Campanha de desinformação sobre vacina apela para ligação estapafúrdia entre imunizante e infertilidade
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Campanha de desinformação sobre vacina apela para ligação estapafúrdia entre imunizante e infertilidade

Ex-funcionário da Pfizer faz alegações infundadas sobre riscos do produto desenvolvido por Pfizer e BioNTech

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

14 de dezembro de 2020 | 12h04

Não há evidências de que a vacina contra a covid-19 desenvolvida pela Pfizer em parceria com a startup alemã BioNTech seja capaz de causar infertilidade em mulheres, como sugere um artigo amplamente compartilhado nas redes sociais. Especialistas consultados pelo Estadão Verifica e por outros veículos rechaçam a ideia de que o imunizante possa desencadear resposta imunológica contra uma proteína humana essencial na formação da placenta. 

O artigo analisado foi enviado por leitores ao WhatsApp do Estadão Verifica: 11 97683-7490.

A vacina da Pfizer e BioNTech usa a tecnologia de RNA mensageiro, ou mRNA. O composto contém fragmentos genéticos da proteína espinhosa (spike) utilizada pelo coronavírus para infectar células humanas. O objetivo do imunizante consiste em levar até as células as instruções para produzir a proteína do vírus. Com isso, elas desenvolvem a capacidade de reconhecer e anular a proteína spike em caso de infecção. 

O conteúdo falso, publicado no blog Anonymous Incision, repercute uma petição assinada pelo ex-funcionário da Pfizer Mike Yeadon e pelo político alemão Wolfgang Wodarg em defesa da interrupção dos ensaios clínicos do imunizante da empresa. Yeadon, que não trabalha mais na Pfizer há nove anos, já foi desmentido pelo Estadão Verifica por disseminar informações falsas de que vacinas não são necessárias e de que a pandemia acabou.

O artigo reproduz afirmações incorretas de que a vacina contém uma proteína importante para o sistema reprodutivo feminino chamada sincitina-1 e que a similaridade com a proteína spike do SARS-Cov-2 poderia acarretar reações cruzadas. “Se a vacina funcionar de modo a formarmos uma resposta imunológica CONTRA a proteína spike, também estaremos treinando o corpo feminino para atacar a sincitina-1, o que pode levar à infertilidade em mulheres por um período não especificado”, diz o texto falso.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Fernando Spilki, no entanto, trata-se de uma hipótese “estapafúrdia”. O especialista ressalta que o imunizante da Pfizer nem sequer possui a sincitina-1. Segundo o pesquisador, a similaridade com a proteína spike do coronavírus é “espúria” e “não tem dimensão suficiente para provocar nenhuma imunidade cruzada”. 

“Não foi reportado infertilidade nos grupos vacinados e também não existe nenhuma associação conhecida por infecções de outros coronavírus, ou mesmo o SARS-Cov-2, em humanos e infertilidade”, acrescenta o virologista.

Ao site Associated Press, uma representante da Pfizer negou existirem riscos da vacina promover uma reação cruzada. Outros especialistas consultados em checagens do Fato ou Fake, da Agência Lupa e do site americano Politifact também rejeitaram essa possibilidade. 

Neste sábado, 11, o uso emergencial do imunizante da Pfizer e da BioNTech foi aprovado por autores sanitárias dos Estados Unidos após uma revisão dos dados de segurança e eficácia de ensaios clínicos da vacina. A substância já é aplicada — também de forma emergencial – no Reino Unido desde a última terça-feira, 8.

Não há evidências de que vacina provoca reação imunológica exagerada

O artigo faz outra acusação falsa sobre as vacinas contra covid-19: a de que a formação de “anticorpos não-neutralizantes” poderia levar a uma reação imunológica exagerada no corpo, o que traria problemas de saúde. No entanto, não há evidências de que isso possa acontecer com os imunizantes contra o novo coronavírus.

Os anticorpos não-neutralizantes são células que podem se ligar a uma proteína de um agente invasor, mas não têm a capacidade de anular ataques desse microorganismo. Diante de condições específicas, esses anticorpos, em vez de ajudarem a combater a doença, podem facilitar a invasão das células. Esse fenômeno já foi amplamente documentado em reinfecções por dengue e Zika.

O texto afirma que, após a vacinação, participantes de testes podem ter problemas ao ter contato com o SARS-CoV-2 em ambientes não-controlados — o que o artigo chama de “vírus real ‘selvagem'”. Os autores argumentam que pode ocorrer uma “amplificação dependente de anticorpos, ADE”. Embora de fato a ADE seja uma preocupação de cientistas no desenvolvimento de imunizantes, não há evidências de que as potenciais vacinas contra o novo coronavírus possam promover essa condição.

