Não, agência dos EUA não alertou que vacinas contra covid-19 podem provocar enfarte

Não, agência dos EUA não alertou que vacinas contra covid-19 podem provocar enfarte

Na realidade, FDA listou efeitos adversos que seriam monitorados em testes de imunizantes, o que não quer dizer que essas reações ocorreram

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

14 de dezembro de 2020 | 12h38

Não é verdade que a Food and Drug Administration (FDA), órgão americano equivalente à Anvisa, tenha emitido um alerta sobre os riscos de vacinas contra covid-19 levarem à morte e provocarem enfarte ou outras condições médicas graves. Na realidade, em outubro a FDA listou possíveis efeitos adversos que seriam monitorados nos testes de imunizantes. Isso não quer dizer que essas reações negativas tenham ocorrido. Na sexta-feira, 11, o órgão aprovou o uso emergencial nos EUA da vacina produzida pela Pfizer e a startup alemã BioNtech.

A alegação enganosa sobre a FDA está em artigo do site bolsonarista Terça Livre sobre a morte do padre John M. Fields na Pensilvânia, Estados Unidos, em 27 de novembro. Apesar do título “Padre que se ofereceu para teste de vacina da covid-19 morre”, o próprio texto esclarece que não há correlação entre os ensaios clínicos do imunizante desenvolvido pela norte-americana Moderna com a morte do religioso. 

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Um obituário divulgado  pela Archeparchy of Philadelphia, instituição religiosa na qual o padre trabalhava, confirma que ele era voluntário nos testes do imunizante. Ao anunciar o falecimento de Fields nas redes sociais no dia 28, a igreja disse que as causas da morte ainda eram incertas. 

Posteriormente, o padre Michael Hutsko, da igreja Saint Peter and Paul, na Pensilvânia, afirmou ao site religioso Aleteia que Fields não tinha covid-19 e que uma das causas do óbito poderia ser ataque cardíaco, o que não foi confirmado.

O texto do Terça Livre, no entanto, usa a notícia da morte do padre para propagar a desinformação de que o FDA teria alertado para os riscos de ataque cardíaco. “Mesmo que a causa da morte do padre Fields não esteja sendo relacionada como efeito colateral à vacina, o FDA (Food and Drug Administration) órgão americano equivalente à Anvisa, alertou em 22 de outubro para possíveis efeitos colaterais que vacinas contra o vírus chinês poderiam causar”, afirma o artigo enganoso. 

O texto apresenta um slide retirado de um documento divulgado pelo diretor do Departamento de Estatísticas e Epidemiologia da agência, Steve Anderson, apresentado em conferência virtual no dia 22 de outubro. O documento expõe planos e diretrizes para monitorar a eficácia e a segurança de imunizantes da covid-19.

Os eventos adversos listados não são associados a nenhuma vacina contra o novo coronavírus, muito menos representam um alerta. Trata-se, na verdade, de uma relação de episódios adversos hipotéticos, que são mencionados como referência para monitoramento após o licenciamento dos imunizantes. O slide anterior indica que os itens da lista foram selecionados levando em conta critérios da literatura científica e experiências regulatórias com outros imunizantes. 

“Como indicado no slide, esta é uma descrição dos possíveis, [mas] não conhecidos, eventos adversos que a FDA vai monitorar à medida que a vacina for implementada” explicou um porta-voz da agência ao site americano Politifact.

Na última quinta-feira, 10, o comitê consultivo da FDA recomendou a aprovação do uso emergencial da vacina produzida pela Pfizer e a startup alemã BioNtech. Na terça-feira, a agência já havia confirmado a eficácia e segurança do imunizante após avaliar os dados de ensaios clínicos em humanos. As vacinas começaram a ser distribuídas nos EUA nesta segunda-feira, 14.

Monitoramento contínuo

Ao Estadão Verifica, o virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flavio Fonseca destacou que os estudos de vacinas contra o novo coronavírus não serão encerrados após a aprovação emergencial. Segundo ele, os participantes dos estudos ainda serão acompanhados por alguns anos. Um comunicado da FDA diz que a agência vai “monitorar continuamente a segurança das vacinas para detectar rapidamente problemas de segurança, caso estes existam”.

Com a distribuição dos imunizantes, autoridades também devem monitorar passivamente a ocorrência de eventos adversos de pessoas que recebem as doses da vacina, mas não fazem parte do grupo de voluntários dos estudos. Isso já acontece com outras vacinas a partir dos relatos de pacientes, familiares e profissionais de saúde.

Fonseca explica que listar possíveis efeitos colaterais de referência é uma prática comum de estudos clínicos de imunizantes. Ele reforça que isso não significa que as vacinas não são seguras ou que os efeitos colaterais estejam associados ao produto pesquisado. “A chance do evento adverso ocorrer pode ser mínima, mas tem que estar elencada porque faz parte do estudo”, aponta.

O especialista ressalta ainda que não existem vacinas sem efeitos colaterais e destaca que os estudos dos imunizantes de covid-19, incluindo a vacina da Pfizer e BioNtech,  indicam a ocorrência de eventos de grau leve a moderado, como dor no local da aplicação e febre.

Estadão Verifica entrou em contato com o site Terça Livre, mas não obteve resposta.

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