Não há indícios de que vacinas contra a covid-19 possam causar doenças autoimunes e infertilidade
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Não há indícios de que vacinas contra a covid-19 possam causar doenças autoimunes e infertilidade

Alegações de médica que integra grupo America's Frontline Doctors, conhecido por espalhar desinformação nos Estados Unidos, não têm respaldo na ciência

Samuel Lima, especial para o Estadão

29 de janeiro de 2021 | 12h47

Circula nas redes sociais um vídeo de uma médica dos Estados Unidos fazendo uma série de afirmações infundadas sobre a segurança das vacinas contra a covid-19. Ao contrário do que sugere o conteúdo viral, não há qualquer indício de que os imunizantes possam causar doenças autoimunes e infertilidade. Especialistas também consideram improvável que os produtos resultem no fenômeno conhecido como potenciação dependente de anticorpos (ADE) e criticam a proposta de se utilizar remédios sem eficácia comprovada no lugar de uma campanha de vacinação.

O vídeo em questão mostra trechos do discurso da médica Simone Gold em uma igreja de Tampa Bay, na Flórida, no dia 3 de janeiro. Ela é uma das fundadoras do grupo “America’s Frontline Doctors” — que ganhou notoriedade depois de aparecer em frente à Suprema Corte dos EUA, em julho do ano passado, dizendo que a covid-19 tinha “cura” e que máscaras seriam dispensáveis na pandemia, o que não é verdade. A gravação chegou a ser compartilhada pelo ex-presidente Donald Trump e pela cantora Madonna.

Em 7 de janeiro, Simone Gold participou da invasão ao Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, em Washington. Extremistas pró-Trump forçaram a interrupção da sessão destinada a certificar a vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais de novembro. Cinco pessoas morreram durante o ataque. Ela foi presa pelo FBI nove dias depois, mas responde em liberdade depois de pagar fiança.

Veja abaixo a verificação das informações falsas ditas pela médica.

Médica dos Estados Unidos faz acusações infundadas sobre segurança de vacinas em vídeo viral. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Vacinas são seguras e foram aprovadas por órgãos de vigilância sanitária

Em Tampa Bay, Gold contraria autoridades de saúde dos Estados Unidos ao desencorajar a vacinação de pessoas de até 70 anos. “Há um risco desconhecido de a vacina experimental causar doenças autoimunes, potenciação dependente de anticorpos e infertilidade para o resto da vida”, alega a médica.

A Food and Drug Administration (FDA), órgão equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, concedeu autorizações de uso emergencial para duas vacinas contra a covid-19, produzidas pelas empresas Pfizer/BioNTech e Moderna. Os dois imunizantes passaram por testes rigorosos até a aprovação, com dados de segurança e eficácia nas fases finais publicados na revista científica The New England Journal of Medicine (Pfizer, Moderna).

Na etapa final desses estudos, 15.210 voluntários receberam o produto da Moderna e 21.720 pessoas foram injetadas com a vacina da Pfizer. Esses participantes foram monitorados, em média, por mais dois meses após a aplicação da segunda dose. As reações mais comuns foram dores no braço, febre, cansaço, dores de cabeça e dores musculares — sintomas de caráter leve a moderado, geralmente, e que desaparecem dentro de poucos dias. Nas análises dos produtos, o FDA sequer cita a possibilidade de doenças autoimunes, ADE e infertilidade como possíveis efeitos colaterais das vacinas (Pfizer, Moderna).

Pesquisas não identificaram risco de doenças autoimunes

Em entrevista ao Estadão Verifica, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Flávio Fonseca, disse que não vê sentido nas afirmações da médica americana. A alegação de que as vacinas com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) — caso de Pfizer e Moderna — poderiam causar doenças autoimunes, por exemplo, não encontra qualquer respaldo no meio científico.

Essas duas vacinas contêm fragmentos genéticos da proteína espinhosa (spike) utilizada pelo coronavírus para infectar células humanas. O objetivo do imunizante consiste em levar até as células instruções para “ensiná-las” a produzir a proteína do vírus. Com isso, elas desenvolvem a capacidade de reconhecer e anular a proteína spike em caso de infecção. A tecnologia de RNA mensageiro deve marcar o início de uma nova era na fabricação de imunizantes, abrindo caminho para tratamentos inovadores contra câncer, problemas cardíacos e várias doenças infecciosas.

As doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imunológico confunde células saudáveis com agentes invasores e passa a “atacar” o próprio corpo. Artrite reumatoide, lúpus e esclerose múltipla são alguns exemplos. “A ideia por trás dessa história é que as vacinas de mRNA poderiam gerar anticorpos anti-RNA e criar a doença autoimune”, relata Fonseca. Mas essa situação não foi identificada em nenhuma etapa do desenvolvimento das vacinas, afirma o especialista. “As pessoas estão expostas o tempo todo a diferentes tipos de vírus, que têm RNA no genoma, e nem por isso desenvolvem a autoimunidade”.

Pelo Twitter, a médica epidemiologista e vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, Denise Garrett, também desmentiu o boato em novembro. “Essa preocupação é porque algumas plataformas de mRNA testadas anteriormente induzem respostas potentes do interferon tipo 1 (moléculas com alta atividade antiviral, produzidas pelo corpo) que foram associadas à inflamação e potencialmente à autoimunidade. Isso não foi observado nas vacinas que estão sendo testadas para a Covid”, escreveu ela.

Estudante de Farmácia prepara seringa para vacinação na Universidade de Pittsburgh. Foto: AP Photo/Gene J. Puskar

Hipótese sobre infertilidade é considerada ‘estapafúrdia’

O suposto risco de infertilidade a partir dos imunizantes, citado pela médica americana, é outra alegação falsa que circulou recentemente nas redes e foi desmentido por especialistas. A história apareceu pela primeira vez em um texto assinado pelo ex-funcionário da Pfizer Mike Yeadon e pelo político alemão Wolfgang Wodarg. Eles afirmam incorretamente que a vacina da Pfizer contém uma proteína importante para o sistema reprodutivo feminino chamada sincitina-1 e que a similaridade com a proteína spike do SARS-CoV-2 poderia acarretar reações cruzadas.

O professor de virologia da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, Fernando Spilki classificou a hipótese como “estapafúrdia” em checagem do Estadão Verifica publicada em dezembro. De acordo com ele, o composto sequer possui a sincitina-1, e a similaridade com a proteína spike do coronavírus é “espúria e não tem dimensão suficiente para provocar nenhuma imunidade cruzada”.

A mesma opinião foi emitida por Stephanie Langel, especialista em imunidade materna e neonatal na Duke University, em verificação do The New York Times. Langel aponta que a proteína spike do coronavírus e a proteína da placenta em questão não têm quase nada em comum. Segundo ela, é altamente improvável que a vacina da Pfizer seja capaz de desencadear uma reação contra esses tecidos.

Anticorpos que pioram a doença só foram observados com a dengue

Gold sugere ainda que as vacinas contra a covid-19 em uso nos Estados Unidos poderiam resultar em uma potenciação dependente de anticorpos (ADE). Esse fenômeno ocorre quando os anticorpos desenvolvidos pelo nosso corpo não são capazes de neutralizar o vírus e, ao invés disso, acabam ajudando os invasores a entrarem nas células, piorando o quadro.

Ainda que essa possibilidade tenha sido levantada no meio científico, também não há evidências de que as vacinas contra o novo coronavírus possam promover essa condição. Flávio Fonseca, da Sociedade Brasileira de Virologia, esclarece que, fora do ambiente de pesquisa, esse fenômeno só foi observado com a dengue. “Até já se conseguiu simular ADE em laboratório para Zika e outros vírus, mas nunca houve registro clínico”, disse ele.

Em agosto, dois cientistas consideraram “improvável” o risco de ADE para vacinas contra a covid-19 em artigo publicado no The Journal of Infectious Diseases. A análise afirma que as doenças provocadas por coronavírus em humanos “não apresentam as características clínicas, epidemiológicas, biológicas e patológicas da doença ADE exemplificada pelos vírus da dengue”.

Outro estudo divulgado na revista Nature, em setembro, discutiu estratégias de mitigação do problema para as vacinas contra o SARS-CoV-2. Os cientistas relatam que os anticorpos “inimigos” foram observados em testes com SARS, MERS e outros vírus respiratórios no passado, mas que “nenhum papel definitivo da ADE em doenças causadas por coronavírus em humanos foi estabelecido”.

