distanciamento social, contrariando as recomendações do Ministério da Saúde e de instituições de referência globais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). A orientação da OMS se baseia, entre outras evidências, em uma revisão sistemática publicada na revista Lancet, em junho do ano passado. 

Em relação às máscaras, a discussão atualmente no meio científico gira em torno de quais os materiais conferem maior proteção. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, disponibiliza uma longa lista de evidências científicas que demonstram que o material reduz o risco de contaminação pelo novo coronavírus. 

Vários estudos de laboratório demonstraram impacto positivo dos materiais em impedir o espalhamento de gotículas no ambiente e a entrada de partículas pelo tecido. Já as evidências de “mundo real” surgem a partir de pesquisas observacionais e estudos epidemiológicos, que analisam dados de uma comunidade. Não se tem evidências “padrão ouro” como a das vacinas por um motivo simples: não é recomendável expor uma parcela de pessoas saudáveis à contaminação para testar algo amplamente aceito.

Quanto ao distanciamento social, trata-se de outra medida de prevenção considerada essencial por órgãos de saúde e apoiada em evidências sólidas na literatura médica ainda no primeiro semestre de 2020, como mostra essa reportagem da BBC

Para citar apenas três exemplos que demonstram a importância do distanciamento: este artigo divulgado na revista Science que estima o impacto de políticas públicas em 41 países, esta pesquisa publicada na revista Nature que relaciona dados de mobilidade com o número de casos de covid-19 nos Estados Unidos e este estudo do periódico Jama que comparou o nível de contágio em Wuhan, na China, com as medidas de controle no início da pandemia.

O que diz a pessoa que gravou o vídeo

O Estadão Verifica entrou em contato com a autora do vídeo, Lis Macedo, por meio de um número de WhatsApp apresentado em sua página do Facebook. Ela acusou o repórter de praticar “censura” e ameaçou processá-lo judicialmente. Não foi encaminhado qualquer dado que sustentasse as afirmações checadas.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.