De acordo com um artigo da The Scientist, nos anos 90, cientistas testaram vacinas contra uma doença infecciosa em felinos e os animais vacinados morreram mais cedo do que os não vacinados. Autores associaram o episódio a uma possível ocorrência de ADE. Isso não prova, porém, que o mesmo pode ocorrer com vacinas de covid-19 ou outros imunizantes em humanos. 

Segundo Fernando Spilki, nenhum caso de reação imunológica exacerbada foi reportado nos ensaios clínicos de vacinas de covid-19 em testes atualmente. “Se aparece nos testes que a vacina está piorando o quadro da pessoa quando ela é infectada, obviamente essa vacina nunca chega no mercado. Isso não foi relatado nos testes de nenhuma das vacinas de covid-19”, ressalta o pesquisador. 

SARS-CoV-2 visto em microscópio. Foto: Divulgação

O polietilenoglicol

O texto diz também que a vacina da Pfizer e BioNTech contém polietilenoglicol (PEG) e 70% das pessoas desenvolvem anticorpos contra essa substância, de forma que o imunizante poderia, segundo os autores, desencadear reações alérgicas fatais. 

Um documento submetido pela Pfizer à Food and Drugs Administration (FDA), agência sanitária norte-americana equivalente à Anvisa, confirma que a substância compõe a fórmula do imunizante. O composto também é encontrado em medicamentos, alimentos e cosméticos, de acordo com a organização sem fins lucrativos de checagem de fatos Fullfact.org. 

Nesta quarta-feira, 9, autoridades britânicas alertaram que pessoas com histórico significativo de alergias severas devem adiar a vacinação com o imunizante da Pfizer depois que dois profissionais de saúde desenvolveram reações alérgicas graves após receberem doses do imunizante. O polietilenoglicol é uma das substâncias suspeitas de desencadear os episódios.

Especialistas afirmaram, no entanto, que não se trata de algo inesperado, visto que reações alérgicas ocorrem com um bom número de vacinas. Os dois pacientes receberam o tratamento adequado e se recuperaram bem. “Não há nenhuma teoria conspiratória, não existe nenhum segredo. [As reações alérgicas] podem ocorrer com uma variedade de vacinas”, afirmou Spilki ao Estadão Verifica

Apesar do desenvolvimento rápido, vacina passou por testes de segurança rigorosos

Na petição, Yeadon e Wolfgang dizem que a “duração muito curta do estudo não permite uma estimativa realista dos efeitos tardios”. “Como nos casos de narcolepsia após a vacinação contra a gripe suína, milhões de pessoas saudáveis estariam expostas a um risco inaceitável se uma aprovação de emergência fosse concedida e se seguisse a possibilidade de observar os efeitos tardios da vacinação”, afirmam. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que, embora o desenvolvimento de potenciais vacinas contra o novo coronavírus avance em tempo recorde, os imunizantes seguem testes de segurança e eficácia rigorosos. “Dada a necessidade urgente de vacinas covid-19, investimentos financeiros sem precedentes e colaborações científicas mudam a forma como as vacinas são desenvolvidas” diz o site oficial da entidade.

De fato, estudos associam a vacina contra H1N1 Pandemrix a um aumento de narcolepsia em crianças e jovens na Finlândia. A doença corresponde a um distúrbio do sono que provoca sonolência excessiva durante o dia. Como destaca o Fullfact, uma pesquisa no Reino Unido mostrou que a ocorrência, no entanto, era extremamente baixa, na ordem de um caso a cada 57 mil injeções. 

A vacina deixou de ser aplicada em crianças e jovens. Não foram identificadas evidências de que outros tipos de imunizantes apresentavam risco de narcolepsia. 

Segundo Spilki, não se espera nenhum problema ao longo prazo de vacinas da covid-19. Ele ressalta que, embora os estudos sejam desenvolvidos de forma acelerada, são pesquisas transparentes e envolvem uma ampla população de voluntários. Na quinta-feira, 10, a revista científica New England Medicine Journal publicou dados da terceira fase de testes da vacina da Pfizer e BioNtech, com mais de 43 mil participantes. 

O perfil de segurança da vacina foi caracterizado por eventos adversos leves e moderados, como dor no local de injeção, fadiga e dor de cabeça. “A incidência de eventos adversos graves foi baixa e apresentou frequência semelhante nos grupos de vacina e placebo”, afirma o relatório. 

Spilki lembra que os estudos de imunizantes contra a covid-19 continuam após a liberação para uso emergencial. “Eu acredito que a nossa preocupação é mais melhorar a eficácia da vacina do que a segurança. Porque em termos de segurança, foi rápido, mas veja quantos milhares de pessoas participaram dos testes”, pontua o pesquisador.

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