Além da falta de evidências, as várias etapas de desenvolvimento das vacinas também reduzem a chance desse tipo de fenômeno ocorrer com os produtos aprovados. Os cientistas são capazes de simular e identificar esses efeitos antes mesmo de começarem os ensaios em humanos. Em 2003, durante a epidemia de SARS, por exemplo, várias candidatas a vacinas foram descartadas quando o problema foi identificado em testes com camundongos e primatas. Esse tipo de substância não é considerada segura e nunca chega ao mercado.

Profissional da saúde segura bandeja com doses da vacina Pfizer contra covid-19, no noroeste da Inglaterra. Foto: Oli SCARFF / AFP

Remédios sem eficácia comprovada não podem substituir vacinas

A médica Simone Gold defende no vídeo o “tratamento precoce ou profilático com medicamentos há muito tempo estabelecidos como hidroxicloroquina e ivermectina” porque, supostamente, o risco seria menor do que as vacinas. Fonseca entende que a comparação é absurda. “Denota, obviamente, uma posição política, e não técnica. Esses medicamentos não tiveram eficácia comprovada contra a covid-19, ao contrário das vacinas, que tiveram”. As pesquisas indicaram eficácia de 95% para o imunizante da Pfizer e 94,1% para o da Moderna em prevenir a infecção pelo novo coronavírus. 

Por outro lado, diversos estudos considerados padrão-ouro no meio acadêmico mostraram que a hidroxicloroquina, associada ou não ao antibiótico azitromicina, não funciona contra a doença. Dois artigos publicados no The New England Journal of Medicine — um deles em pacientes internados e outro no início da infecção — não encontraram diferenças significativas entre aqueles que tomaram o antimalárico e os que receberam placebo. Outro estudo brasileiro, realizado por meio de uma coalizão formada por hospitais e institutos de pesquisa, não só apontou ineficácia da hidroxicloroquina como alertou para maiores riscos de arritmia cardíaca e lesões no fígado.

Já o uso da ivermectina entrou em debate depois que pesquisadores da Universidade de Monash, na Austrália, descobriram que a droga poderia eliminar o vírus em 48h em testes in vitro — ou seja, em culturas dentro do laboratório. A dose utilizada no experimento, porém, é 17 vezes maior do que a dose máxima diária permitida do produto em humanos. Ainda não há comprovação científica de que o vermífugo poderia ajudar na recuperação dos pacientes de covid-19 em situações reais.

Outro argumento enganoso do vídeo é o de que pessoas de até 50 anos não deveriam tomar as vacinas porque têm menos risco de morte. “A vacina é um instrumento de saúde pública, um esforço coletivo. Pessoas imunizadas passam a proteger as outras”, lembra Fonseca. Além disso, só o fato desse risco de morte existir nessa faixa etária já justificaria a vacinação, na opinião do especialista. “No plano individual, também me parece uma estupidez (não tomar a vacina). Se existe uma chance de me infectar e desenvolver um quadro grave da doença, eu vou fazer de tudo para que essa chance não se concretize.”

É falso que nome da doença tenha sido alterado por razões políticas

Simone Gold alega, sem apresentar provas, que “socialistas” mudaram o nome do vírus ao longo da pandemia. “Antes era vírus de Wuhan, depois virou o coronavírus, e então ele se tornou covid-19”. A Organização Mundial da Saúde (OMS), no entanto, evita associar nomes de doenças a cidades, países, regiões ou continentes, pelo menos, desde 2015, segundo documentos oficiais da entidade (abaixo).

Documento

O anúncio oficial da nomenclatura foi feito em 11 de fevereiro de 2020. A OMS foi a responsável pela escolha do termo “covid-19” para indicar a doença, enquanto o Comitê Internacional de Taxonomia Viral nomeou o agente infeccioso como “coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2″ (SARS-CoV-2).

Na ocasião, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que os nomes não fazem referência a localizações geográficas, animais ou pessoas de propósito — justamente para prevenir o uso de termos que podem ser “imprecisos ou estigmatizantes”.  Isso não impediu que políticos conservadores, como Donald Trump, continuassem propagando os termos “vírus de Wuhan” ou “da China” de forma xenófoba nos meses seguintes. Cientistas também reclamaram da presença contínua desses nomes no meio acadêmico

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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